Ao fim de seis anos na direção da Casa Fernando Pessoa, Inês Pedrosa demitiu-se, abandonando o cargo antes do final do mandato. A escritora e jornalista diz ao JL que tomou essa decisão porque tem outros “projetos” e sente a necessidade de ter mais tempo para se dedicar à sua obra literária. “Não nos devemos eternizar nos lugares”, acrescenta. “O serviço público é para todos”. E sai da Casa Fernando Pessoa com a consciência de que fez o “essencial” do que se tinha proposto e deixando a programação feita “ao milímetro”, até ao fim do ano: exposições de Nikias Skapinakis e Manuel Casimiro, o Dia Luiza Neto Jorge, no mês de maio, com uma conferência de Fernando Cabral Martins e uma récita de Natália Luiza, o Festival do Desassossego, de 10 a 13 de Junho, com escritores portugueses e brasileiros, uma conferência sobre Sophia em julho e muito mais. Ainda planeado está um novo número da revista Pessoa. Um balanço positivo do trabalho realizado, pelo que parte sem “frustrações”, nem “mágoas”, porque a “vida é demasiado curta para ressentimentos”.
JL: O que a levou a esta demissão?
Inês Pedrosa: Fui diretora da Casa Fernando Pessoa durante mais tempo do que qualquer outro diretor. Chegou uma altura em que pensei que ia fazer 52 anos e ainda não tinha feito muitas das coisas que queria. Desde logo na escrita.
Mas não vai sair só para escrever.
Nem poderia, porque não conseguiria viver só de direitos de autor. De qualquer maneira, tenho a minha crónica no Sol e terei outros projetos mais pontuais, que não exigem o acompanhamento de que precisava a Casa, em que fui programadora, angariadora de patrocínios, anfitriã permanente e sempre sobre escrutínio. Quando não estava, logo vinham umas más línguas comentá-lo. E não estava lá por razões pessoanas, porque fui a muitos festivais que felizmente já se realizam noutros países. Organizámos aliás encontros no Brasil, que tem uma grande dedicação ao Pessoa.
A ligação com o Brasil foi uma aposta ganha?
Com a literatura em expressão portuguesa. Mas é verdade que fizemos essa ponte com o Brasil. Temos todo o interesse cultural em fazer um bloco literário com os brasileiros.
O que destaca no trabalho realizado?
Por exemplo, a biblioteca do Pessoa estar agora na net, disponível para o mundo inteiro, um tesouro preservado. Também o facto de ter ficado coligido o acervo da casa, faltando apenas um terceiro volume sobre as artes plásticas, já em preparação. E criou-se uma programação regular, que conseguiu atrair vários públicos, com conferências nacionais e internacionais, música, exposições, teatro. Este ano, nos 80 anos da Mensagem, pensámos por exemplo todo um programa de interpretações cénicas de novos criadores. Por outro lado, foi essencial reconstruir o quarto de Pessoa, porque há uma dimensão museológica que a Casa tem de ter. E ainda a criação da Ordem do Desassossego, para distinguir pessoanos, o congresso, que tem a originalidade de ser transdisciplinar como Pessoa. Saio com a consciência de missão cumprida.
E com mágoa?
É sempre triste largar um sítio onde se foi tão feliz. Mas é preciso saber fazê-lo. Saio sobretudo com as alegrias, o muito que aprendi, lembrando o trabalho em equipa, os momentos inesquecíveis. Foi um tempo que me enriqueceu muito para o futuro.