Apesar de não constar dos textos bíblicos, é frequente observarmos Jesus Cristo rodeado por animais, nas representações que caracterizam a Sua chegada ao mundo. É uma presença da qual é raro abdicar-se, particularmente na composição dos presépios natalícios, que por hábito de aparição sazonal, adornam pacificamente o período do advento à entrada das igrejas, repousando igualmente nalgum aparador das nossas casas.
Recuando ao século XIII, é interessante notar que a representação física do primeiro presépio da História, terá sido levada a cabo por São Francisco de Assis, fazendo-se valer de pessoas e animais reais. Assim, terá sido o responsável pelo primeiro momento, no qual estes últimos, foram adicionados ao imaginário coletivo dos fiéis cristãos. Esta relação, é particularmente relevante por São Francisco de Assis ser considerado o Padroeiro dos animais – e por consequência, mais recentemente, dos Médicos Veterinários –, pois defendia que por serem seres vivos igualmente criados por Deus, seriam também eles merecedores de cuidado e respeito. Por consequência, não é de admirar que tivesse idealizado os primeiros momentos da vida de Cristo rodeado por animais, e que também os próprios reconhecessem prontamente a divindade que a eles se juntava, cedendo humildemente a sua manjedoura para abrigar, proteger e adorar o Rei do Universo. Ainda, a título de curiosidade, é engraçado perceber que a palavra “presépio” tem origem no vocábulo em latim “praesepium”, traduzindo-se este, tão somente, enquanto “manjedoura”.
Todavia, não é conhecida com exatidão a composição e complexidade desse primeiro presépio vivo, sendo os dois elementos animais mais consensuais, o burro e o boi. Estes, têm em comum serem animais de trabalho, algo bastante plausível, pois à época era natural que animais de alimento pudessem coabitar com as pessoas nas suas casas, abrigados de intempéries, predação e furto, ao passo que os demais pernoitariam em estábulo próprio, coincidindo neste caso, com o local do suposto primeiro abrigo de Jesus Cristo. No caso do boi, este é de vez em vez substituído por uma vaca, sendo esta opção, no entanto, um pouco menos plausível, pois apesar de na nossa compreensão fazer mais sentido, por ter uma aura maternal e estar associada a nutrição, esta deveria estar mais resguardada, em local diferente. Por outro lado, um boi é um animal castrado – é esta a diferença entre um boi e um touro – não deixando de ser um animal forte, mas mais calmo e dócil. Por vezes, são incluídas também ovelhas, estando habitualmente associadas a inocência e remetendo para o sacrifício, ou inclusivamente um galo, cacarejando o despertar para uma nova Era.
Seja como for, e apesar de acreditar que São Francisco de Assis nos deixou espaço para interpretação à maneira de cada qual, é pertinente e interessante notar que todos aqueles são animais considerados “puros”, por exemplo, não havendo lugar para uma mula, símbolo da impureza, da promiscuidade, e conotada diretamente com o diabo, associada a pecado, por ser fruto de procriação entre espécies distintas.
Estes são seres “simples”, pacíficos, promovendo uma imagem de humildade, e podendo estar-Lhe até associados noutros momentos da Sua vida, como no que ao burro respeita, enquanto transporte eleito para a Sua entrada em Jerusalém…
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