Soube a pouco a disputa eleitoral que agora termina no PSD. É certo que o debate político vive hoje de pequenos incêndios verbais, como vemos recorrentemente no Parlamento, sublimados em soundbytes mediatizados ad nauseam, mas convenhamos que, neste caso, desde Rui Rio, que passa a vida a desdourar o próprio partido sem trazer nada de novo a não ser uma garantia de banalidade, aos programas feitos quase só de slogans de autoajuda, muito podia ter sido melhor.
Sobressaiu apenas desta cultura de vacuidade, que faz de Portugal um país menor em termos internacionais, a moção apresentada pelo candidato que surpreendeu nesta eleição: Miguel Pinto Luz (MPL).
Portugal tem problemas graves. Problemas que se agravam estruturalmente com o fardo do socialismo como bem escreve MPL. Mas o PSD não tem estado à altura desses problemas. Porque, conjunturalmente, se deixou arrastar, sem necessidade, por discursos redutores do seu espaço, mas sobretudo porque não tem acompanhado a mudança da sociedade portuguesa de forma a ser considerado credível para governar. Nas últimas duas décadas, o PSD foi basicamente a draga temporária dos pântanos do PS.
Ora, os partidos naturais de uma sociedade democrática são os que representam a conservação e a inovação, os conservadores e os partidários da mudança, os dois – afetando-se um ao outro e equilibrando-se na sua dialética contraditória, como acontecia tradicionalmente com PSD e PS.
Por cá têm, afinal, só crescido todos aqueles que acham que a sociedade não está globalmente bem como está – e, nessa recusa, lhe pretendem dar um outro sentido – como os revolucionários e os reacionários. No arco democrático, o PS instalou-se no Estado e o PSD estatelou-se sozinho, desequilibrando as possibilidades reais de alternativa.
A resposta complexa sobre o futuro da social-democracia portuguesa não está escrita nas estrelas nem depende de homens providenciais. O messianismo partidário do PSD tem esbarrado de frente com o voto simples dos portugueses e talvez seja tempo de dar razão aos eleitores – não basta trocar X por Y e esperar que o “estilo” ou o “carisma” funcionem.
É preciso fazer diferente e, por isso, a proposta de Miguel Pinto Luz é, neste contexto, de triplo interesse.
Em primeiro lugar, não preenche nenhum dos requisitos tradicionais para uma candidatura aceite pelo establishment político-mediático no cânone que fez de José Sócrates um dos heróis democráticos do País. É, felizmente, uma personalidade política outsider do mainstream burocrático-socialista que faz do Estado uma coutada semipública e da anomia cívica um modo de viver.
Em segundo lugar, convoca para a intervenção cívica uma geração competente que se afastou da suas obrigações com a sociedade que a protege. A ideia de retribuição na construção de um país mais justo e desenvolvido para as gerações seguintes, desde que motivada por mais do que a espuma dos dias, pode ajudar a romper o circuito clientelar das famílias políticas endogâmicas e passadistas que vigora.
Mas o essencial é que a proposta de MPL arrisca um caminho político substantivo: o programa que apresentou ambiciona cidades inteligentes, choques tecnológicos, empresas inovadoras, o ambiente como fator de crescimento, a liberdade de escolha, a equidade social. Uma proposta substantiva de progresso justo e sustentável ao serviço da pessoa humana numa visão sustentável do futuro.
Mas propõe, sobretudo, mais do que a discussão das contas mais certas do que as do outro, uma mudança de paradigma estribada na ideia de autonomia dentro do Estado, na capacidade de melhorar finalmente a rentabilidade da carga fiscal para a poder reduzir e balizar uma competição saudável dentro das funções sociais que a todos possa servir melhor. É esta urgência do que conta na capacidade de reagir ao imediato que fez a escolha fácil e, a todos os que já votaram no PSD, acabou por trazer uma nova esperança.
(Opinião publicada na VISÃO 1401 de 9 de janeiro)