Chego à praia espanhola que costumo frequentar nas férias. As pessoas vão entrando no areal já tarde à conta do jantar da noite anterior que começou já passava das dez da noite. Vêm veraneantes de todas as idades e feitios. Montam cadeiras de praia, chapéus de sol e toalhas enquanto passam vendedores a vender bolos, mojitos, camisolas de futebol, bijuteria e camarão. Ao fundo vê-se a costa de África de onde se adivinha que alguns desses vendedores tenham vindo.
Os homens descalçam-se e apressam-se a tirar a camisola para se irem refrescar no mar. Entre as mulheres há quem faça o mesmo e há quem opte por manter as duas peças do biquíni ou o fato de banho. Fazem-no independentemente da idade, da forma do corpo e de estarem ou não acompanhadas.
Alguns quilómetros ao lado, noutra praia, o complexo de ruínas romanas ali perto parecia contagiar novos e velhos que, mais sisudos, apreciavam um belo dia de praia tapando devidamente as vergonhas. Toda a gente aceitava com naturalidade que as vergonhas das mulheres não são as mesmas que as dos homens. Não passava pela cabeça de nenhum dos presentes sexualizar os mamilos peludos de um homem tal como não passava pela cabeça de nenhum dos presentes não sexualizar as glândulas mamárias em corpos femininos.
Alguns dias depois, em Sevilha, duas mulheres de Niqab acompanhadas por dois homens que suponho serem seus maridos escolhem postais numa loja de recuerdos entre risadas. No meu telefone, vejo a notícia de que António José Seguro aprovou uma lei segundo a qual “é proibido coagir qualquer pessoa a ocultar o rosto por motivos de género, religião, idade ou origem”.
Para defender a sua decisão, o Presidente disse que “admitir que as mulheres, e só elas, tenham de esconder todo o rosto implica uma assimetria incompatível com os valores de paridade e dignidade igualitária entre homens e mulheres, valores esses que enformam as democracias europeias”. Nada disse sobre as mulheres, e só elas, terem de esconder as mamas.
Eu sei que a comparação pode parecer disparatada, mas na verdade só o é para aqueles cujas referências culturais normalizaram a sexualização das mamas e a normalização de outras partes do corpo feminino. Aceitamos que, num contexto religioso, freiras cubram todo o corpo menos a cara, com a mesma naturalidade com que estranharíamos que o mesmo fosse exigido aos padres. Aceitamos a omnipresença do julgamento do corpo de mulheres com presença pública sob o fino manto de uma muito falsa preocupação: “coitada, está tão gorda, aquilo até lhe faz mal à saúde”.
Mas, quando penso nas praias espanholas a que aludi, não poderíamos arquitetar aqui um argumento que fosse mais ou menos no mesmo sentido? Poderíamos dizer que as mamas fazem parte do corpo das mulheres, que são parte da sua feminilidade e que não podemos aceitar que haja mulheres que se sujeitem aos opressivos valores culturais e religiosos que impõe que as cubram? Não poderíamos proibir que as mulheres tapassem o peito porque certamente estão a sujeitar-se ao jugo patriarcal? Por outras palavras, porque é que quando a lei diz que “é proibido coagir qualquer pessoa a ocultar o rosto por motivos de género, religião, idade ou origem”, ninguém pensou em substituir “rosto” por “corpo”?
A resposta é tão simples quanto desanimadora. Hoje, como sempre, os corpos das mulheres são regulados e controlados ao sabor dos interesses políticos e das motivações morais de quem se está a marimbar para elas.
Proibir o uso de roupa que tape partes do corpo por se partir do princípio que quem o faz fá-lo de forma contrariada é passar um atestado de menoridade a todas as mulheres, é negar-lhes agência. É, no fundo, dizer-lhes para estarem quietinhas e sossegadas porque há quem saiba o que é melhor para elas. E não deixa de ser particularmente revelador que estas ânsias de controlar o corpo das mulheres venham a coberto de discursos condescendentes de libertação e venham precisamente dos setores que mais torcem o nariz quando se fala em igualar direitos e oportunidades para homens e mulheres.
Isto para não falar da sonsice em torno do uso do argumento da segurança como se mulheres a usar roupa que lhes tapa a cara estivesse na origem de alguma preocupação séria nesse domínio.
Para além do tema específico que enche páginas de jornais, há uma discussão mais profunda que passa despercebida na voragem dos dias: a forma como os corpos das mulheres são campo de batalha para as disputas políticas daqueles que querem ver a sua moral transformada em lei.
Com muita confusão, muita gritaria, muito atiçamento de medo, muito fantasma agitado, é sempre a questão de fundo que fica ignorada num canto. São os corpos mais regulados, aqueles cujos padrões de beleza são mais exigentes, aqueles que não podem ter pelos, que não podem mostrar marcas de envelhecimento, que precisam de ser lisos e limpos, sexualizados e contidos, trabalhados e naturais, os que se vêem mais uma vez relegados à mera condição de objeto. Porque na verdade isto não tem nada a ver com emancipação das mulheres e tem tudo a ver com a já mítica lata europeia de achar que se sabe o que é melhor para os outros.
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