Lá vai ela, vejo-a da janela. A minha vizinha do 4.º andar sai quase sempre à mesma hora. Nos dias cinzentos, veste uma gabardina azul-escura, que abotoada de alto a baixo lhe desce até aos joelhos. Tem o cabelo impecavelmente branco e apoia-se na bengala com uma mão. Com a outra arrasta atrás de si um carrinho das compras de duas rodas.
Vai com vagarosa determinação a caminho do supermercado. Sempre que a vejo, assim à distância, recordo o meu espanto no primeiro domingo que passei neste bairro «burguês» situado mesmo no meio da cidade.
Era verão, mudara-me dias antes. E naquele primeiro domingo estreei-me às compras na vizinhança, constatando que esta zona de Lisboa tem duas vidas. Uma é a dos dias a que alguém convencionou chamar e úteis, cheia de rebuliço e de gente nova a andar para trás e para a frente, a caminho dos empregos, dos bancos, das lojas, das repartições públicas; mais o tráfego doido e os tinónis das ambulâncias a caminho do Santa Maria ou do Curry Cabral (quando este ainda tinha urgências).
A outra começa gradualmente ao final da tarde de sexta-feira. Vão-se os jovens e os de meia-idade que aqui trabalham ou vieram tratar das suas vidas; o trânsito acalma e o passar das ambulâncias é tão espaçado que os pombos invadem o alcatrão à procura de alguma coisa para debicar.
Dentro do supermercado, tive naquela distante tarde um retrato fiel do sítio para onde viera morar. A maioria das pessoas que andava às compras não tinha menos de 65 anos. Senti-me rodeado de velhinhas, que arrastando carrinhos de compras idênticos ao da minha vizinha, iam acompanhadas de empregadas muitas vezes igualmente ou ainda mais velhinhas.
Alegro-me sempre que vejo a Dona Adelaide. Já está um pouco surda mas sempre muito orgulhosa da sua autonomia de, aos oitenta e muitos, sair sozinha para fazer compras. Olho-a com admiração, percebo-lhe a vontade de rapidez a ser traída pelas pernas doridas.
Os seus passos são curtos mas seguros. De cabeça erguida, enfrenta a aventura quotidiana. Mesmo morando numa das zonas mais planas da cidade, que nada se compara, por exemplo, com as inclinadíssimas ruas da Graça ou a estreiteza (quando não a inexistência) dos passeios em Alfama, tem de superar vários obstáculos que se lhe atravessam à frente nos menos de duzentos metros de caminho.
Apesar do semáforo no cruzamento, a avenida converte-se para a Dona Adelaide num perigoso abismo. O tempo de verde para peões não cumpre os mínimos. Ela ainda mal está a meio quando o bonequinho vermelho aparece. Para alguém a roçar os 90 anos, atravessar ruas por aqui é um extraordinário ato de coragem.
Mesmo num bairro «burguês» e fácil, as barreiras são muitas para idosos e deficientes, até para um jovem pai a empurrar um carrinho de bebé. O piso é irregular e os carros sempre mal estacionados estreitam ainda mais passeios muitas vezes mal e porcamente calcetados, onde uma pedra solta parece pronta a transformar-se, durante a próxima chuvada, num buracão bom para se tropeçar. Isto para não falar dos omnipresentes cocós de cão que é preciso detetar, identificar e contornar.
Já aqui se escreveu que o município de Lisboa perdeu um terço da sua população nas últimas três décadas. Quem saiu foram sobretudo os jovens. Consequentemente, a cidade envelheceu.
Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam-nos quanto. Atualmente, um em cada cinco lisboetas tem mais de 70 anos. Em 1993, 13,52% pertenciam a essa faixa etária que, em 2013, já representava 20,88% da população da cidade.
No extremo oposto da pirâmide, assistiu-se a uma tendência inversa, embora ligeiramente mais lenta. Em 1993, 20,5% estavam na faixa dos que têm menos de 20 anos, e, vinte anos depois, já eram 17,89 por cento.
Os dados refletem um elevado índice de envelhecimento: por cada 100 lisboetas entre os 0 e os 14 anos há 194 «velhos» com mais de 65 – quase o dobro; bem como um elevadíssimo índice de dependência dos idosos – 48 idosos por 100 indivíduos em idade ativa.
Dirão que é a demografia, o aumento da esperança de vida e coiso&tal. É. Mas a demografia tem costas largas. O problema é essencialmente político. O que nos vale viver até muito tarde sem qualidade de vida? As cidades devem ser adaptadas às pessoas que nela vivem, às suas debilidades e dificuldades de mobilidade, quando ao longo das últimas décadas têm sido, como lembra o geógrafo britânico David Harvey, transformadas em sítios para se investir e não para as pessoas morarem.
Lisboa não foge a essa regra.
A cidade deve estruturar-se à volta do peão, tendo como padrão o idoso, aquele que mais carece de pavimentos regulares e de proteção em relação ao tráfego automóvel por exemplo, estabelecendo zonas com limites de velocidade e aumentar o tempo de verde dos semáforos para os peões.
Pensar a cidade em função de uma população crescentemente envelhecida pode trazer vários benefícios. Um espaço público que, pela sua facilidade de acesso, atraia o idoso para fora de casa é uma vitória no combate ao isolamento e à solidão. E essa é a luta quotidiana da minha vizinha Adelaide.