Paulo Branco continua a fazer uma das coisas que melhor sabe: contrariar as regras, desafiar os espectadores e convencer alguns dos maiores nomes do cinema mundial a vir passar o São Martinho a Lisboa, de preferência acompanhados por grandes filmes. Aos 20 anos, o LEFFEST – NOS Lisboa Film Festival já tem idade para se portar bem, mas felizmente não revela a menor intenção de o fazer. A programação apresentada é de uma abundância quase obscena, reunindo autores consagrados, novas promessas e uma coleção de filmes premiados nos principais festivais internacionais que faria inveja a muita cinemateca. O problema não será escolher o que ver, mas decidir o que perder. E, desta vez, até o diabo foi convidado.
Quatro aberturas, um encerramento e muitos candidatos aos Óscares
A 6 de novembro, o festival abre simultaneamente em quatro frentes. No São Jorge, Paper Tiger, de James Gray, com Adam Driver, Scarlett Johansson e Miles Teller, mergulha nas traições familiares e no crime organizado. Na Culturgest, Cavalo Selvagem Nove, de Martin McDonagh, junta John Malkovich, Sam Rockwell, Steve Buscemi e Tom Waits numa intriga político-criminal passada na Ilha da Páscoa, em vésperas do golpe de Estado chileno de 1973. No cinema NOS Vasco da Gama, Fjord, de Cristian Mungiu, Palma de Ouro em Cannes, transforma a família, a religião e os preconceitos culturais num campo minado, enquanto o Nimas recebe O Amor Possível, de Lee Chang-dong, Grande Prémio do Júri em Veneza, numa oportunidade excecional de ver em sala o filme produzido pela Netflix. A cerimónia de encerramento, a 14 de vovembro, fica entregue a The Debut, de Jesse Eisenberg, com Julianne Moore e Paul Giamatti.
A Competição Oficial reúne onze longas-metragens na disputa pelo Grande Prémio NOS. David Cronenberg preside a um júri que inclui Angélica Liddell, Charles Burnett, Milagros Mumenthaler, Gidon Kremer e Andrea Camprincoli. Entre os concorrentes encontram-se Os Christophers, de Steven Soderbergh, Mariage au goût d’orange, de Christophe Honoré, Scherzetto, de Mario Martone, The Dreamed Adventure, de Valeska Grisebach, e Diário de uma Criada de Quarto, de Radu Jude. A participação portuguesa surge em Ela Olhava Sem Nada Ver, de Fanny Ardant, rodado nos Açores, enquanto Kantemir Balagov, Sandra Wollner, Emmanuel Marre, Dominga Sotomayor e Fernando Eimbcke completam uma competição onde o prestígio dos nomes não dispensa a ousadia das propostas.
A secção Descobertas, cujo júri é presidido por Barbara Sukowa, apresenta onze filmes de cinematografias menos familiares ao público português. Vale a pena prestar atenção a 9 Temples to Heaven, do tailandês Sompot Chidgasornpongse, Elephants in the Fog, do nepalês Abinash Bikram Shah, Ceniza en la boca, de Diego Luna, e A Professora de Francês, do brasileiro Ricardo Alves Jr. É precisamente nestas secções, longe dos nomes que dispensam apresentações e já vendem bilhetes, que um festival demonstra a sua verdadeira utilidade: descobrir hoje os cineastas de quem toda a gente falará amanhã.
Cannes, Veneza e San Sebastián sem necessidade de passaporte
Fora de competição, a seleção parece uma reunião extraordinária dos grandes festivais do ano. Tender Loving Care, de Mike Leigh, vencedor da Concha de Ouro em San Sebastián; Fatherland, de Paweł Pawlikowski, distinguido pela realização em Cannes; Salvation, de Emin Alper, Grande Prémio do Júri na Berlinale; Resurrection, de Bi Gan; Soudain, de Ryūsuke Hamaguchi; e Sheep in the Box, de Hirokazu Kore-eda, figuram entre as propostas mais apetecíveis de uma programação particularmente generosa. Acrescentem-se Ink, de Danny Boyle, sobre Rupert Murdoch e o império da imprensa popular britânica; El ser querido, de Rodrigo Sorogoyen; Gentle Monster, de Marie Kreutzer; Bunker, de Florian Zeller, com Javier Bardem e Penélope Cruz; e ainda os novos trabalhos de Kiyoshi Kurosawa, Albert Serra, Fernando Trueba, Xavier Giannoli e Anton Corbijn. Perante semelhante concentração de talento, a expressão “não tenho nada para ver” deveria ser temporariamente proibida em Lisboa, pelo menos até 15 de novembro.
Lars von Trier, Reichardt e os pecados que continuam a valer a pena
O grande acontecimento retrospetivo pertence a Lars von Trier, numa das mais extensas revisitações da sua filmografia, de O Elemento do Crime a A Casa de Jack, passando por Europa, Ondas de Paixão, Os Idiotas, Ninfomaníaca, apresentada na versão integral, e as três temporadas de O Reino. O dinamarquês não poderá deslocar-se a Lisboa por razões de saúde, mas estarão presentes vários dos seus colaboradores. Uma excelente oportunidade para rever um cineasta genial, provocador e frequentemente insuportável, três qualidades que o cinema não deveria perder, sobretudo numa época em que tantos parecem preocupados em não ofender ninguém.
Kelly Reichardt, Lee Chang-dong, Sophie Letourneur e Tiago Guedes justificam outras quatro retrospetivas, enquanto Barbara Sukowa será homenageada com Lola, M. Butterfly e Hannah Arendt, incluindo uma conversa com Cronenberg sobre o filme que fizeram juntos. A secção Memória do Cinema recupera quatro obras restauradas em 4K, entre elas Despedida de Ontem, de Alexander Kluge, e O Estrangeiro, de Orson Welles. Uma oportunidade para recordar que a história do cinema não começou com as plataformas digitais e, sobretudo, não termina nos respetivos algoritmos.
Mais provocador será o ciclo “(i)moralidades”, com Abel Ferrara, Catherine Breillat e Eva Ionesco, que cruza cinema, sexo, religião, violência e os limites da representação. Inclui Musk, de Alex Gibney, sobre Elon Musk, e You Can See Everything, de Nathan Fielder e Lance Oppenheim, sobre a fraude Theranos. Leituras de Sade, Genet e Bataille, respectivamente por Catarina Wallenstein, Béatrice Dalle e Angélica Liddell, juntam-se a um cine-concerto de A Idade de Ouro, de Buñuel, com Rodrigo Amado e David Maranha. O ciclo A Morte do Diabo prolonga esta investigação das fronteiras entre o bem e o mal. Os moralistas ficam avisados: poderão sair com algumas convicções seriamente danificadas.
O festival inclui ainda concertos, exposições, debates, sessões especiais e o Encontro Internacional de Escolas de Cinema, com estudantes portugueses, belgas e mexicanos, competição de curtas-metragens, masterclasses gratuitas e o Prémio João Milagre, homenagem ao cineasta, produtor cultural, professor da Escola Superior de Teatro e Cinema e cofundador da Galeria Zé dos Bois, falecido em julho passado, aos 56 anos.
A grande novidade geográfica é a chegada ao cinema NOS Vasco da Gama, que se junta ao São Jorge, ao Nimas, à Culturgest e ao Teatro do Bairro, alargando o festival à zona oriental de Lisboa. Paulo Branco pretende retirar os festivais do seu habitual “gueto cultural e intelectual”. Uma intenção louvável, desde que o público das salas comerciais também descubra que existe vida para além dos super-heróis, dos filmes dobrados e dos baldes de pipocas gigantes.
Entre os convidados anunciados contam-se David Cronenberg, Kelly Reichardt, Charles Burnett, Fanny Ardant, Christophe Honoré, Mario Martone, Florian Zeller, Albert Serra, Abel Ferrara, Catherine Breillat, Tiago Guedes, Sophie Letourneur, Barbara Sukowa, Béatrice Dalle e muitos outros. Uma concentração de personalidades que permite conversar diretamente com alguns dos responsáveis pelos filmes, em vez de discutir eternamente o que o realizador terá querido dizer, sem nunca lhe perguntar.
Vinte edições depois, o LEFFEST continua a defender uma ideia simples e cada vez mais subversiva: o cinema deve ser visto numa sala, discutido sem cerimónias e, sempre que possível, na presença de quem o fez. Paulo Branco oferece os filmes e os convidados. Ao espectador resta uma tarefa menos complicada do que parece: comprar bilhete, sentar-se e deixar-se surpreender. O cinema agradece. A televisão pode esperar.
O LEFFEST 2026 em cinco apontamentos: um pequeno manual para não perder o essencial
6–15 NOVEMBRO 2026 · LISBOA
Abertura e encerramento: quatro filmes para começar em grande, um para fechar a festa. A 6 de novembro, Paper Tiger, de James Gray, abre o São Jorge; Cavalo Selvagem Nove, de Martin McDonagh, ocupa a Culturgest; Fjord, Palma de Ouro de Cristian Mungiu, estreia o festival no cinema NOS Vasco da Gama; e Possible Love, de Lee Chang-dong, conquista o Nimas. A 14, The Debut, de Jesse Eisenberg, encerra as cerimónias no São Jorge, embora as sessões continuem até dia 15. Uma abertura com quatro filmes desta dimensão constitui uma maldade para quem sofre de indecisão. Nem com o dom da ubiquidade será fácil assistir a tudo.
Duas competições: os consagrados também têm de prestar provas. Onze longas disputam o Grande Prémio NOS, perante um júri presidido por David Cronenberg. Outros onze filmes concorrem ao Prémio Revelação, com Barbara Sukowa à frente do respetivo júri. Na primeira competição, Soderbergh, Honoré, Martone, Radu Jude e Fanny Ardant são alguns dos nomes a seguir; na segunda, a descoberta de cinematografias emergentes promete recompensar a curiosidade dos espectadores. O melhor conselho? Reservar algum tempo para filmes de realizadores que nunca ouvimos mencionar. Pode ser o princípio de uma bela relação cinematográfica.
Cinco retrospetivas: de Lars von Trier à delicadeza de Kelly Reichardt. O realizador dinamarquês domina a programação histórica com uma retrospetiva excecional, que inclui Ninfomaníaca na versão integral, Os Idiotas, Anticristo e A Casa de Jack. Em contraponto, o universo intimista de Kelly Reichardt, o cinema social de Lee Chang-dong, a irreverência de Sophie Letourneur e a filmografia de Tiago Guedes convidam a outras viagens. Barbara Sukowa merece ainda uma homenagem especial. Se nunca viu Von Trier numa sala de cinema, aproveite: pode sair indignado, fascinado ou com vontade de discutir com o realizador. Infelizmente, neste último caso, terá de esperar por outra ocasião.
Cinema para lá do cinema: o Diabo, os pecados e outras tentações. Os ciclos “(i)moralidades” e A Morte do Diabo prometem abalar certezas e desafiar preconceitos. Filmes de Abel Ferrara e Catherine Breillat, documentários sobre Elon Musk e a fraude Theranos, leituras de Sade, Genet e Bataille, um cine-concerto de Buñuel, encontros com cineastas e debates sobre temas incómodos demonstram que o LEFFEST não se esgota nas projeções. Há ainda filmes restaurados em 4K, masterclasses e encontros internacionais de escolas de cinema. Para quem gosta de sair de uma sessão com respostas definitivas, este programa poderá constituir uma experiência traumática.
Cinco espaços, dez dias e uma desculpa a menos para ficar em casa. O Cinema São Jorge, o Medeia Nimas, a Culturgest e o Teatro do Bairro recebem este ano a companhia dos Cinemas NOS Vasco da Gama, uma novidade que leva o LEFFEST à zona oriental da cidade. São cinco espaços para circular entre estreias, clássicos, realizadores, atores e debates. David Cronenberg, Kelly Reichardt, Fanny Ardant, Christophe Honoré, Béatrice Dalle, Abel Ferrara e tantos outros estarão por Lisboa. Convém consultar antecipadamente os horários, escolher as sessões prioritárias e comprar bilhetes com alguma antecedência. Perder um filme por falta de tempo é compreensível; perdê-lo por estar em casa a percorrer durante quarenta minutos o catálogo de uma plataforma de streaming já merece penitência.
A última recomendação: não tentem ver tudo, porque é humanamente impossível, nem escolham exclusivamente os filmes de que já ouviram falar. Num festival desta dimensão, a melhor sessão pode muito bem ser aquela para a qual entrámos sem grandes expectativas. E se o diabo aparecer na fila da bilheteira, deixem-no passar. Com esta programação, também ele tem muito que ver.