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De médico e de louco, todos temos um pouco, assevera um adágio popular. António Pedro Ferreira acrescenta à proverbial constatação um outro termo, fotógrafo. E assiste-lhe tanto mais razão quanto a prática fotográfica se generalizou. No caso, também será de mudar o advérbio. É que de médico e de fotógraffo tem António Pedro Ferreira (APF) muito. Ainda chegou a exercer Medicina, mas acabou por focar-se essencialmente na fotografia, sendo fotorepórter do Expresso desde 1987. E quem for um destes dias à galeria Kameraphoto, à rua da Rosa, no Bairro Alto, em Lisboa, perceberá porquê. Lá estão duas dezenas de fotografias que fez, no início dos anos 80, quando demandou França com uma bolsa do ministério da Cultura para fotografar os emigrantes portugueses. A exposição chama-se Segunda escolha, mas nem por sombras se aplica algum laivo de desdenhosa expressão: o olhar é de primeira água. A questão é, de resto, inequivocamente de olhar. “O fotógrafo anda sempre à procura de qualquer coisa. Além do tema, procura algo que reflicta o seu olhar sobre o mundo”, diz APF. “Nestas fotografias há um certo ambiente, uma incomodidade que se desprende. Quase uma angústia. Se calhar é isso que procuro em todas as imagens que faço”.
Talvez por esse “registo pessoal” ou porque as imagens carreiam histórias próprias, independentemente da sua primeira vocação documental, aquilo a que o fotógrafo chama a sua “reveberação interior”, quando algumas pessoas viram as fotografias de Segunda escolha, ainda sem legendas, perguntaram-se: “É a Bósnia?” Não, esclareceu APF: “Somos nós há 30 anos”. E sublinha: “Os nossos emigrantes tinham o mesmo aspecto dos actuais imigrantes em Portugal. Há uma décalage de evolução de umas décadas na família europeia”. Nos dois anos e meio que viveu em França, APF conviveu intensamente com a comunidade imigrante. “As únicas fotografias de emigração que conhecia na altura eram as da partida do Sud-express feitas pelo Eduardo Gageiro. Ainda hoje são extraordinárias. Era a história do garrafão que ainda apanhei, mas captei sobretudo a segunda geração já adulta em plena crise de identidade e que hoje está perfeitamente integrada” Dos milhares de imagens que registou – uns 600 rolos -, tinha apenas mostrado uma pequena parcela, no Centro Georges Pompidou, em Paris, e no Arquivo Municipal de Lisboa, em 1998. Em Segunda escolha – o título vem justamente do facto de ter procurado mostrar nesta exposição um conjunto ainda inédito -, não deixou de incluir duas ou três fotografias dessas mostras anteriores. São elas que dão o “tom”.
Quando voltou a olhar os antigos negativos e Valter Vinagre, da galeria, lhe fez algumas sugestões, APF quase sempre torceu o nariz: “Pareciam-me muito ao lado, mas acedi. E agora que as vejo na parede, acho que realmente têm força e que poderiam ter sido uma primeira escolha”. António Pedro Ferreira, 52 anos, andava pelos 10 quando comprou a sua primeira máquina fotográfica, com o dinheiro que tinha juntado nos aniversários e natais. Surtiram efeito as muitas tardes que passou a ver diapositivos dos safaris na Gorongosa e das muitas viagens pelo mundo do seu tio Vasco Magalhães, que tinha a paixão da fotografia. “Foi esse fascínio de ver coisas extraordinárias e longínquas que me iniciou na fotografia”, recorda. E por graça, acrescenta: “Lembro-me de uma sessão sobre a amazónia em que quando apareciam os índios nus, mandavam as crianças para fora da sala”.
Apesar dessa intensa motivação, optou por seguir Medicina. Antes de licenciar-se, começou a fazer as primeiras fotografias para a imprensa, na Música & Som, onde saiu a sua primeira imagem, em 1978, depois na TVguia. Ainda fez o estágio como médico no Hospital dos Capuchos e depois no Centro de Saúde de Sacavém. Mas as colaborações fotográficas rendiam-lhe mais do que o salário de clínico. E na impossibilidade de seguir logo uma especialização, acabou por dedicar-se à fotografia a tempo inteiro. E, ao correr do tempo, foi um olho clínico de fotógrafo que se apurou.