Tanto quanto sabemos, o jurista Camilo de Almeida Pessanha chegou a Lisboa no início de outubro de 1915, a bordo do paquete alemão Lusitania, que largara de Gibraltar menos de uma semana antes. Vinha de sabática, que lhe fora conferida por muitos anos de bom e leal serviço como professor, depois conservador, enfim, juiz na colónia portuguesa de Macau. Entretivera-se, nas duas décadas que levava de voluntário exílio no Oriente, a lecionar filosofia, a colecionar bizarrias curriculares e a juntar obras de arte, sedas pintadas, estatuetas de jade, contadores de charão.
Pessanha vinha com um fito: levar as autoridades portuguesas a acolherem e aceitarem expor a sua coleção de artefactos chineses, que considerava única. Para começar, queria saber aonde tinham ido parar os caixotes em que despachara a sua preciosa coleção, coisas que levara 20 anos a acumular, com critério e paciência, e que resolvera doar à pátria, talvez movido por uma ponta de entusiasmo que as notícias da República nova lhe tinham despertado, certamente preocupado em dar destino seguro àquele espólio singular.
Mas a pátria, lívida de estupor, opusera-lhe renitências, embaraços, obstáculos. Em Macau, o governador tentara argumentar: que o doutor Pessanha conhecia a nossa sociedade de sábios, uma côterie pequena, invejosa, muito ciosa dos seus privilégios. Já imaginou quanta persuasão seria necessária para convencer Lisboa de que a sua coleção iria enriquecer o património nacional?, perguntou, enfaticamente.
Camilo previra que esse seria um dos escolhos maiores à concretização da sua vontade. Para começar, não havia, em Portugal, quem estivesse habilitado a apreciar devidamente as criações do génio chinês. Com minúcia, preparara um catálogo pormenorizado das cem peças que integravam a coleção que pretendia doar: uma cabaia de corte bordada em seda azul, um vaso litúrgico da dinastia Ming, em precioso cloisonné, um perfumador de quatro faces, com a tampa em forma de dragão enroscado. E esculturas, peças de cerâmica, pinturas e caligrafias, embutidos em madeira.
Evocaria, em memória descritiva que tencionava escrever, as razões da relevância deste espólio magnífico, que havia de constituir uma primeira introdução do público português à arte chinesa. Mas é certo que não era possível avaliar a arte dos chins pelos padrões ocidentais: não havia, na criação artística chinesa, nem sombra de noção do que fosse arte pura, expressão livre, ou arte filosófica. Espantou o governador ao afirmar, com intransigência, que viria a Lisboa defender a sua coleção.
Camilo Pessanha demorou-se em Lisboa pouco menos de seis meses. Correu dos ministérios para as Janelas Verdes, meteu empenhos e fez exposições, moveu influências e mobilizou conhecimentos, muitos das quais já quase se tinham esquecido dele. Valeu-lhe a constante amizade de Ana de Castro Osório, que viria a editar-lhe, em 1921, a sua única recolha de poemas, Clepsydra. Mas nem os caixotes apareciam nem o diretor do Museu de Arte Antiga, José de Figueiredo, lhe dera esperanças de que o principal museu nacional pudesse vir a acolher a sua coleção: vocacionara o museu para a exibição de uma pretensa tradição pictórica nacional, que, se não existisse, seria ali mesmo fundada. Sugeriu-lhe que talvez o Museu Machado de Castro de Coimbra estivesse em condições de albergar as suas chinoiseries.
Em março de 1916, exausto de diligências e talvez apertado pelas carências do ópio de que dependia, Pessanha interrompeu a licença sabática e regressou ao Oriente. Nunca mais voltaria a Lisboa. Camilo Pessanha morreu em Macau em 1 de março de 1926. A 5 de abril, o governador de Macau enviou ao ministro das Colónias uma carta em que dava conta das últimas vontades do poeta: legar uma série de objetos ao Museu Machado de Castro e exprimir o desejo de que a coleção depositada no Museu de Arte Antiga fosse junta a este legado e entregue ao Machado de Castro, de forma a valorizar a coleção.
A 15 julho, o diretor do Museu de Arte Antiga despachou determinando a entrega ao Museu Machado de Castro, já que a coleção foi “julgada, salvo um número muito reduzido de peças, imprópria para ali [no Museu de Arte Antiga] figurar”. A 18 junho de 1928, o diretor do Machado de Castro designou o conservador João Gaspar Simões e outro funcionário para receberem em Lisboa a coleção destinada ao museu de Coimbra, o que aconteceu quatro dias depois. Mas os caixotes ficaram armazenados durante décadas, sem que ninguém lhes desse destino adequado. Seria difícil que alguém se interessasse por ela: em 1967, na sua biografia do poeta, Gaspar Simões considerava que “as coleções de arte de Camilo Pessanha não eram assim tão extraordinárias. Muita coisa era fancaria.”
No início dos anos 1990, foi celebrado um protocolo entre o Museu do Oriente (então em instalação) e o Instituto Português de Museus prevendo o depósito das coleções de arte chinesa de Camilo Pessanha no museu, quando ele viesse a abrir. As peças abrangidas pelo protocolo, 100 da doação de 1915 (rolos de pintura, peças de vestuário, bronzes, frascos de rapé e porcelanas) e 57 da doação de 1926 (porcelana, bronzes, cloisonné e álbuns de pintura) foram transportadas do Museu Machado de Castro para Lisboa no verão de 2007. Em abril de 2008, uma seleção foi instalada nas vitrinas e posta à disposição do público. Atualmente, estão expostas 82 peças da coleção de Camilo Pessanha. O restante mantém-se nas reservas do Museu.