Nos últimos dias voltou a circular uma imagem inquietante do Atlântico Norte. Enquanto grande parte dos oceanos surge pintada de vermelho e laranja, evidenciando o aumento generalizado da temperatura global, uma enorme mancha azul destaca-se a sul da Gronelândia. À primeira vista parece uma contradição. Se o planeta aquece, porque existe uma região que aparenta arrefecer?
Como engenheiro Electrotécnico e de Computadores, na área de Controlo e Robótica, fui treinado para observar sistemas dinâmicos complexos, interpretar sinais e reconhecer os primeiros indícios de perda de estabilidade. E aquilo que os climatologistas designam por “Cold Blob” faz-me recordar algo muito familiar: um sistema que começa a comportar-se de forma diferente do esperado.
Na engenharia, os sistemas mais robustos possuem mecanismos de realimentação negativa. São eles que absorvem perturbações e mantêm a estabilidade. Um automóvel corrige a potência quando sobe uma encosta. Uma central elétrica ajusta a produção perante variações de carga. Uma aeronave compensa rajadas de vento para manter a rota.
Durante milhares de anos, o clima terrestre funcionou de forma semelhante. Correntes oceânicas, circulação atmosférica, massas de gelo e padrões de pressão atuaram como gigantescos reguladores planetários. O problema surge quando alguns desses reguladores começam a perder eficácia.
A mancha fria do Atlântico Norte poderá ser um desses sinais. Paradoxalmente, a sua existência pode resultar precisamente do aquecimento global. O degelo da Gronelândia lança enormes quantidades de água doce no oceano. Essa água altera a densidade das massas oceânicas e pode interferir com a circulação meridional do Atlântico, conhecida como AMOC.
Não estamos necessariamente perante um colapso iminente. Contudo, podemos estar perante uma redução gradual da capacidade de autorregulação do sistema climático. Em linguagem de engenharia, diríamos que o sistema continua operacional, mas com menor amortecimento, menor margem de estabilidade e maior sensibilidade a perturbações.
Portugal não é alheio a estas mudanças. Os últimos anos têm sido marcados por uma sucessão de extremos. Invernos muito chuvosos seguidos de secas severas. Ondas de calor cada vez mais frequentes. Tempestades intensas associadas a rios atmosféricos. O próprio Anticiclone dos Açores parece apresentar comportamentos menos previsíveis do que aqueles que marcaram o clima português durante décadas.
Talvez a analogia mais adequada seja a de uma malha de controlo que continua fechada, mas cujo ganho de realimentação diminuiu. O sistema ainda corrige, mas corrige menos. Oscila mais. Demora mais tempo a regressar ao equilíbrio. E torna-se mais vulnerável a perturbações externas.
É precisamente esta perda de previsibilidade que deveria preocupar-nos. Não porque signifique inevitavelmente uma catástrofe, mas porque reduz a nossa capacidade de antecipação. Sociedades modernas dependem da previsibilidade do clima para gerir recursos hídricos, agricultura, energia, proteção civil e infraestruturas.
Na engenharia aprendemos que os acidentes raramente surgem sem aviso prévio. Antes do problema grave aparecem pequenas anomalias, desvios subtis e indicadores aparentemente isolados. A grande questão é saber se estamos a interpretar corretamente os sinais.
A mancha fria do Atlântico Norte não prova, por si só, qualquer cenário apocalíptico. Mas funciona como uma luz amarela num painel de controlo. Ignorá-la seria tão imprudente como ignorar um alarme num sistema industrial crítico.
A verdadeira reflexão não é se o clima mudou. Essa discussão está ultrapassada. A reflexão é perceber até que ponto os mecanismos naturais que durante séculos garantiram estabilidade continuam a desempenhar a mesma função. E se não continuarem, estaremos preparados para um mundo mais volátil, mais imprevisível e mais exigente?
Quando uma luz de aviso se acende num sistema complexo, o objetivo não é entrar em pânico. É investigar, compreender e agir com prudência. Talvez seja exatamente isso que o Atlântico Norte nos esteja a pedir.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.