Há lugares que nos obrigam a parar e pensar. Não porque sejam frágeis, mas porque transportam uma força acumulada em séculos de relação entre substrato, pessoas e ecologia. São territórios que guardam uma memória longa, feita de práticas agrícolas, de mosaicos agroflorestais, de usos que foram moldando a paisagem e criando aquilo a que chamamos identidade, saberes, artes e cultura. A área onde se prevê instalar o megaprojeto fotovoltaico e a linha de muito alta tensão Sophia, estendendo-se pelos concelhos de Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova, é um desses lugares. E, perante a escala da intervenção, a pergunta torna-se inevitável: quanto estamos dispostos a perder em nome de uma transição energética que já não corresponde, na prática, à promessa de sustentabilidade que a legitimou? O Sophia implica uma alteração profunda num território cuja resiliência depende de equilíbrios delicados: solos férteis, sistemas agroecológicos diversificados, corredores ecológicos essenciais e um património cultural vivo que não existe separado da paisagem que o sustenta. A análise cruzada dos impactos revela um padrão consistente: perda de funções ecossistémicas, fragmentação de habitats, pressão acrescida sobre a água, aumento da erosão e uma intrusão visual capaz de reconfigurar toda a leitura e a mensagem da paisagem. Não estamos perante um ajustamento controlado, mas perante uma transformação estrutural radical com efeitos cumulativos difíceis de acomodar, integrar, compensar e reverter. Mas o impacto não é apenas ecológico, é também cultural e simbólico. As Aldeias Históricas e os territórios envolventes não são meros cenários: são infraestruturas identitárias, resultado de séculos de trabalho, abandono, retorno e reinvenção. Sobrepor-lhes milhares de hectares de infraestrutura técnica equivale a redesenhar a relação das comunidades com o seu lugar. E essa perda de relação tem consequências profundas. A perda não se compensa com medidas técnicas ou contrapartidas financeiras. Quando se perde, fragiliza a coesão, a confiança e a continuidade, três pilares que sustentam a vida no Interior.
Do ponto de vista ecológico, a ideia de reversibilidade é largamente ilusória. 40 anos de operação significam compactação prolongada, erosão acumulada, perda de fertilidade, diminuição da biodiversidade e empobrecimento dos solos, tudo o contrário do que a Avaliação de Impacto Ambiental afirma. A experiência internacional mostra que a restauração pós-megaprojeto é lenta, dispendiosa e raramente devolve as condições originais. A regeneração exige tempo ecológico, não apenas decisões administrativas. Num país já pressionado pela desertificação e pelo despovoamento, comprometer água, solo e biodiversidade é comprometer a base material da nossa sobrevivência futura.
Há ainda uma dimensão ética que não pode ser ignorada. Quando a transição energética se impõe aos territórios, e não é construída com eles, gera-se aquilo que vários autores designam de energy sprawl: expansão desordenada e acelerada de infraestruturas energéticas, indiferente ao contexto e às pessoas que nele vivem. Esta lógica contradiz a ideia de transição justa e reproduz as assimetrias que, supostamente, queríamos corrigir.
O mais inquietante, porém, é o desfasamento entre discurso e prática. De um lado, multiplicam-se declarações de compromisso com a sustentabilidade; do outro, avançam projetos que fragilizam precisamente os sistemas naturais e culturais que a tornam possível. A energia renovável não é um salvo-conduto moral. Precisa de limites, de contexto e de uma leitura fina do território. Sobretudo, precisa de reconhecer que há lugares onde o valor acumulado, ecológico, cultural, simbólico e comunitário é demasiado alto para ser colocado em risco. E assim regressamos à questão que realmente importa: que modelo de transição queremos construir? Um modelo que se impõe aos territórios ou um modelo que nasce deles, respeitando os seus tempos, a sua identidade e a sua capacidade de regeneração? É esta escolha que determinará a legitimidade ecológica e democrática do futuro energético do País.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.