1.
Pousou o cavalete no exacto local onde a vira beijar o homem de barbas, escondido entre duas colunas e uma parede sólida, opaca, intransponível; o tipo de parede que abriga os amores proibidos ou o esboço pintado numa tela nua.
Escolheu o vermelho da paixão. Duas pinceladas e o espectro de um meio rosto que surgia, encoberto por uma máscara veneziana de pluma em ascensão, a ocultar os sorrisos desonestos. Atrás, uma paisagem de fantasia, prados demorados e o Sol tão quente quanto o desejo; umas folhas soltas, os ramos inclinados de uma árvore e o vento que varre o engano. O retrato do que ninguém quer ver, ali, em forma de cores, cativo no desenho, preenchido a sentidos, arrebatado no perigo, no ardor, na tentação.
A senhora aproximou-se, intrigada, de mão no peito, como se brincar com as pérolas do colar lhe libertasse o pensamento e lhe permitisse, finalmente, pensar. Abanou a cabeça, equilibrando um pequeníssimo chapéu preso com ganchos tão frágeis quanto a relação defesa.
“Quanta dor…”
Dor?! O epílogo da exaltação, a pura concupiscência, o calor da aventura! O simples divertimento, qual dor? O artista cobriu a intenção com um traço negro, grosso, mesmo em cima da paisagem demorada criada atrás daquela parede, num acto de raiva exposto atirado à senhora do chapéu. Ela engoliu o ar que os envolvia, largou o colar e bateu os saltos dos sapatos na calçada molhada, de costas à arte embuçada.
2.
Nunca duvidara de que para lá do horizonte se encontrava o vazio. O desafio da humanidade não estava no céu, como pensavam, mas nas direcções do oceano, como eixos de um diagrama cartesiano: infinito nas abcissas e oculto nas ordenadas.
Pousou o cavalete sobre a areia torta, pouco lhe importava o equilíbrio, e escolheu o azul da frieza. Em segundos se agitaram as águas na tela limpa, pinceladas brancas que sobrepunham, inesperadas, a sua própria vontade à vontade dele. O descontrolo, o medo, o abismo. Sabia que alguém se tinha afogado precisamente ali, no ponto para onde olhava — um braço esticado, a ponta de uma unha gasta de tanto lutar. E as cores que imprimiam, para sempre, o desespero.
“Quanta paz, que tranquilidade…”
Olhou o senhor de calções amarelos ridiculamente apertados, que prestigiavam o alojamento local do hambúrguer gorduroso consumido de véspera. Paz?! Um quadro a afundar-se nas desgraças moribundas, nos remoinhos da loucura! Qual paz? O artista molhou o pincel inteiro na tinta negra e salpicou o quadro de irritação, cobrindo eternamente a desesperança de quem jazia naquele mar. O senhor puxou os calções para cima (curiosa gravidade que se cumpre apesar da constrição), soltou um bufo pelo nariz peludo e foi nadar.
3.
Pintar o monstro era a sua maior provocação. Pousou o cavalete em frente à Torre do Relógio, agora estragado, ouvindo o tiquetaque surdo que ainda ecoava na sua memória. O horror de um tempo parado que padecia ao sol e à sombra, como se, naquele lugar, o tempo não dependesse do Sol e da sombra e existisse num contínuo imensurável. Ou não existisse de todo. Sacudiu o arrepio e escolheu o verde da vida: iria renovar as horas, puxar os instantes para trás e dar corda à incessante passagem do destino. No cimo da Torre, desenhou ao pormenor todos os minutos, com a ponta de um pincel tão delicado quanto o tempo em si, arredondando as margens dos números e enfatizando os ponteiros decididos. As cores devolviam-lhe o movimento perdido, em traços de luz e de trevas, mesmo num relógio parado sobre uma tela estanque. Pelas paredes altas, galhos de folhas frescas anunciavam a redenção.
O casal chegou, tão apressado quanto as horas que perdiam.
“Ah, que engraçado! Um relógio abandonado.”
Engraçado?! Abandonado?! A ostentação da flora, da regeneração, de um tempo que voltou a ser! Qual engraçado? Qual abandonado? Regado a verde-esperança, traçado no vislumbre da sorte em si! O artista mergulhou a própria mão no balde de tinta negra e traçou o vestígio de um fado amargurado ao tempo que restava àquele casal. Ela deu um salto para trás, ele inclinou-se para a frente e voltaram a juntar-se no presente para correrem dali de mãos dadas.
4.
Pousou na terra os três quadros malcontentes, como um tríptico de interpretações falhadas que amaldiçoava a sua arte. Pegou no pincel mais robusto que encontrou e no negro mais negro que já se viu e, um por um, começou a vendar os olhares alheios. O desejo confundido com a dor: negro! O desespero baralhado em paz: negro! O renascimento embrulhado em abandono: Negro! Negro! Negro! Negro! A cada pincelada largava a sua cólera, pedaços de frustração que encerravam as restantes cores, absorvendo-as sem escape, até não restar mais nada para ver do que o negro da sua ira. Três quadros negros de rancor e amargura, prostrados no chão, indiferentes ao próprio artista. Nem o Sol, já alto em todo o seu vigor, conseguia iluminá-los.
A menina trazia um gelado de cone que lhe pingava nas mãos um pouco de morango rosa. Parou em frente à obra, lambeu os dedos, inclinou a cabeça e sorriu.
“Que bonito! Um eclipse!”
Inventário do Eclipse é uma associação entre a VISÃO e o Clube das Mulheres Escritoras