Em 1920, a Grã-Bretanha saída da I Guerra Mundial enfrentava uma forte escassez de habitação. O Ministério da Saúde resolveu, por isso, lançar contratos de construção com dinheiros públicos para dar casas às classes trabalhadoras. O que pouca gente saberá é que, nessa altura, mais de 80 comités locais de trabalhadores se organizaram em guildas de construção e ganharam concursos para fazer mais de mil fogos. O que fizeram era profundamente revolucionário: os salários eram atribuídos por forma a garantir condições dignas de vida e rejeitando qualquer incentivo à concorrência entre trabalhadores. Mais: criaram um sistema de “remuneração contínua”, que garantia que os trabalhadores continuavam a ser pagos mesmo quando a obra parava por condições meteorológicas adversas, por doença, acidente ou dias de descanso. Isso era possível porque não havia distribuição de dividendos nem objetivo de lucro. O objetivo era dar o melhor salário possível a todos. Os céticos desdenharam a ideia, garantindo que o absentismo ia disparar. Mas os dados de quem analisou a experiência mostram o contrário: as guildas de construção tinham menos dias de trabalho perdidos do que os empreendimentos privados, construíam casas com mais qualidade e com custos mais baixos.
Apesar de tudo isso, é preciso desenterrar arquivos económicos antigos e jornais da época, como fez a economista italiana Clara Mattei, para encontrar dados sobre as guildas e a forma como desafiaram a lógica capitalista. Porquê? Talvez a melhor resposta esteja condensada no título do livro de Mattei: A Ordem do Capital – Como os Economistas Inventaram a Austeridade e Abriram o Caminho ao Fascismo.
A austeridade foi inventada precisamente no período entre as duas Grandes Guerras, numa altura em que a acumulação de capital nas classes mais altas foi posta em causa por políticas sociais de reconstrução e redistribuição da riqueza, por uma mão de obra escassa que ganhava poder reivindicativo e, sobretudo, pela forma como a intervenção do Estado na economia durante a I Guerra Mundial tornou evidente o lado político do que até então aparecia como inevitável. Era preciso travar essa sangria de recursos e poder do topo para a base. A austeridade foi a forma de o fazer.
Em 1922, as políticas de austeridade britânica ganharam o nome de “machado de Geddes” e cortaram pela raiz os contratos que permitiam às guildas de construtores (que não tinham capitalistas para avançar com o dinheiro para comprar materiais) ser sustentáveis. O projeto dos trabalhadores foi decapitado e os seus sucessos foram relegados para o pó da História.
Não foi um falhanço de um projeto subversivo. Foi a sua decapitação por quem tinha mais poder. A História está cheia de momentos destes. Ideias que avançam e recuam, tanto que pode parecer que não deixaram marca. Mas não é assim. Todas as lutas ganharam terreno. Como as ondas do mar que parecem recuar, mas, entretanto, já deixaram molhada a areia.
Foi nos escombros das Grandes Guerras que se encontraram espaços para os projetos mais revolucionários, para as ideias mais criativas, para experimentar o que parecia impossível. Foi da força dessas lutas que nasceram direitos civis e laborais, que se criaram serviços públicos de ensino e saúde e que uma massa de despojados ousou sonhar que os seus filhos não tinham de ser condenados à miséria nem à opressão.
O século XX está cheio de sombras, de sangue, de autoritarismos vis. Mas foi também nesse terreno que germinaram algumas das ideias mais luminosas. Ideias sobre liberdade e igualdade, sobre direitos e justiça.
Estamos agora num século diferente. Um século que prometia ser digital e amorfo, controlado e asséptico. O século dos alienados individualistas, de umbigos metidos nos telefones. E, no entanto, as ruas enchem-se em Lisboa, no Porto, em Madrid, em Paris, em Milão, em Tirana, em Santiago do Chile, em Buenos Aires. Um pouco por todo o mundo, as pessoas enchem praças e exibem perigosos pedaços de cartão escritos à mão. Juntam-se. Organizam-se. Votam de braço no ar. Isto não estava no programa. E quem vê o filme prefere concentrar-se na violência (quase sempre muito minoritária, sempre exercida contra coisas e não pessoas) de quem se manifesta e não tanto no que diz ou em como resiste apesar da repressão, por causa da repressão. Mas há aqui alguma coisa nova a ser construída.
Há muito tempo que o mundo parece velho. Há muito tempo que nos dizem que já tudo foi inventado, que tudo foi testado e que temos de viver com o que há. Há muito tempo que nos garantem que o melhor a fazer é aceitar, resignados, que as coisas são como são, enquanto tentamos encontrar os atalhos que nos permitem a sobrevivência. Mas tudo isso parece estar agora a ser posto em causa por multidões fartas de obedecer, cansadas de sobreviver, sedentas de sonho. Multidões que reescrevem o futuro em pedaços de cartão incendiados de vontade. Multidões que fogem às balas de borracha e amortecem com os crânios os bastões que querem calá-las, sabendo que a muralha dos seus braços e dos seus gritos de ordem pode ser mais forte do que a força que os esmaga.
Às vezes, parece que o mundo é feito de uma matéria rija, que só se consegue moldar quando está em brasa. E é por isso que, quando vejo as revoltas nas ruas, sei que estou a assistir a um momento de possibilidade. Não é possível ter certezas sobre aonde nos levará esta onda de descontentamento e a sua repressão. Para que lado se inclinará o mundo? Não sei. Mas também depende de nós, de onde firmarmos os pés, de onde pusermos o nosso peso. Juntos, podemos virar isto. Que seja para o lado certo.