Trago sempre uma bola quando venho passear a Vírgula. Ela não brinca com bolas. É mais às travessas e travessões. A Vírgula é do contra.
A sacana orelhuda tem bolas espalhadas por casa, quase todas com aspecto de novas, porque sabe exactamente o que estou a pedir quando lhe atiro uma, mas nega. Ainda assim, trago a bola num bolso sem fundo de expectativas e atiro-lha pelo jardim. A Vírgula recusa. Introduz uma pausa. Um desvio. Uma observação marginal sobre um cheiro qualquer neste pedaço de relva. Sabe, e ignora.
Se insisto muito, vai a contragosto, o nariz empinado, o passo lento, um espectáculo calculado de desinteresse. Traz a bola, mas vai embora com ela, deixando-a cair desinteressadamente a meio do caminho, como se houvesse sempre qualquer coisa mais interessante à espera. Uma humilhação. “O meu próximo cão há-de gostar de bolas”, digo-lhe recebendo em troca um saltinho irritantemente fofo.
Pau na boca, saltinhos malucos, as duas patas da frente a fazer o pinote, cambalhotas no ar, giravoltas e rabiscos contra o fim de qualquer coisa. A catana da bicha. Talvez seja por isso que gosto tanto dela. Não participa no pequeno teatro que imaginei para nós os dois. Olha para mim com uma espécie de paciência indulgente, como quem percebe que ainda tenho muito muito para aprender.
Digo, pronto, nunca mais trago a bola, e penso que digo nunca mais demasiadas vezes. Lembro-me de Sarajevo. No War Childhood Museum, a guerra aparece num desenho feito a meio de qualquer coisa que nunca devia ter existido, um caderno onde a infância tenta continuar a escrever-se apesar de tudo. Cada objecto parece pousado com cuidado excessivo, como se o toque pudesse acordar alguma coisa que ainda não terminou. Numa pequena sala havia uma parede inteira de post-its de cores alegres, verde, roxo, amarelo, com mensagens por toda a parte. Nunca mais. Nunca mais. Nunca mais. Frases que vêm de todo o mundo, Indonésia, Japão, Alemanha, Israel, Burundi.
Imagino aquelas pessoas. Sensibilizadas, passando os seus sentimentos de angústia e esperança para a mão que pega na caneta, transferindo tudo o que lhes vai nas veias para a tinta que marca aquelas palavras, juntando todas essas frases na parede.
Nunca mais. Nunca mais. Nunca mais. Como se repetir essa frase resultasse em alguma coisa.
A parede é um grupo inteiro de humanidade que entra pelos meus olhos, atravessa o cérebro e encontra onde se ajeitar num lago gigante de toda a minha empatia, claro, porque todos escrevemos “nunca mais”.
Saí de lá com a sensação de que tinha deixado um grito para toda a Humanidade e que seria ouvido. E foi por isso que, depois disso, comecei a reparar nessa expressão demasiado fácil, “nunca mais”. Mas… dizer “nunca mais” repetidamente só pode querer dizer uma coisa: vai voltar a acontecer. Há uns anos disse, vou adiar o meu próximo cigarro. Ainda não voltei a fumar. Talvez pudéssemos experimentar assim, em vez de dizer “nunca mais”, dizer “depois logo se vê”. “Matamos mais tarde.” “Talvez amanhã.” E outra vez amanhã.
Parece ridículo. Mas o “nunca mais” já experimentámos.
Uma Vírgula que se preze nunca se apressa para o ponto final. O corpo inteiro transforma-se numa sequência de adiamentos, como uma brincadeira que se prolonga no final de tarde.
O leitor já percebeu que a Vírgula não gosta de bolas. Atirei a bola ao mar. Nunca mais voltou. Vivo longe do mar, e pensei, se eu pudesse trazia era o mar no bolso. A Vírgula não percebe nada disto. Traz o pau, abana a cabeça aos saltinhos malucos. Ela é mais sábia do que eu.
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