“Ganhar o Grande Prémio Cinanima era uma realidade tão distante que nem sequer a considerávamos”, afirma, ao JL, David Doutel. Percebe-se a surpresa. Afinal, é a primeira vez, em 38 edições, que o vencedor do principal galardão do Cinanima – Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho é um filme português: a curta-metragem Fuligem, da dupla David Doutel e Vasco Sá. No entanto, para o realizador, esse não é o principal motivo de satisfação: “Nem fazíamos ideia que nunca tinha ganho um português. Soubemos depois. Há filmes tão bons! O mais importante, para nós, é mesmo o reconhecimento e a visibilidade do filme”. E acrescenta: “Não somos competitivos. No fim do Cinanima, houve uma grande festa, com um grande espírito de união. Isso é que fica e nos interessa. Essa união em torno do mesmo objetivo: fazer filmes”.
Fuligem destacou-se assim na competição internacional, disputada por 88 obras de 19 países, e venceu também o Prémio António Gaio, a que concorreram 11 filmes de realizadores portugueses com mais de 30 anos. Dois palmarés que vêm juntar-se aos já conquistados Prémio Nacional de Animação, no Festival de Animação da Lousada, e Melhor Realizador e Prémio do Público, no Curtas de Vila do Conde.
“Este tem um sabor especial porque é o Cinanima! O festival de animação mais antigo do país e grande responsável pela promoção daquilo que ainda existe. Nós crescemos com o Cinanima, como espectadores”, conta David Doutel, considerando ainda que a atribuição pode abrir um precedente importante. “Quando um filme português está numa competição internacional existe uma sensação de inferioridade, que deve ser combatida. Talvez este prémio possa ajudar a quebrar essa barreira”.
À semelhança de O Sapateiro, o primeiro filme da dupla, e um dos mais premiados de 2011, que aborda uma profissão em vias de extinção, também Fuligem retrata um mundo em desaparecimento. Neste caso, a história das linhas de comboio encerradas em zonas isoladas do país que se mistura com a de dois irmãos. A técnica é animação tradicional com recurso à pintura digital e ao carvão. Estreado, em julho deste ano, no Curtas de Vila do Conde, Fuligem percorre agora o circuito dos festivais, nacionais e estrangeiros. “Queremos muito ter o filme no Monstra” [em março de 2015], diz David Doutel. “Seria a primeira vez que o filme passaria em Lisboa”.