Decerto que se pode atribuir a um escritor ou pensador a frase “toda a literatura parte do corpo e a ele regressa”. Hemingway poderia ser um sério candidato à autoria. Mas a melhor candidatura seria, sem dúvida, Patrícia Reis, num qualquer comentário sobre o seu último livro, o lugar da incerteza (Companhia das Letras, 2026). Não a disse, preferiu colocar em destaque na apresentação do livro uma outra: “Não existem pessoas com boa postura. O corpo tende a ajeitar-se ao que sente”.
Há muitos, muitos anos, ao ver um documentário televisivo sobre o funcionamento do nosso cérebro, descobri um fenómeno que me fascinou e que trouxe de imediato para a forma como analiso e trabalho as sociedades, especialmente as religiões. Através da atenção seletiva ou filtragem sensorial, “retiramos” o nosso nariz do campo de visão; não damos pro ele quando olhamos; ele está lá, mas é como se não estivesse.
Com o corpo, do qual o nariz também faz parte, acontece exatamente o mesmo. Passamos ao lalo dele, sem o notar, a não ser quando ele se impõe. Normalmente, esse eclodir do corpo no quotidiano é para levar o momento para fora do normal: ou é dor e perda, ou é prazer e excesso. Patrícia faz-nos um roteiro hiper completo de como o corpo nos define e determina nos passos que damos.
Todo este o lugar da incerteza é um acumular de situação, centrais na definição de personagens, em que o corpo se impõe, entre no dia a dia, e diz estou aqui! Seja um cancro avançado, mostrando a iminência da morte, seja uma gravidez, ou seja o mais comum e normal desejo sexual, o corpo que pede outro corpo.
E, corpo atrás de corpo, na relação existencial entre as personagens, no moldar das descobertas das linhas de cruzamento dos indivíduos deste romance, temos uma pedagogia de como é viver com um corpo, afinal, aquilo a que todos estamos condenados, porque irrevogável.
É nesse cruzamento, em que a Patrícia Reis nos apresenta um grupo de coincidências que misturam quadros familiares até então aparentemente distantes, tomando boleia da velha máxima que nos diz que “o mundo é pequeno”, que os corpos são levados ao limite do que significam para cada um. A morte de um, e o vislumbre, pelos outros, da sua finitude; a morte de outro, por uma gravidez que o não foi; a perda de vários por essa gravidez que a tantos dizia, mas só a dois significava; a identidade alimentada em memórias de violência que, no fim do dia, moldam uma vida inteira; ou o desejo e as relações de vários, cruzadas com a sede e a vontade, mas matizada pela idade, pelo conforto, pela segurança da não entrega.
Patrícia Reis faz-nos um roteiro, digno de uma cinematografia que deveria chegar a seguir, do corpo como problema humano. Problema que não se encontra no corpo em si, com os limites e características que ele integra, mas que reside na força que ele tem de, por mais que o tentemos não ver, nos afirmar que somos nós mesmos. A metáfora do indivíduo perante o espelho como tomada de consciência é profunda. Precisa de um espelho; mas não acontece sem um corpo que possa ser refletido. A Patrícia dá-nos, neste magnífico livro, muitos corpos para que sintamos o nossos, no espelho da variedade de personagens em que, irremediavelmente, nos iremos encontrar.
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