A transição da vida aquática para o ambiente terrestre permanece como um dos capítulos mais fascinantes da evolução planetária. No centro da moderna compreensão deste fenómeno encontra-se o paleontólogo e biólogo evolutivo Neil Shubin, professor na Universidade de Chicago, que saltou para o estrelato internacional em 2004, como um dos codescobridores, no Ártico canadiano, do Tiktaalik roseae − o fóssil com 375 milhões de anos que revelou o “elo perdido” entre os peixes e os animais terrestres.
Essa descoberta levou-o a escrever o livro Quando Éramos Peixes e, com isso, a cimentar-se como um dos grandes divulgadores de ciência nos EUA. Agora, regressa às livrarias portuguesas com Os Confins da Terra, uma obra focada nas suas expedições às regiões polares, em busca de vida, de pistas para podermos compreender o cosmos e, dessa maneira, tentarmos prever o nosso futuro.
Longe do conforto dos laboratórios, o cientista descreve o desafio logístico e psicológico de procurar respostas para o futuro da Humanidade em rochas e em pedaços de gelo, a temperaturas muito difíceis. Para Shubin, o Ártico e a Antártida não são apenas desertos de gelo, mas os “órgãos vitais” do planeta, arquivos climáticos que guardam segredos sobre o passado da Terra − incluindo eras em que os polos albergavam florestas tropicais − e que funcionam hoje como laboratórios para a astrobiologia.

É com essa bagagem, acumulada ao longo de anos de investigação em diversos pontos do globo, mas também de coordenação de equipas multidisciplinares de cientistas, que Neil Shubin vai iniciar, no dia 1 de julho, uma nova etapa na sua carreira como presidente da prestigiada Academia Nacional de Ciências dos EUA (National Academy of Sciences − NAS).
Essa transição ocorre num momento particularmente tenso nos EUA, com uma Administração Trump que tem cortado sucessivos apoios à investigação científica, além de se empenhar, desde a Casa Branca, em difundir discursos contrários à ciência.
Frente ao ceticismo político, o paleontólogo assume a liderança da comunidade científica com a prioridade clara de defender a literacia científica junto do grande público, argumentando que o investimento na ciência é um motor económico e de bem-estar social, e não uma trincheira ideológica. Fá-lo com um discurso naturalmente cauteloso. Nalgumas das suas respostas percebe-se a prudência para evitar atritos desnecessários. Mas não deixa de assinalar algumas das suas preocupações. Uma delas é bem vincada, quando confirma que a “fuga de cérebros” dos EUA para a Europa e a Ásia já é uma realidade em curso.
No seu livro, Os Confins da Terra, afirma que “fazer ciência nas regiões polares significa enfrentar desafios emocionais, físicos e logísticos para colocar questões fundamentais sobre o passado, o presente e o futuro da vida e do nosso planeta”. Os resultados que encontrou compensaram os sacrifícios?
Tudo passa a valer a pena quando descobrimos algo que nos dá uma nova perspetiva sobre o mundo. Imagine o que é trabalhar durante anos à procura do fóssil de um peixe nas rochas do Ártico e, de repente, num belo dia, vê-lo ali. Ver, pela primeira vez, uma criatura que é um dos nossos parentes mais próximos no mundo dos peixes.
Como é o quotidiano de um paleontólogo num ambiente onde as temperaturas descem dezenas de graus abaixo de zero?
O dia a dia consiste, antes de mais, em garantir que o acampamento e a equipa estão em segurança. Acordar de manhã e conseguirmos vestir-nos no meio de um frio extremo. Normalmente, guardo a roupa comigo dentro do saco-cama para não ter de sair dele para me vestir. Depois, vou até à tenda-cozinha fazer café. Esse é, obviamente, um grande passo. O cheiro a café faz maravilhas numa tenda gelada. Fazemos controlos de segurança depois de todos acordarem e, em seguida, partimos para as rochas à procura de fósseis. Após um dia de trabalho, regressamos, fazemos novos controlos de segurança, jantamos bem, conversamos e, finalmente, caímos num sono profundo.
Como se prepara psicologicamente para passar meses isolado em desertos de gelo? Poderia descrever o momento mais perigoso que viveu numa destas expedições?
A preparação psicológica passa por ter as prioridades bem definidas: 1. Todos regressam a casa em segurança; 2. Fazemos a ciência que fomos ali fazer; 3. Passamos um tempo maravilhoso a aprender sobre o nosso mundo e a desfrutar da companhia uns dos outros. Se me focar muito seriamente no ponto número um, sinto-me preparado. Os piores momentos são aqueles em que as condições meteorológicas extremas destroem o acampamento, com tendas desfeitas pelo vento. Perder as tendas significa perder o nosso abrigo. Por isso, temos de nos desdobrar rapidamente para garantir que ficamos sãos e salvos.
Qual é a chave para a sobrevivência nas regiões polares? E o que é que isso nos ensina sobre as nossas próprias vidas na Terra?
A chave para a sobrevivência é a capacidade de adaptação e a capacidade de resistência. As espécies fazem-no para sobreviver. Há lições a tirar para as nossas próprias vidas. Quando os tempos se tornam difíceis, há que adaptar e resistir.
De que forma a história da Terra está “escrita” no gelo e nas rochas do Ártico e da Antártida? Como funcionam estas regiões como arquivos de climas passados?
O gelo contém camada após camada de neve que caiu em todo o tipo de condições. Conseguimos ler muito sobre a história do clima e das atmosferas através delas. As rochas contêm fósseis e pistas sobre ambientes antigos. Camada após camada, a história reside no gelo e nas rochas.
Por que razão dizemos que o Ártico e da Antártida são os “órgãos vitais” da Terra? Que segredos sobre a evolução da vida ainda estão escondidos sob as calotes polares?
As alterações nas regiões polares da Terra afetam o mundo inteiro. Quando o gelo se derrete ali, os oceanos em todo o planeta mudam: o nível do mar pode subir e descer, e correntes oceânicas importantes podem ser alteradas.

Numa era de satélites, de informação instantânea e de múltiplos desafios para aventureiros, os polos podem parecer-nos hoje lugares mais ou menos familiares. A verdade é que há pouco mais de um século nenhum humano tinha pisado o Polo Norte ou o Polo Sul. E, por causa disso, alguns dos maiores segredos da vida na Terra eram desconhecidos. A verdade é que as regiões polares moldam a vida na Terra muito mais do que imaginamos. E com o aquecimento global e o recuo do gelo, os polos encontram-se agora não só no epicentro da crise climática, como no centro da geopolítica. O que acontece nos polos não fica restrito aos polos. E este livro, escrito por quem foi pioneiro a ler o passado nas rochas mais frias do mundo, permite-nos uma viagem a lugares longínquos e inóspitos, mas também nos impele, com clareza, a abraçar a urgência de protegermos o planeta em que vivemos.
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Como pode a microbiologia extrema encontrada nestes locais ajudar na procura de vida noutros planetas?
Os micróbios que conseguem viver a quilómetros de profundidade sob o gelo mostram-nos os extremos a que a vida pode adaptar-se: sem luz solar, com pouca energia e quase sem ligação a outros seres vivos. Estas condições podem ser semelhantes às de outros corpos do sistema solar. Além disso, as tecnologias que utilizamos para estudar essa vida no gelo poderiam ser aplicadas em satélites.
Podem as alterações climáticas e o consequente degelo apagar os vestígios do passado? Estamos perante uma janela de oportunidade estreita para aprender sobre a nossa história?
Sim, à medida que o gelo se derrete, perdemos registos vitais do nosso passado.
Menciona a dada altura que, ao longo da história da Terra, houve épocas em que seria necessário um casaco quente no equador e apenas um fato de banho nos polos. Como é que isto foi descoberto sob o gelo?
Na verdade, foi descoberto tanto nas rochas do mundo como no gelo. Quando analisamos rochas antigas, conseguimos encontrar períodos em que espécies tropicais viviam nas regiões polares. E conseguimos encontrar outras eras em que os glaciares se fixavam no equador.
Qual é a sensação de encontrar fósseis de criaturas que viveram em climas tropicais no local onde hoje fica a Antártida?
É uma loucura. Vemos uma desconexão enorme entre o presente e o passado. Hoje é um mundo deserto e gelado. No passado, era uma floresta tropical repleta de vida. Dá-nos uma noção de quão drasticamente o nosso planeta pode mudar.
De que forma o movimento do gelo moldou o nosso mundo? E o que podemos esperar que aconteça num futuro próximo?
Podemos esperar a subida do nível do mar devido às alterações nos polos. O quanto vai subir e a que velocidade, não sabemos totalmente. Mas os mares vão, definitivamente, subir num futuro próximo.
Qual é o papel das correntes oceânicas polares na regulação do clima global?
As correntes oceânicas distribuem o calor pelo planeta. Quando essas correntes mudam, os climas locais também mudam.
Como pode o permafrost ser uma “bomba-relógio” biológica?
Há muita coisa armazenada no permafrost, incluindo micróbios antigos. Quando este se descongela, estes micróbios ancestrais podem ser libertados no mundo moderno.
De que forma o degelo dos polos afeta diretamente a biodiversidade em países temperados como Portugal?
O degelo dos polos pode ter vários efeitos em locais como Portugal. Alteração da linha costeira, fenómenos meteorológicos mais extremos e seca devido à diminuição da precipitação são alguns. O impacto exato ainda não conseguimos prever facilmente.
Vai assumir a presidência da Academia Nacional de Ciências (NAS) dos EUA no dia 1 de julho. Como vê a atual postura da Administração Trump relativamente à desvalorização do consenso científico? Qual é a sua principal prioridade?
Uma grande prioridade é fazer com que o público em geral perceba quão importante é ter a melhor ciência disponível para tomar decisões. Precisamos de defender a nossa causa junto do público, para que compreenda a relevância disso.
Qual é o risco real para a Humanidade quando a principal potência mundial corta o financiamento para a investigação climática?
Afeta-nos a todos. Partilhamos um único planeta e estamos todos profundamente ligados uns aos outros. Trabalhar nos polos torna isso muito evidente.
Como pode a NAS proteger os cientistas federais da interferência política? A ciência tornou-se um ato político ou deve permanecer neutra a todo o custo?
Penso que o apoio à ciência não é uma questão política em si. Há uma quantidade enorme de provas que demonstram que o investimento na ciência traz benefícios económicos tangíveis, apoia a saúde, a segurança e o bem-estar. É esse argumento que precisamos de apresentar.
Existe o risco de uma “fuga de cérebros” dos EUA para a Europa ou a Ásia devido às políticas atuais?
Essa “fuga de cérebros” já está a acontecer.
O interesse do Presidente Trump em “comprar” ou anexar a Gronelândia foi recebido com perplexidade. Qual é a sua interpretação científica e estratégica desse movimento?
É profundamente intrigante. Por um lado, o interesse de Donald Trump pela Gronelândia é o reconhecimento de que o clima está a mudar e de que o Ártico assume uma importância geopolítica crescente à medida que se derrete. O que é estranho é que a Dinamarca tem sido uma aliada incrível dos EUA, particularmente no que toca à Gronelândia. Tive o privilégio de ver isso em primeira mão quando colaborámos com investigadores dinamarqueses por lá.
Deveriam os polos ser considerados Património Comum da Humanidade, à semelhança do Espaço Exterior?
A Antártida já é uma zona internacional reconhecida por tratado. O Ártico não é. E isso é um problema atual.
Está familiarizado com o trabalho dos cientistas portugueses no Ártico e na Antártida? Como avalia a contribuição de países mais pequenos para esta área do conhecimento?
A investigação polar portuguesa, embora relativamente jovem, tem dado contributos notáveis para a nossa compreensão dos ambientes mais remotos da Terra. No início de 2025, uma equipa portuguesa deparou-se com um ecossistema nunca antes visto de esponjas, corais, aranhas-do-mar gigantes e polvos a prosperar sob o gelo antártico − exposto apenas após o icebergue A-84, do tamanho de Chicago, se ter desprendido da Plataforma de Gelo George VI. Os cientistas portugueses têm avançado na investigação em várias frentes: monitorizando a forma como o degelo do permafrost liberta carbono e molda as paisagens polares, estudando como os poluentes industriais se acumulam nestes ecossistemas virgens, investigando comunidades microbianas e ciclos de azoto nas águas polares e mapeando a ecologia de lulas e aves marinhas no oceano Antártico. Portugal estabeleceu-se como um colaborador importante para a ciência polar, tanto na frente do Ártico como na da Antártida.
Se pudesse levar o Presidente Trump a uma das suas expedições, o que lhe mostraria primeiro?
Se pudesse, mostraria a Donald Trump o quão maravilhoso é o gelo e como as nossas vidas − as vidas de todos nós − dependem profundamente dele. Aquele lugar também nos dá uma noção da nossa própria vulnerabilidade e de quão ligados estamos uns aos outros e ao planeta.
Qual é a pergunta que a ciência ainda não respondeu sobre os polos e que mais o intriga?
Sabemos que o nosso planeta pode mudar. Sabemos que está a mudar. Mas a que velocidade mudará no futuro e o que significará isso para aqueles de nós que vivem mais perto do equador?