Com uma frase a fazer-nos recordar Variações, com o verso que se tornou quase adagiário, “Estou bem. Aonde não estou”, o título do mais recente álbum de Ricardo Ribeiro é uma equação que nos lança no turbilhão das questões de identidade cultural.
Com uma coragem estranha aos dias de hoje, Ricardo Ribeiro entra no cerne das questões que têm sido transportadas para o discurso supostamente identitário. Neste novo álbum, não há fronteiras nem definições. Elas são apenas as do gosto das letras e dos sons que inspiraram Ricardo Ribeiro e um grupo de excecionais criadores que o acompanharam nesta aventura inqualificável.
O fadista, representado pelo público e pela crítica, como tal, dá lugar a um obreiro único do diálogo entre sons e inspirações variadas. Também é fado, mas este álbum é ecos do nomadismo cigano, dos sons andaluzes, de uma forma de vida que não se contenta com rótulos e modelos.
O único rótulo é o da liberdade, que Ricardo Ribeiro leva ao limite da desconstrução das visões nacionaleiras das representações culturais. Com uma clareza que mostra que a coragem é consciente, numa entrevista, Ricardo Ribeiro falava em “ibericidade”, como marca deste seu projeto.
O turbilhão da experiência de ouvir “A Alma Só Está Bem Onde Não Cabe”, encontra-se, seja no ritmo e na inebriação que ele implica, especialmente quando os sons nos lembram essa ibericidade, seja nos poemas que nos sacodem para fora dos lugares-comuns e nos interpelam no âmago do ser.
A vontade de fazer diferente, tal como diferentes são as pessoas e as almas que nelas habitam, é a única regra seguida por Ricardo Ribeiro, seguindo a famosa frase atribuída à poetisa Adélia Prado, que o inspirou na definição da natureza do trabalho: “Pior que medo de alma do outro mundo é o medo da alma do mundo do outro”.
Não há mundo do outro, apenas há a vontade do eu estar também lá e, assim, passar a ser também o meu mundo. Na espantosa definição de título deste trabalho, “A Alma Só Está Bem Onde Não Cabe”, Ricardo Ribeiro dá-nos muito mais que música. Dá-nos uma profunda aula de Filosofia, de crítica à natureza humana, de existencialismo. Porque, mais que inter ou multiculturalidade, nos limites das identidades de que nos temos de despir para aceitar as outras e, assim, as tornarmos também nossas, é a própria definição de humano que Ricardo Ribeiro nos obriga a pensar. O meu ser esgota-se em mim, completa-se em mim?
Essa alma (imagem do eu, não um ente religioso), que procura e se sente com a vontade de ir para o lugar de outra, define-se pela dinâmica, pela contínua sede. Só sou eu quando for tu poderia ser uma síntese do sentido desta definição de alma que coloca o mais subtil e essencial de cada um na realização através do outro, em que o lugar da alma, que não cabe em lugar algum, é a imagem dessa sede que nunca se esgota. Quando eu for tu, quererei ser outra coisa ainda.
Ricardo Ribeiro, além de nos dar boa música, lembra-nos que o humano apenas é humano porque não se esgota na individualidade de cada um. Somos humanos porque buscamos, e buscamos porque em nós nunca nos sentimos completos. É um belo problema de hardware: o imaterial de cada um não foi feito para encaixar no material que temos. Que sorte em ser Humano!
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.