O José Carlos Carvalho avisou logo de manhã, mal nos encontrámos em frente à estação de comboios de Aveiro. “Na Comercial dizem que vai haver tempestade hoje à tarde, em Trás-os-Montes”. A bem da verdade refira-se já agora que acrescentou logo de seguida “eles são um bocado malucos, pode ser que não seja bem assim”. O José Carlos está arrependido! Os senhores da Comercial não são loucos e se a informação pecou… foi por defeito. A tempestade foi uma SENHORA TEMPESTADE, que se prolongou durante mais de duas horas, desenhando artísticos (e compridos) relâmpagos no céu, com direito a estrondosos raios e a bolas de gelo.
Chegámos a Cidadelhe pela mão de Saramago. É a aldeia “quase na ponta de um bico rochoso entalado entre os dois rios (o Côa e o Musseime)” de que fala no seu livro Viagem a Portugal. Em tempos foi cidade, teve tribunal, cadeia, câmara, escola. Hoje, público, há apenas um café que abre “à hora do meio dia” e depois de jantar, porque quem o abre é pastor. Para além, é claro, da hospitalidade das gentes da terra, como o casal Joaquim e Albertina Marques que nos ofereceram de jantar umas saborosas costelinhas de borrego e nos observam aqui, na sala de estar de sua casa, enquanto escrevemos estas linhas à luz das velas (a tempestade parece ter passado, mas a luz, essa, são onze da noite e ainda não voltou).
Conhecemos Albertina à porta da Igreja Matriz de Cidadelhe, durante a tarde. Debruçada sobre a vassoura com que limpava o adro para a festa da terra (a 13 de Maio), contou os habitantes da aldeia um a um, para satisfazer a nossa curiosidade. Não chegam a 30… crianças não há, a pessoa mais nova tem mais de 50 anos de vida… Quase todos emigraram em busca de vida melhor. “Havia casinhas pequeninas, habitadas por nove e dez pessoas, hoje não há ninguém”, ironizava Albertina, enquanto nos guiava pelas ruas da aldeia. Não esconde as saudades do tempo em que se ouviam vozes de crianças em Cidadelhe, em que “a vida era ruim num sentido, bom no outro”.
No “bom” entram os serões à luz da candeia de azeite ou petróleo, a fazer malha, rendas, meias. “Hoje com a luz boa que temos, não vejo nada disso”…
Mas o relato não fica completo sem outra personagem, Hortência Martins, de 72 anos. Estávamos em casa dela quando a tempestade rebentou e foi lá, a comer biscoitos de azeite (feito com azeitonas das muitas oliveiras da terra) e a provar o queijo de cabra que faz todos os dias, que esperámos que o pior passasse. Já a tínhamos acompanhado a “arrumar o macho” (o burro Carriço), a dar de comer a porcos, pombos, galinhas e coelhos. As ovelhas já tinham chegado do campo e devorado a ração que as esperavam em jeito de sobremesa, no palheiro. Íamos assistir à ordenha, mas.. a luz foi-se.
Ah! Porque é que chamam a Cidadelhe calcanhar do mundo? Joaquim diz que isso é muito antigo, Albertina concretiza: “É por estarmos aqui isolados.” E agora, que acabou de ler o texto que escrevo, remata, entre risos: “Se não tivéssemos calcanhar, éramos aleijados.”