No primeiro dia do ano, o Washington Post trazia uma notícia banal. Dizia que a classe dos bilionários norte-americanos adicionou, em 2020, cerca de 1 bilião (bilião a sério, não mil milhões) de dólares à sua riqueza líquida, algo que já não acontecia desde o tempo dos Rockefellers e dos Carnegies, e que, desse bilião, um quinto foi somado às fortunas de apenas dois homens: Jeff Bezos, patrão da Amazon, e Elon Musk, dono da Tesla e da Space X. A notícia dizia mais: que Musk quintuplicou em 2020 a sua fortuna, juntando 132 mil milhões de dólares ao que tinha em 2019, enquanto Bezos adicionou, no ano que passou, 70 mil milhões aos 115 mil milhões com que tinha terminado o ano anterior. O Washington Post acrescentava ainda outro dado: os 200 mil milhões de dólares de ganhos, só em 2020, de Bezos e de Musk são mais do que o produto nacional bruto de 139 países.
O que a notícia não dizia, nem precisava de dizer, é que o mesmo 2020, em que uma pequenina bolha de multimilionários juntou um bilião de dólares aos biliões que já tinha, foi o ano de descida aos infernos de milhões e milhões de pessoas, privadas, súbita e brutalmente, dos parcos rendimentos com que sobreviviam e foi um ano de colapso de milhões e milhões de pequenas empresas atiradas para o vazio por uma economia paralisada pelo vírus. Na verdade, a notícia do Post fazia uma pequena alusão a isto: o dinheiro acumulado em 2020 só por Bezos e por Musk foi oito vezes superior ao montante estimado para pôr fim a todas as situações de fome nos Estados Unidos da América e é superior a todo o dinheiro alocado à administração central e aos estados, pelo Cares Act, para combate ao coronavírus naquele país.
Que esta notícia seja banal é o retrato da resignação instalada diante da “economia que mata”, como Francisco, o Papa, chama ao capitalismo realmente existente. O capitalismo é o capitalismo e a concentração da riqueza está no âmago do seu processo “natural” de funcionamento. A brutalidade da falência de milhões de empresas ou o empobrecimento de milhões de pessoas e a brutalidade do enriquecimento de um pequeníssimo nicho de megarricos são uma só brutalidade. E que se considere natural essa brutalidade, nas suas duas expressões antagónicas, é algo que faz parte desse mesmo modo de ser brutal da economia que mata.
Leio a notícia do Washington Post, magoa-me a sua banalidade e dou por mim a pensar no sentido que tem a apologia da “intervenção na margem” que, inusitadamente, o governador do Banco de Portugal impôs como pressuposto da aprovação do Orçamento para 2021. Advogar que os apoios a quem perdeu tudo ou quase tudo por causa da pandemia sejam pontuais e extraordinários e que não se mexa na estrutura de gastos do Estado – que não haja, por exemplo, alterações de fundo na dimensão e na robustez do Serviço Nacional de Saúde ou na fragilidade da posição do trabalhador, depois de uns infindáveis seis meses de período experimental – é, no fundo, aceitar a brutalidade e dulcificá-la com medidas avulsas e confinadas de contenção pontual de danos onde essa brutalidade tiver expressões mais obscenas e possa atear revoltas.
Musk e Bezos não são portugueses, mas temo-os à nossa dimensão. Uns poucos que são protegidos enquanto a imensa maioria é brutalizada. São protegidos pela falta de vontade política de pôr fim aos offshores, a começar pelo nosso. São protegidos pela faculdade de despedir trabalhadores, mesmo recebendo apoios públicos. São protegidos pelo imperativo categórico da “estabilidade do sistema financeiro” branqueador de sucessivos cambalachos pagos com o dinheiro dos condenados à brutalidade de uma vida sempre instável.
Em 2021, a escolha que temos diante de nós mantém-se: resignarmo-nos à brutalidade, limitando-a apenas nos seus extremos, ou assumirmos a ambição de combatê-la na raiz. É uma escolha sobre a densidade da democracia: ser um conjunto de rituais para legitimar os nossos Bezos e Musks ou ser uma voz dos brutalizados contra a brutalidade.
(Opinião publicada na VISÃO 1453 de 7 de janeiro)