Manuel, doente devido às artroses, sobrevive com 200 euros mensais enquanto “aguarda pela idade da reforma”, depois de uma vida de trabalho em restaurantes na região do Porto.
Há dois anos que, sem alternativas do seu agrado, começou a montar um quarto debaixo do viaduto da Rua da Constituição. Era o tempo da chuva que não lhe caía em cima mas corria junto aos pés da cama. Com persistência, desviou as águas e manteve-se a seco, ao mesmo tempo que vedou os caminhos aos ventos gelados com uma coleção de cartazes com frases de filósofos, como “penso logo existo”, e outras de pendor religioso, que aprendeu “quando estudou teologia” e fotografias encontradas no lixo de “pessoas que passaram na minha vida”.
Da Ponta da Barca natal até “debaixo da ponte” foi o tempo de uma vida solitária, mas a que não falta, nesta fase, o carinho de amigos que aparecem para jogar às cartas ou ao dominó, enquanto, ao lado, Manuel Fernandes prepara uma refeição com vegetais oferecidos pela vizinhança.