O Mundial de 2015 será visto como uma das mais importantes edições de sempre dos mundiais de rugby.
Porque digo isto? Por inúmeras razões…
A primeira prende-se com a diminuição do abismo que, tradicionalmente, existe entre as principais potências do rugby mundial e a restantes nações.Não me refiro apenas à extraordinária e histórica vitória do Japão sobre a África do Sul (que jogão!!!) mas acentuo o facto de, pela primeira vez num mundial, não ter existido resultados acima dos 100 pontos.Longe disso! Mesmo os jogos entre os melhores e mais fracos se mostraram bem mais interessantes e disputados do que em edições anteriores. É um ótimo sinal para a modalidade…
Dito isto, não posso deixar de salientar, no entanto, a constatação da maior clivagem de sempre entre as melhores seleções do Norte (Inglaterra, Gales, Irlanda, França – levou 64 pontos dos All Blacks nos quartos de finais!!! Safou-se a heróica e surpreendente Escócia) e as melhores seleções do Sul (Nova Zelândia, Austrália, Argentina e Africa do Sul).
Mas, para quem gosta da modalidade, julgo que é com justeza que se verifica a diferença do rugby praticado. Uma diferença que deverá fazer pensar os dirigentes e organizadores do hemisfério Norte. Um rugby cada vez mais sustentado no profissionalismo, na construção de equipas “galácticas”, em suprimento do desenvolvimento do rugby amador e de todos os valores que comportam o mesmo.
Num artigo futuro abordarei este tema. Um tema que não é pacífico e cuja implementação prática é tremendamente difícil.
Mas voltando ao sucesso desta Rugby World Cup 2015, registem-se, também, os recordes das assistências nos estádios e, claro, o ambiente único vivido nesses mesmo estádios, onde festa e respeito convivem lado a lado, numa manifestação desportiva espetacular.
Não posso deixar de registar também, e apesar de todo o mediatismo que, de forma natural, vai crescendo em redor das equipas, jogadores, treinadores e todos os demais intervenientes no jogo, a forma como todos têm conseguido resistir ao espirito da polémica e da mesquinhez, nomeadamente no que respeita à questão das arbitragens.
Lembro, por exemplo, a derrota da Escócia nos quartos-de-final com a finalista Austrália… Derrota esta fruto de um erro de arbitragem que, noutros desportos, teria gerado comportamentos inaceitáveis dentro e fora de campo. Aceitando a decisão do árbitro, não se viu um único ato reivindicativo ou de exaltação dos escoceses. A comunicação social, sedenta de polémica, ainda tentou acender o fogo… Fogo este brilhantemente afastado quer pelos dirigentes do rugby mundial que, tendo assumido o erro de arbitragem e salientando que não haveria meios tecnológicos para evitar o mesmo, fizeram valer os mais altos valores do rugby onde se insere, nomeadamente, o respeito e acatamento da pessoa dos árbitros.
Falando de arbitragens, sendo que os esforços da IRB (mais alta organização do rugby mundial) para reduzir o erro das arbitragens é imenso (o vídeo árbitro é um belíssimo exemplo), parece evidente que os erros sempre existirão.
Há quem defenda revisões e novos processos para que a arbitragem seja ainda mais “mecância”. Eu defendo que os esforços feitos até aqui são de louvar e mais que suficientes. Importante é fortalecermos e relembrarmos os princípios e valores que os antigos nos ensinaram sobre o respeito pelo árbitro. Evitando repetidos e insistentes comentários sobre os seus desempenhos. Aliás, um conselho que se deverá estender a todos os campos de atuação da modalidade.
Não será com mais regras, regulamentos e diretrizes que melhoraremos. O rugby deve ser regido pela conduta e pelos seus valores. Se todos forem honestos e fieis a essa conduta e valores, o rugby será sempre um grande desporto.
Na campeonato do mundo, esta conduta e valores ganharam!
Os capitães mais humildes e genuínos (McCaw e Pocok são um enorme exemplo) estão a disputar os lugares cimeiros; Treinadores como Hourcade, Jones, Cheika e Hansen pela capacidade de conduzirem exércitos de trabalho e humildade (a equipa australiana limpa o seu próprio balneário; o Capitão McCaw é aguadeiro quando suplente; Fernandez Lobbe, antigo capitão e um dos mais velhos Pumas, não teve qualquer problema em ceder o cargo de capitão ao jovem Crevy, em nome da união do grupo; Cooper tem estado no banco sempre a apoiar a equipa); e tanto mais fica por dizer…
O rugby sai reforçado deste Mundial. E sai reforçado sem prescindir dos seus valores e sem ceder ao facilitismo do mediatismos e da criação das estrelas fugazes. Os heróis que primam pela consistência, humildade, coragem e determinação ganharam! Que bom para o rugby!!!
* Este artigo foi escrito antes da final mas com a certeza de que, independentemente de quem levar a Web Ellis Cup, o rugby é o grande vencedor deste Mundial 2015.