“Nós, humanos, podemos aprender com os pinguins a ser um pouco mais altruístas em nome do bem maior, em nome de uma sociedade melhor”

Foto: Ben Joiner/Bertie Gregory/National Geographic

“Nós, humanos, podemos aprender com os pinguins a ser um pouco mais altruístas em nome do bem maior, em nome de uma sociedade melhor”

Já leva 11 anos a fotografar e a filmar animais selvagens nos locais mais inóspitos do planeta, apesar de ter apenas 31 anos. E ainda assim garante que filmar Os Segredos dos Pinguins, produzido pela National Geographic, o surpreendeu constantemente e o conduziu por uma montanha-russa de emoções.

A nova série documental, que se estreia na segunda-feira, 21, no Disney+ e, no dia seguinte, na National Geographic Wild, elevou a fasquia, admite Bertie Gregory – afinal, chamar “segredos” a um documentário sobre animais que já tantas vezes foram filmados é quase pretensioso. Mas o cineasta britânico garante que as suas próprias expectativas foram superadas, com as câmaras a captarem vários momentos inéditos e surpreendentes, sendo o ponto alto o salto destemido de um grupo de jovens pinguins-imperadores de uma falésia de 15 metros para o mar.

Numa bem-humorada entrevista à VISÃO, em que revelou a mesma energia e entusiasmo que empresta aos seus documentários, Bertie fala sobre as qualidades dos pinguins que os humanos deveriam emular mais, as dificuldades que encontrou a trabalhar no frio extremo, a sua carreira, com dicas para quem queira aventurar-se pela fotografia ou videografia de natureza, e, até, sobre como os pinguins se tornaram personagens improváveis na guerra de tarifas de Donald Trump.

O que espera que as pessoas aprendam ou sintam ao ver Os Segredos dos Pinguins? Um sentimento de admiração? Compaixão? Ou apenas novos conhecimentos?
Eu já tinha filmado pinguins muitas vezes antes e, por isso, pensei que os conhecia. Acontece que estava completamente enganado. Durante os dois anos de filmagens, fiquei impressionado várias vezes, pelo que espero que as pessoas também fiquem impressionadas. E espero que aprendam muito sobre os pinguins, coisas que não sabiam antes. Mas também perguntou o que eu quero que as pessoas sintam… Parece-me que as pessoas vão achar a vida destes pinguins dramática e emocionante. Passámos por uma montanha-russa emocional durante as filmagens, e espero que o espectador passe pela mesma montanha-russa. Vão sentir todo o tipo de emoções ao observar estes pinguins.

Alguma coisa em particular o surpreendeu ou já nada o surpreende, ao fim de tantos anos a filmar animais?
Não, fui constantemente surpreendido. Antes deste projeto, pensava que comprometer-me com uma série chamada Os Segredos dos Pinguins… Bom, não é fantástico para a gestão de expectativas. Os pinguins já foram filmados muitas vezes antes, apesar de viverem em lugares difíceis de filmar, lugares que são logisticamente muito difíceis de alcançar. As pessoas estão familiarizadas com Marcha dos Pinguins e outros documentários icónicos. Por isso, para Os Segredos dos Pinguins, eu sabia que tinha de filmar algo novo. E, na verdade, houve vários momentos que me deixaram sem fôlego. E quando julgava que os pinguins tinham chegado ao seu limite, eles continuavam a surpreender-me. A cena mais icónica da série é quando as crias de pinguim-imperador fazem o caminho errado em direção ao oceano para dar o seu primeiro mergulho e, em vez de se encontrarem na borda do gelo marinho, onde podem saltar de 30 a 60 centímetros de altura, encontram-se no topo de um penhasco de gelo de 15 metros. Isto nunca tinha sido filmado antes! Não sabíamos se estas crias, que fomos conhecendo ao longo de meses, sobreviveriam a uma queda daquela altura. Foi um momento assustador.

Alguns dos laços mais fortes entre pinguins-imperadores ocorrem entre indivíduos sem parentesco. Os pais incentivam as crias, crias sem relação familiar entre elas, a conhecerem-se e a tornarem-se amigas

Estava a falar sobre as dificuldades de filmar em lugares desafiantes. Quais foram os maiores desafios que o Bertie e a sua equipa enfrentaram nesses ambientes tão extremos?
No caso do episódio do pinguim-imperador, o primeiro, estávamos na Antártida. Estes animais vivem em lugares muito frios, e filmar no frio é muito difícil. O dia mais frio de filmagens foi de -54 ºC. É uma temperatura extremamente gelada! E é um desafio filmar com muitas das novas tecnologias de câmara e com os drones, cujos comandos têm joysticks, porque não podemos usar luvas grandes, que é normalmente como se mantêm as mãos quentes. Se o fizermos, perdemos a destreza necessária nos dedos. Então, eu arranjei umas luvas aquecidas muito giras que reconectámos às pilhas da câmara, de modo a que eu pudesse controlar o equipamento. Foi assim que consegui muitas das sequências, como os pinguins-imperadores a saltarem do penhasco, porque não conseguíamos chegar onde eles se encontravam. A única forma de filmar isto era com um drone, o processo durava muitas horas, muitos dias, e o único modo de o fazer, mantendo as mãos estendidas durante tanto tempo ao frio, era com aquelas luvas.

Testemunhou algum impacto das alterações climáticas a afetar os pinguins?
Sim. Onde quer que eu vá, agora, para filmar animais, em todo o mundo, consigo ver como são afetados pelo que estamos a fazer ao planeta. No caso do pinguim-imperador, é particularmente comovente, porque as suas vidas estão intimamente ligadas ao momento sazonal da formação de gelo e do degelo no oceano. Com as mudanças sazonais, à medida que o nosso clima aquece, como resultado das nossas ações, o gelo marinho está a partir-se mais cedo, e isso geralmente significa que as crias estão a ser forçadas a entrar na água antes de estarem prontas. E a maioria dos pinguins-imperadores nunca conhecerá um ser humano. Estes animais provavelmente nunca conhecerão a causa da sua maior ameaça. É um conceito comovente. Mostra que os pinguins podem viver longe de onde geralmente vivemos, mas isso não significa que não estejamos ligados.

Os pinguins, em particular estes, estão entre os animais terrestres que vivem mais afastados de nós. Há algo que possamos fazer para ajudar a protegê-los?
Sim, completamente! Em primeiro lugar, os pinguins são indicadores da saúde dos oceanos, e precisamos de oceanos saudáveis ​​para a nossa própria sobrevivência. Em segundo lugar, todos os oceanos do mundo estão ligados. Ou melhor, estamos todos ligados pelos oceanos. Acho que esta ideia de salvar o mundo é um mau conceito. É um problema tão avassalador, a solução é tão gigantesca e avassaladora… E, como sabemos, o nosso mundo está tão dividido e polarizado… É importante focarmo-nos no que se pode fazer. Todos nós temos acesso a um pequeno lugar selvagem, seja um cantinho no nosso apartamento, um lugar no nosso jardim ou um parque ao fundo da rua. Todos nós podemos defender e cuidar daquele pequeno lugar e torná-lo um pouco mais selvagem do que quando o encontrámos. Se todos fizermos isto, pode parecer uma coisa pequena, mas tudo somado fará a diferença, e acabará por afetar os pinguins que vivem muito, muito longe.

Os pinguins são, à sua maneira, parceiros românticos e pais dedicados. Claro que esta é uma característica de sobrevivência ajustada pela evolução. Mas muitos animais não evoluíram assim. Porque é que os pinguins são como são? É uma consequência do ambiente hostil em que vivem?
Isso é efetivamente o mais importante. Estes pinguins são incrivelmente resistentes como indivíduos, mas não conseguem sobreviver sozinhos. São animais sociais como estratégia de sobrevivência. O que é realmente interessante neles é que alguns dos laços mais fortes não são apenas entre aqueles que esperaríamos, esses que nomeou – o laço entre a mãe e o pai ou entre os pais e a cria. Na verdade, alguns dos laços mais fortes na sociedade entre pinguins-imperadores ocorrem entre indivíduos sem parentesco. Uma das coisas mais giras que filmámos é que os pais incentivam as crias, crias sem relação familiar entre elas, a conhecerem-se e a tornarem-se amigas. Isto parece uma projeção humana, mas não é. Fazem esses amigos, formam esses laços, essas parcerias e, à medida que crescem, mantêm-se juntos. Tal como os amigos humanos, procuram uns nos outros confiança, orientação e segurança. Até as crias se amontoam para se aquecerem. Quando chegam a um obstáculo, olham uns para os outros: “Ok, quem é que vai resolver isto?” E quando um corajoso resolve a situação, os outros dizem: “Ah, é assim que se faz”, e fazem o mesmo. No caso do grande salto do penhasco, estão todos lá em cima com os amigos com quem cresceram. E assim que um deles salta, os outros dizem: “Está bem, eu também consigo.”

Diria que o sentido de cooperação é o comportamento que nós, humanos, deveríamos emular mais?
Uma das coisas mais poderosas é a forma como os pinguins-imperadores se agrupam. É algo com que as pessoas estão bem familiarizadas: quando os adultos se juntam durante grandes tempestades, quando ficam como que amontoados para partilhar o calor do corpo… Estes agrupamentos no mais profundo e escuro do inverno são feitos pelos machos – as fêmeas põem o ovo, dão-no ao macho para cuidar e depois vão para o mar para recuperar algumas reservas de gordura; os machos ficam, então, todos juntos, a equilibrar o ovo nos seus pés, e para se manterem quentes, amontoam-se. Uma das coisas giras deste projeto é que colaborámos com muitos grupos científicos, e a nova ciência está a mostrar que naquele amontoado, ao contrário do que pensávamos, os pinguins não se esforçam para chegar ao centro do grupo, onde está mais calor. Não, na verdade o que vimos é que os pinguins estão constantemente a empurrar-se para fora, para que os recém-chegados ao grupo se possam aquecer. É um ajuntamento muito altruísta. E a razão pela qual o fazem é porque sabem que, se todos lutarem para chegar ao meio, ninguém vai ganhar. Só vão desperdiçar energia. Não vão formar um agrupamento eficaz. Os cientistas estão também a descobrir que os pinguins não se espremem, porque se isso acontecesse não haveria ar preso e o isolamento não seria tão eficaz. Não, deixam um pequeno espaço entre cada adulto para que o ar fique retido, e o calor dos seus corpos aquece esse ar. E esse ar isola-os. É uma estratégia incrível! Por isso, sim, nós, humanos, podemos aprender com os pinguins a ser um pouco mais altruístas em nome do bem maior, em nome de uma sociedade melhor.

Começou a sua carreira muito jovem, logo após terminar o seu curso de Zoologia. O que o fez escolher esse caminho? Foi apenas uma oportunidade que surgiu na altura ou planeou fazer o que está a fazer?
Nunca conheci nada diferente. Sempre fui obcecado pela vida selvagem desde muito cedo, e este trabalho é incrível porque podemos conviver com animais fixes e fazer coisas interessantes, o que é realmente uma grande motivação para mim. Também aprendi desde muito cedo que, se filmamos e fotografamos algo pelo qual somos apaixonados, essa é uma ótima maneira de fazer com que outras pessoas se interessem pelo que fazemos. É uma oportunidade incrível que temos. Foi também por isso que escolhi este caminho.

Podemos ser os melhores cineastas do mundo, mas, se não soubermos como encontrar os animais e chegar perto o suficiente para os filmar sem os perturbar, toda a habilidade técnica será inútil

Tem algum conselho para os jovens que se inspiram no seu trabalho e querem fazer o mesmo que faz? Como podem começar?
Acredito, antes de mais, que toda a gente é demasiado obcecada com a habilidade técnica para se ser cineasta de vida selvagem. Claro que essa habilidade é importante. Dito isto, podemos ser os melhores cineastas do mundo, mas, se não soubermos como encontrar os animais e chegar perto o suficiente para os filmar sem os perturbar, toda a habilidade técnica será inútil. Por isso, o meu conselho para quem está a começar é este: larga a câmara, não te preocupes com isso; passa algum tempo na natureza a aprender a encontrar animais, a aprender a ler as pistas da Mãe Natureza, a prever o que os animais farão a seguir. Essa é realmente a chave. Depois de o fazeres, bom… Vivemos numa era incrível, em que todos têm acesso a uma câmara… Não precisas de usar aqueles equipamentos caros que nós usamos. A melhor câmara é aquela que temos nas mãos, e essa pode até ser a câmara do telemóvel. Basta sair por aí e fazer filmes. Além disso, todos temos acesso a estas plataformas de transmissão totalmente gratuitas: YouTube, Instagram, TikTok, o que quer que seja. Divulga o teu trabalho e receberás feedback. As pessoas são muito rápidas a dizer se é bom ou mau. Aprenderás rapidamente, e alguém estará a observar o que fizeste e poderá dar-te uma oportunidade.

Os pinguins têm sido protagonistas surpreendentes desta guerra comercial, porque Donald Trump decidiu impor tarifas às ilhas Heard e McDonald, que são habitadas basicamente por pinguins. Já viu alguns dos memes e piadas? Acha que estes animais estão a trazer alguma alegria a um momento sombrio?
Com certeza! Quer dizer, as tarifas serão desastrosas para a indústria automóvel dos pinguins. [Risos.] Sabe, eles precisam mesmo de todo este aço… Mas sim, adoro que os pinguins façam parte da cultura popular. Estou sempre a tentar desesperadamente destacar-me e fazer com que as pessoas se interessem pela Mãe Natureza, por isso, sim, este pequeno conflito que envolve os pinguins acaba por ser bom.

Já está a trabalhar no seu próximo projeto? O que é?
Tenho outra série no Disney+ chamada Animals Up Close. A primeira temporada já está disponível. Atualmente, estamos a fazer uma nova temporada, e o primeiro episódio vai sair em breve.

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