Acuso a recepção da sua carta, que mereceu a minha melhor atenção. Sei que a endereçou à selecção nacional, mas dizem que a equipa das quinas somos todos nós, pelo que tomei a liberdade de lhe responder. Até para ajudar o nosso seleccionador, que não está com cabeça para assuntos da FIFA, ocupado que anda com outra entidade que mexe com imenso dinheiro e também começa por F, o Fisco. Fiquei sensibilizada com o seu apelo: impedir que o futebol seja arrastado para batalhas ideológicas ou políticas. Concordo. O desporto-rei não pode ser desvirtuado. Senão, de hoje para amanhã, aparece um Emir qualquer, a acenar com um molho de notas, e convence-nos a suspender todas as competições, para fazer um absurdo mundial em novembro, num país com um clima que não convida à prática desportiva. Seria inadmissível. Felizmente a FIFA, na pessoa do Gianni, tem feito um trabalho fantástico na separação do futebol das politiquices. Sinto que às vezes não lhe dão o devido valor. A não ser que falemos do Sheikh Tamim bin Hamad Al Thani, esse consta que lhe deu valores avultados… Quando diz que na FIFA respeitam todas as opiniões e crenças, sem dar lições de moral ao resto do mundo, refere-se também à crença de que ser homossexual é crime? Ou à opinião de que as mulheres não são capazes de tomar decisões sozinhas, precisando de autorização de um homem para viajar, estudar ou casar? Não quero ser injusta, mas fica a ideia de que, para si, contestar os atentados aos direitos humanos no Qatar seria o equivalente a, no Euro 2000, ter embirrado com os galões que os holandeses bebem à refeição (o que é, de facto, repugnante, mas talvez não tanto como condenar vítimas de abuso sexual por adultério). Talvez não devamos pôr ao mesmo nível o café e o kafala. Não sei se já ouviu falar, mas trata-se de um sistema de patrocínio de trabalhadores, muito semelhante à escravatura. Acho que, numa próxima troca de correspondência com as selecções, devia recomendar aos atletas alguns cuidados a ter. Desde logo, e porque serão, durante aquele mês, trabalhadores migrantes no Qatar, é bom que se cinjam às deslocações hotel-estádio e estádio-hotel, caso contrário, quando derem por eles, estarão a construir o próximo estádio ou hotel, debaixo de um calor abrasador, e sem acesso ao passaporte. Mas não julgue, Gianni, que escrevo esta carta só para mandar abaixo. Quero deixar-lhe um elogio, em nome de todos os portugueses: parabéns à FIFA por esta ideia genial de organizar um campeonato do mundo 2022 que, na verdade, se passa em 1540. É uma mistura muito gira de futurismo com inquisição. Pois que role a bola e nos foquemos apenas em alas direitos, não em direitos LGBT ou de trabalhadores estrangeiros. Espero que, enfeitiçados por cada canto ou lançamento de linha lateral, possamos remeter para canto esses assuntos laterais.
Sem outro assunto de momento,
Com os meus melhores cumprimentos,
Joana
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