Francis Fukuyama, o homem que vaticinou o fim da História, assinou no passado fim de semana um longo texto de análise no Financial Times sobre a vitória de Trump nas eleições presidenciais americanas. Defendeu que a política nacionalista e populista está a redefinir não só os Estados Unidos mas todo o Ocidente, e que o advento de uma América à imagem de Trump marca uma nova era na ordem global. Uma viragem tão radical, compara este pensador – conservador, note-se –, como foi a queda do Muro de Berlim em 1989. Oxalá ele se engane, mas tendo infelizmente a concordar. 9 de novembro de 2016 ficará para a História como um rombo perpetrado por maiorias cada vez menos silenciosas, revoltadas e desiludidas com os resultados da ordem liberal dominante desde os anos 50.
Cumpra Trump ou não metade das promessas eleitorais pelas quais foi eleito (meio mundo, dentro e fora dos EUA, reza agora para que não as cumpra, triste ironia democrática) e sentiremos sempre os efeitos de uma América fechada sobre si própria. Mas, pior do que isso, vamos apanhar por tabela com os efeitos indiretos de um recrudescimento dos discursos radicais racistas, xenófobos e populistas. Quem se apressou naquela noite a congratular-se com a sua vitória? A “amiga” francesa Marine le Pen. Quem foi o primeiro político europeu a visitar Trump e a partilhar a foto no elevador dourado de dedo polegar espetado? O “amigo” Nigel Farage, do Ukip. Não estão sozinhos: deste lado do Atlântico, Viktor Orbán na Hungria, Beata Szydlo na Polónia, Norbert Hofer na Áustria, Frauke Petry na Alemanha devem estar todos a esfregar as mãos de contentes. Até o PNR ganhou, por cá, tempo de antena na praça pública. Não é de estranhar: estes políticos têm a sua vida facilitada. Veem o discurso de extrema-direita sair dos nichos de protesto e elevado a mainstream, além de ostentado com orgulho.
O verdadeiro perigo é que o efeito de contágio é incontornável, tanto no radicalismo e falta de rigor do discurso político como na voz do povo. Gente que aparecia a medo nas redes sociais e nas caixas de comentários dos sites com um discurso racista, xenófobo ou sexista, ganha agora novo alento para bradar a sua intolerância ao vento. Perde-se a vergonha de assumir posições que se pensavam politicamente incorretas e estabelecem-se novas bitolas do aceitável. Abre-se uma caixa de Pandora.
Muitos se apressaram em dizer que as notícias de um cataclismo eram manifestamente exageradas. São mesmo, porque Trump não governa sozinho, e o homem com o discurso anti-establishment na campanha vai ter de acomodar o establishment no governo, claro está. Mas olhar para Trump e para os primeiros nomes revelados da sua equipa de governação (veja artigo adiante) deixa temente qualquer cidadão a quem aflijam os pontos de contacto com a extrema-direita. Diria mesmo, qualquer cidadão humanista.
Se dúvidas houvesse sobre o estilo que vai imprimir à sua governação, olhe-se para o seu estratego principal: o sinistro Stephen Bannon, racista, misógino e antissemita q.b. Um radical que deixou o site Breitbart, o bastião da “alt right” norte-americana, essa direita “alternativa” que junta supremacistas brancos, antissemitas e outras visões extremistas, para liderar a campanha de Trump em agosto e chega agora à Casa Branca. Aquele que a Bloomberg em 2015 chamou “o operacional político mais perigoso da América” estará sentado na Sala Oval ao lado do Presidente. Um motivo de orgulho para o Ku Klux Klan. Pode o cenário ficar mais assustador?
(Editorial publicado na edição 1237 da VISÃO)