Pode uma ideia para um livro nascer com o autor preso e fechado numa máquina de ressonância magnética? Tanto pode que foi assim mesmo que nasceu a ideia de que resultou Tudo Sobre Deus, o mais recente romance do escritor angolano José Eduardo Agualusa, 65 anos, como o próprio conta nesta entrevista à VISÃO. Pensar numa ideia para um livro foi a estratégia que encontrou para “sobreviver” àquele exame médico, que “dá muito medo”, confidencia. Depois, a história de Leopoldo G. Borges, geólogo e poeta que está a morrer, e que se isola numa igreja abandonada no deserto do Namibe, para passar os últimos meses de vida, ficaria consolidada após um intrigante diálogo entre o autor e o ChatGPT. Agora a viver na Ilha de Moçambique, Agualusa também dá conta do seu método de trabalho – que só existe quando se apaixona por uma ideia, e que começa às cinco da madrugada. “Escrevo muito bem logo depois de acordar, de manhã”, diz. E, “às vezes, em jejum”. Afirma que “um dos grandes problemas destes tempos confusos em que vivemos é que as pessoas, devido à extrema polarização da sociedade, que tem muito a ver com as redes sociais, se isolaram em bolhas e se recusam a ouvir o outro”. E que, na extrema-direita, “as pessoas não parecem sequer estar interessadas em defender ideias – vivem do confronto, do sangue, da gritaria”. Acredita que “poderá haver transformações políticas nos próximos anos, num sentido positivo”, em Angola e em Moçambique. Mas, em 2026, estará especialmente atento aos EUA e às intercalares de novembro, à espera de “surpresas boas”, e à China, onde esteve no ano passado como escritor e sobre a qual diz: “Fiquei com a sensação de que a maioria do povo faz de conta que o partido não existe, e o partido faz de conta que não sabe disso [Risos].”
É o tipo de escritor que se obriga a escrever um determinado número de páginas por dia do projeto que tem em mãos?
Absolutamente, não. Não consigo funcionar assim. Sou um escritor que funciona por paixão. Quando estou apaixonado por uma ideia, escrevo. Este último livro, escrevi-o em quatro meses, um tempo recorde para mim.
A que se deveu essa rapidez?
Estava muito apaixonado. Ou muito necessitado de escrever este livro.
Ainda assim, quando entra nesse vórtice de paixão, estabelece um horário de trabalho?
Não. Quando se começa a escrever um livro por paixão, é um vício, uma necessidade que responde a uma demanda interior. Não se consegue parar. Escrevo por intuição e, quando tenho uma ideia, começo de imediato. Depois as coisas vão acontecendo, uma vai puxando a outra.
Nessas alturas esquece-se de comer, dorme pouco?
Não. Gosto muito de comer [Risos]. E nem me deixariam que me esquecesse de comer. Faço as refeições com a família. Tenho também uma menina de 7 anos. Tenho uma vida. Mas posso deixar de fazer outras coisas habituais para escrever. Escrevo quando posso. Como estou agora a viver na Ilha de Moçambique, tenho mais tempo. E, portanto, escrevo mais.
E gosta mais de escrever durante o dia ou à noite?
À noite, mesmo, não escrevo, durmo. Na ilha deito-me muito cedo, às nove horas.
Então também se levanta muito cedo…
Sim, às cinco da manhã, que lá já é dia.
Acontece começar logo a escrever ou antes, por exemplo, vai dar um passeio a pé?
Normalmente até aproveito e escrevo um bocadinho de manhã, antes que a família acorde. Depois tenho coisas para fazer, como levar a menina à escola.
Passe a picuinhice: nessas horas madrugadoras, escreve em jejum?
Às vezes, em jejum, sim, para depois tomar o pequeno-almoço com a família. Escrevo muito bem logo depois de acordar, de manhã. Mas também acontece sonhar com coisas em que estou a trabalhar e acordar a meio da noite.
Tem à cabeceira papel e caneta para tomar apontamentos?
Ou tomo apontamentos ou vou mesmo para o computador escrever. Mas isto é a exceção à regra. O que acontece mais vezes é ter em sonhos uma boa ideia, que me leva a acordar, e depois já não durmo – fico a maturá-la o resto da noite na cama.
No seu método de trabalho, enquanto ficcionista, não abdica de dominar a narrativa?
Não sei o que é dominar a narrativa. Quem pensa em termos de domínio são aqueles escritores que, quando partem para a escrita, já têm uma estrutura do romance pronta, já têm os personagens todos muito bem desenhados, já têm o enredo pronto. Eu não tenho nada disso. Parto com uma ideia vaga e pouco mais, e, como já disse, escrevo por intuição. Nesse sentido, não controlo coisa nenhuma. Zero.
Como lhe surgiu a vaga ideia que culminou no seu livro de que agora falamos, Tudo Sobre Deus?
Surgiu de uma maneira um pouco diferente. Este foi um ano muito difícil, estive doente, e o médico a que fui mandou-me fazer uma infinidade de exames, entre os quais uma ressonância magnética. É uma experiência que não recomendo a ninguém, dá muito medo, de facto. Somos amarrados e depois enfiam-nos dentro daquela espécie de forno, com aquele ruído todo, e a pessoa tem de ficar ali presa, sem se poder mexer. Acho que as pessoas criam uma estratégia para sobreviver àquilo. Lembro-me de a minha ex-mulher me contar que passou o tempo todo a cantar canções do Caetano Veloso. Já eu comecei a imaginar uma história que seria contada na primeira pessoa, eu próprio, José Eduardo Agualusa, que estava a morrer, e ia instalar-me numa igreja abandonada – que existe mesmo, e é uma imagem que há muito tempo me persegue – no deserto do Namibe, no extremo sul de Angola, para passar os últimos meses de vida. Quando cheguei a casa, comecei a escrever.
Mas na versão final, a sua primeira pessoa acabou substituída pelo personagem Leopoldo G. Borges, geólogo e poeta…
Quando já tinha algum material escrito, liguei ao Mia Couto – trocamos sempre ideias enquanto escrevemos. Contei-lhe a ideia que tinha tido e ele, no meio da conversa, perguntou-me: “Mas quantos romances é que já escreveste?” Respondi-lhe: “Não tenho a certeza, 14, 15, não sei.” E ele: “Pergunta ao ChatGPT.” Foi o que fiz e recebi a resposta de que tinha escrito 16 romances, que vinham com os títulos. No entanto, nessa lista estava um livro que não reconheci, com um título de que agora não me lembro. E escrevi de volta, a dar conta de que não me recordava de ter escrito tal livro. Resposta do ChatGPT: “Tem toda a razão, José Eduardo, peço imensa desculpa; não se lembra de ter escrito este livro porque ainda não o escreveu” – o que é uma desculpa maravilhosa, de que não estava à espera. Então resolvi experimentar e perguntar: “Sobre o que é este livro que ainda não escrevi?” Resposta: “É sobre um geólogo e poeta, que está a morrer e que vai para o sul de Angola passar os últimos meses de vida.” Já tinha começado a escrever a história em que eu mesmo me encontrava numa situação semelhante. Decidi, então, escrever sobre um poeta geólogo. E o livro nasceu assim. Depois foi tudo muito rápido. Nunca tinha escrito sobre aquela geografia específica, mas conheço-a, li imenso sobre ela, sou muito apaixonado pelo deserto do Namibe. Acho que houve um conjunto de situações que se ligaram ali para produzir o romance.
No pressuposto de que a Inteligência Artificial não é – ainda… – uma “divindade omnisciente”, é de supor que tenha antes comentado por escrito, online, com amigos, a história que estava a escrever – ou que planeava escrever –, em que era o narrador, talvez “travestido” de geólogo e poeta que está a morrer, e que escolhe uma igreja abandonada no deserto do Namibe para casa de memórias e reflexões sobre a sua vida, prestes a findar. Diria que foi assim que o ChatGPT “apanhou” e gerou a resposta que lhe deu?
Não sei explicar como aconteceu, mas é provável que a máquina, esta entidade, tenha tido acesso a alguma informação anterior. É possível, sim. Também não acho que as coisas surjam por acaso.
Por falar em acasos: também faz neste livro uma grande convocação da memória, ou de memórias, quando em Portugal cresce uma controvérsia sobre supostas adulterações e manipulações da memória histórica contemporânea, pré e pós-25 de Abril de 1974. Este assunto preocupa-o?
Vamos por partes. Este meu livro é sobre a morte, sobre o medo dela, sobre o que nos espera depois. É a história de um homem que está a morrer e vai para aquela igreja abandonada, isola-se nela, a refletir sobre a vida e a tentar alcançar alguma paz interior. O meu esforço em termos estilísticos foi o de conseguir fazer alguma coisa que se aproximasse do despojamento, da secura, da simplicidade aparente do deserto. Mas depois também com as diferentes camadas e formas de vida que o deserto contém. Quanto à controvérsia, acho que se ouvirmos as diferentes versões talvez consigamos aproximar-nos da verdade. O problema é quando se tenta manipular essas versões – e, por vezes, de forma absolutamente contraditória. Mas a existência de diferentes versões é algo que vejo com bons olhos.
Quanto mais versões, melhor?
Sim. E gosto de ouvir todas as versões. Acho que um dos grandes problemas destes tempos confusos em que vivemos é que as pessoas, devido à extrema polarização da sociedade, que tem muito a ver com as redes sociais, se isolaram em bolhas e se recusam a ouvir o outro. Faço um esforço enorme por ler jornais – e outro dos grandes problemas do nosso tempo tem a ver com o facto de as pessoas terem deixado de ler jornais – e as colunas de opinião que estão nesses jornais, que não são de pessoas que partilham as mesmas opiniões que eu. Também escuto rádios e tento falar com pessoas que estão distantes de mim. Acho isso fundamental – acreditando, inclusive, que talvez elas tenham razão, que talvez seja eu quem esteja errado. Quero ouvir essas pessoas, preciso de as ouvir. Aproximarmo-nos do nosso semelhante é muito fácil. Difícil é ouvir o outro que é diferente de nós. Se todos fizéssemos isso, acho que as coisas andariam melhor. Mas as pessoas estão fechadas, cada uma no seu castelo, e não querem ouvir o outro, que é o inimigo. E vemos isso acontecer ao mais alto nível.
A quem se refere?
Quando temos o Presidente dos EUA a fazer isso por sistema, as pessoas vão atrás. E essa atitude propagou-se pelo mundo inteiro. Ainda me lembro muito bem de quem eram os grandes líderes políticos em Portugal há 50, 40 anos. Não têm nada a ver, nem remotamente, com os que existem hoje. Aqueles líderes, embora fossem adversários políticos, escutavam-se uns aos outros, debatiam de forma civilizada, educada. Hoje é uma barbárie, e essa cultura está a alastrar-se. Isto é o que me incomoda mais na extrema-direita, em que as pessoas não parecem sequer estar interessadas em defender ideias. Vivem do confronto, do sangue, da gritaria.
Nos contactos que tem com a comunidade imigrante africana lusófona, sente haver pessoas que receiam já o seu futuro por cá a prazo?
O problema é que agora as pessoas se sentem autorizadas a verbalizar os seus preconceitos racistas. Hoje arriscamo-nos a ouvir esse tipo de discurso em qualquer lugar. Se a pessoa tem uma cor de pele mais escura, arrisca-se, de facto, a ser confrontada com essas situações no seu dia a dia. Isto não acontecia antes – as pessoas, pelo menos, tinham vergonha. Prefiro mil vezes um racista envergonhado do que um racista explícito. Mas esta não vergonha de um racista está dentro do que antes falei: o triunfo da barbárie, da má educação, da gritaria.
Diria que essa intolerância em relação ao outro também já contaminou África, pelo menos a África lusófona?
Ainda não temos nos nossos países – e estou a falar de Moçambique, de Angola e de Cabo Verde – uma extrema-direita. Não temos, graças a Deus, dirigentes políticos que defendam esse tipo de discurso. Mas podem aparecer.
Como vê a evolução da África lusófona em termos políticos, sociais e económicos? Pode haver mudanças?
Estou otimista, no geral. Claro que tudo depende também do que se passar no mundo. Se esta extrema-direita e estas ideias xenófobas triunfarem no mundo, vai com certeza haver um reflexo nestes países. Uma boa notícia no caso de Angola é que a paixão étnica se atenuou muito nos últimos 50 anos. Hoje, por exemplo, não existe em Angola o voto étnico. Isto é algo que merecia ser estudado. Por outro lado, temos em Angola uma oposição que me parece muito civilizada, muito capaz, muito inteligente, que tem sabido, inclusive, controlar a tendência populista de avançar contra o regime de forma aberta nas ruas, o que é uma tentação. Este é outro bom sinal. Depois, os dados económicos, não obstante a situação social, não são tão maus assim. Sim, existem problemas sociais gravíssimos, pobreza extrema, e por aí adiante. Mas também há sinais encorajadores. Acredito que possa haver transformações políticas nos próximos anos, num sentido positivo. Em Angola, em particular, e também em Moçambique.
Moçambique que viveu recentemente uma grave crise, com uma gigantesca revolta popular, reprimida com violência extrema, contra evidentes fraudes nas eleições de outubro de 2024, em que o candidato presidencial da Frelimo, Daniel Chapo, e o seu partido, apesar do desgaste de 50 anos de poder, ganharam tudo com maiorias absolutas…
O que sabemos com certeza é que as eleições não foram limpas. Mas, na verdade, ninguém sabe se Daniel Chapo e a Frelimo ganharam ou não. Certo é que o atual Presidente chegou ao poder numa situação muito infeliz, com uma contestação seriíssima e com motivos para que existisse. Isso manchou-lhe a credibilidade. Não obstante, não se conhecem negócios de corrupção em que o Presidente Chapo esteja metido, o que já é um bom sinal. Toda a gente, inclusive a própria oposição, e até Venâncio Mondlane, concordam que Chapo parece ser uma pessoa honesta e trabalhadora. Isto é algo de novo. Que ele esteja refém de uma fatia do setor mais corrupto da Frelimo, provavelmente é verdade. Mas é um facto novo haver aqui um Presidente que quer fazer diferente, não obstante as condições em que se encontra e as circunstâncias em que chegou ao poder. Vamos ver.
Recentemente, o líder do Chega, André Ventura, acusou o Presidente angolano, João Lourenço, de corrupção. Como comenta?
Leio os jornais todos e não vi nenhum artigo, nenhuma reportagem, nada, que implicasse o Presidente angolano em negócios de corrupção. Se o senhor André Ventura tem provas da existência de corrupção, deve apresentá-las. Como angolano, estou interessado nisso, quero ver as provas. Se não as apresenta, é cúmplice. Se não as tem, é um mentiroso. Não entendo a leviandade com que se fazem estas afirmações. Mas é verdade que os diferentes governos portugueses, todos desde há 50 anos, mantiveram relações com o pior que existe em Angola. E aqui incluo pessoas que estão no partido deste senhor e que têm negócios em Angola. Sei quem são.
A que pontos e situações vai estar especialmente atento em 2026?
Vou estar atento ao que se irá passar nos EUA. Muita coisa pode acontecer. Uma coisa já sabemos: vai ser um ano agitado. Vai trazer-nos surpresas. Esperemos que sejam boas surpresas. O triunfo de Zohran Mamdani em Nova Iorque [o jovem democrata, de 34 anos, que se assume socialista, toma posse, a 1 de janeiro próximo, como presidente da câmara da Big Apple] foi algo de que não se estava à espera e que mostra que é possível combater esta extrema-direita de uma outra forma. E à esquerda. Foi extraordinário. E não por acaso é um africano [Risos]. [Mamdani nasceu em Kampala, capital do Uganda, filho de pais indianos. A família emigraria para a África do Sul, tendo vivido na Cidade do Cabo, e depois rumou a Nova Iorque, quando Zohran tinha 7 anos.]
E a que mais estará atento em 2026?
À China, que está a afirmar-se a nível global e a explorar muito bem todos os espaços deixados vazios pelos EUA.
É algo misterioso como aquele regime, no século XXI, não só subsiste, como se consolida…
Estive na China no ano passado, como escritor, a apresentar livros. Fiquei muito impressionado com a qualidade humana das pessoas. Embora tenha muitos leitores em numerosos lugares, toda aquela gente, incluindo os jornalistas, estava informadíssima, sabiam tudo sobre os meus livros. Já quanto ao regime, a impressão que me dá é que a maioria dos chineses teve bisavós, avós e até pais que viviam em extrema pobreza. E, de repente, todos eles vivem agora numa situação mais ou menos confortável, em qualquer lugar, sem os problemas que os seus antepassados sentiram. Acho que não há mais turbulência na China porque o Estado deu às pessoas o essencial. Mas também fiquei com a sensação de que a maioria do povo chinês faz de conta que o partido não existe, e o partido faz de conta que não sabe disso [Risos].
Em termos culturais, qual é, na sua opinião, a grande ajuda que Portugal pode prestar hoje aos países africanos lusófonos?
Na construção de boas redes de bibliotecas públicas, algo que Portugal sabe fazer muito bem. Tem hoje uma rede de bibliotecas públicas que há de ser das melhores do mundo.