
Há coisas de que me lembro e fazem crescer dentro de mim um bloco de saudade, enfeitado de lágrimas secretas. Por exemplo ouvir a minha mãe dizer
– Avó
para uma senhora de cabelos brancos que eu tratava por Avó Bisa, me chamava
– Rapaz
e o facto de me chamar rapaz fazia-me, sei lá porquê, sentir importantíssimo. Recordo-me do cheiro dela, das mãos dela, do sorriso. Morava na mesma rua que nós mas lá em cima, perto do cemitério, cheio de árvores aguçadas que mesmo ao sol eram tristes e ela numa casa que mesmo ao sol era escura. Vestida de preto, só me recordo da Avó Bisa vestida de preto, pequenina, nervosa e o meu avô, um velhíssimo de cinquenta anos, a chamá-la
– Mãe
ele que, na minha ideia, não tinha direito a uma mãe, para mais uma pessoa que quase não falava. Esse não me ligava nenhuma, ligava à filha que tinha uma adoração por ele. Depois de se ir embora no vidro da fotografia dele havia sempre marcas de baton, e quando a minha mãe dizia
– A minha família
não se referia ao meu pai e a nós, referia-se aos pais dela e aos irmãos, de quem, aliás, era impossível não gostar: tenho tantas saudades dos setembros em Nelas, tantas saudades da minha avó, que tratávamos por Avó Querida, tantas saudades da doçura e da bondade deles, do meu tio João Maria
(a minha mãe
– Nunca vi um homem tão bonito como aquele meu irmão)
que, tinha eu treze anos, me ofereceu uma assinatura das Nouvelles Literaires que foram uma mudança decisiva na minha vida
(eu já era escritor desde os cinco ou seis)
porque, logo no primeiro número, li um poema de Blaise Cendrars, Les Parques À New York, em que estava tudo aquilo que queria escrever. Os três grandes poemas de Cendrars (Les Parques, Le Panamá e Prose, claro) fizeram- -me entender que não era escritor nenhum, era uma merda e voltei raivosamente ao princípio. Daí para diante foram vinte anos a rasgar tudo
– Ainda não é isto, ainda não é isto
porque compreendi que, como diz Renard, não há talentos, há bois, de forma que continuo a marrar. Ler, ler, ler, ler, marrar, marrar, marrar, marrar, não tenho feito mais do que isso, não farei mais do que isso. Queria lembrar também o jardim do meu outro avô, onde passava as tardes deitado na relva de um canteiro, a olhar as árvores lá em cima, o vento nas árvores, as nuvens, Les merveilleux nuages de Baudelaire, e o meu outro avô, o homem que eu menos queria desiludir na vida pelo amor que lhe tinha e continuo a ter, que me chamou para me perguntar
(alguém lhe disse que eu passava o tempo a escrever)
para me perguntar, preocupadíssimo, se eu por acaso não era paneleiro. Como oficial de Cavalaria às vezes palavras assim escapavam-lhe da boca. Eu não sonhava o que significaria paneleiro mas, ao ver a sua cara aflita, respondi logo que não. Depois, claro, fui informar-me com colegas mais miudamente instruídos nesses detalhes, como escreveu Eça, escritor que foi muito importante para mim e mais tarde deixou de ser
(a minha opinião acerca dele não é muito diferente da do meu querido Antero)
lá me contaram, surpreendidos com a minha ignorância, achei a explicação esquisitíssima, homens, pirilaus, rabos
(ainda hoje, no fundo, não compreendo muito bem)
achei tudo confuso e impossível, voltei à secretária do meu avô para garantir-lhe que não
(isso tão nítido na minha memória)
jurar-lhe que não, trejurar-lhe que não e continuei a escrever, embora me desse a impressão que, por vezes, o meu avô me espiava, a avaliar-me, buscando um indício atroz no filho mais velho do seu filho mais velho, no herdeiro do seu anel e do seu nome, eu a quem ele chamava
– O meu morgado
(a família vinha do Brasil)
em pânico, ele que era valente como as armas, buscando um indício mesmo minúsculo de paneleirice em mim, que não gostava de andar a cavalo e passava horas a ler, actividade na sua opinião feminina, ele a quem jamais vi pegar num livro que fosse, embora numa das salas houvesse uma estante cheia deles, todos brasileiros, claro, Aluizio Azevedo, Lobato, Pompeia, Machado, Alencar, Coelho Neto, etc., nos quais, que eu saiba, mais ninguém a não ser eu pegou. Como deviam ter vindo da casa de Belém do Pará lá me perdoou a mariquice. Haviam pertencido à mãe dele, que se chamava Leopoldina, nome muito comum naquela época por ser o da imperatriz, mãe de quem ele era, a avaliar pelas fotografias, a cara chapada, que o meu pai chamava Avó Chuta e que tinha irmãs de diminutivos no género do dela, tia Biluca, tia Marocas, tia Mimi, etc. Ainda conheci algumas, já muito idosas, que me tratavam com o carinho especial que os morgados merecem. Recordo-me que duas ou três morreram perto do Natal, o meu avô tratou dos enterros e a agência funerária, grata, enviou-lhe um casal de perus para a consoada. Recordo-me da mão do meu avô o tempo inteiro a acariciar-me a nuca, a mim na cabeceira ao seu lado, o meu avô decerto a pensar oxalá que o morgado não paneleiro de modo que, se eu nascesse umas gerações antes, me mandava de certeza para a guerra do Paraguai onde, no caso de porventura existirem uns restos dessa miséria em mim, desapareceriam de certeza ao disparar o primeiro tiro.