O Tim dos Xutos acha que os artistas devem protestar. Está convencido de que devem juntar-se às causas, sair à rua e gritar. Os que não o fazem, disse ele ao Posto Emissor, do Expresso, “seriam como flores de plástico, só servem para enfeitar, não servem para mais nada”. Por vontade do Tim, fazia-se o Festival da Canção na acampada, coisa que já esteve mais longe de acontecer.
O Tim está errado, claro. A ideia de que um artista tem um dever particular de intervenção cívica, seja lá o que isso for, é uma ideia tão disparatada, quanto perigosa. Trotsky tinha umas ideias sobre o assunto. Goebbels também. E não consta que Dylan tenha dado ouvidos a quem lhe chamou flor de plástico no Free Trade Hall em 1966. É até possível sustentar que a parte mais interessante da sua carreira tenha começado depois de se ter recusado a desempenhar o papel que decidiram para ele.
Antes de avançarmos mais, façamos um parêntesis: o Tim dos Xutos é do melhor que há. É mesmo. Não estou a ser irónico, nem a praticar qualquer espécie de adulação gratuita, coisa que, aliás, não saberia fazer. O que o Tim fez, e continua a fazer nos concertos que ainda dá e nos discos que ainda grava, é raríssimo: com os Xutos & Pontapés, foi capaz de ilustrar, no traço rude e directo da música punk, a vida do homem comum, o desejo do homem comum, a angústia do homem comum. E a prova de que o fez bem feito está no extraordinário sucesso dos Xutos, bem vistas as coisas, a única banda de rock em Portugal.
Sob esse ponto de vista, os Xutos & Pontapés são um excelente exemplo de uma banda que não precisa de uma causa que a justifique. É verdade que as suas canções têm uma dimensão social. Claro. Era a vida daqueles rapazes, o que os preocupava, o que viam à sua volta. Mas a força das suas canções nunca esteve na importância das injustiças sociais que eventualmente pudessem denunciar. Está na maneira como o Tim e os seus companheiros inventaram uma forma de as cantar. Aquilo que era circunstancial tornou-se, pela arte, uma coisa maior. Se assim não fosse, os Xutos não passariam de uma reportagem musical sobre Portugal nos anos oitenta.
Há uma espécie de falácia moral que consiste em exigir à arte aquilo que se exige a um cidadão respeitável. Daí a ideia, tão intelectualmente desgraçada, de que a única literatura que interessa é a que apresenta boas pessoas, defende boas causas e transmite boas intenções. Como se Macbeth tivesse sido escrito para promover as vantagens do equilíbrio entre instituições. Uma má canção, essa sim, pode fazer mal, nem que seja à paciência do ouvinte.
É dessa falácia que vem a suspeita de que más ideias podem dar mau resultado. É claro que também se fazem boas canções com bons princípios. Mas daí não se podem deduzir efeitos morais. Conheço bons católicos que ouvem alegremente a Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones, sem que por isso lhes tenha ocorrido renunciar à fé. E pessoas em perfeito estado de saúde mental que cantam I Wanna Be Your Dog, dos Stooges, em plenos pulmões, sem que isso dê origem a um anúncio no sítio adopta-me.org. E agora? Chamamos um exorcista? Um veterinário? Ou admitimos que uma canção não é uma moção de estratégia global?
Mas o mais extraordinário neste episódio é a interessantíssima selecção de palavras do Tim, não fosse ele um poeta popular. A saber: “flores de plástico”. É maravilhoso. Podia ser o título de uma canção dos Xutos. O Tim, cujo instinto admiramos, quase formulou, sem querer, toda uma teoria da arte. E das boas.
Repare-se. Uma flor de plástico é uma flor inventada. Não precisa de água, nem tem raízes. É um artifício. E o que é a arte senão a produção de artifícios? O Tim julgou ter encontrado uma imagem para a suposta inocuidade dos artistas que se abstêm de intervir politicamente, mas, na realidade, sacou de uma belíssima definição: o artista é o homem que faz flores de plástico — uma planta incapaz de morrer, logo capacitadíssima para ocupar um lugar na posteridade.
Como dizia Wilde, a arte “is quite useless”. Em sentido estrito, não serve mesmo para nada. Em sentido mais abrangente, pode revelar alguma coisa que não seria possível conhecer através de uma simples descrição dos factos. Uma verdade, chamemos-lhe assim, que não se reduz à correspondência entre uma proposição e a realidade, mas que se torna manifesta por meio da própria invenção artística. Não existe uma relação de causa e efeito entre o mérito de alguma coisa e o mérito da obra que a representa. Nem entre a bondade das intenções de um artista e a qualidade daquilo que faz. E é perfeitamente possível que as coisas mais insignificantes se tornem grandiosas pela transformação artística que delas for feita.
A teoria de que o Tim se tornou porta-voz no Posto Emissor faria da actualidade política a maior ambição de um objecto artístico. É uma teoria muito em voga. Ora, se há alguma coisa que a arte pode fazer é libertar uma experiência das suas circunstâncias. O que fica para a posteridade não é a boa intenção, é a invenção: são as flores de plástico.
É essa a beleza do erro do Tim. O que se pede ao artista é que pegue numa coisa qualquer e faça dela alguma coisa que mereça existir. A arte serve, na melhor das hipóteses, para redimir o plástico.
E era isto que vos queria dizer. Quanto aos Xutos: todo o meu respeito.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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