Numa antiga casa colonial em Santa Marta, na Colômbia, onde hoje funciona o Museu do Ouro, a história da exploração europeia na América Latina cruza-se com um dos debates mais centrais da política climática atual: a reparação.
À primeira vista, pode parecer um salto temporal improvável. Mas, para muitos dos participantes na Conferência Internacional sobre a Transição para Abandonar os Combustíveis Fósseis, que decorre na cidade, a ligação é direta. A crise climática, defendem, não pode ser entendida sem olhar para o passado.
Durante séculos, a expansão europeia assentou na exploração intensiva de territórios, recursos naturais e populações. Ouro, prata, terras agrícolas e mão-de-obra foram extraídos de regiões hoje classificadas como “Sul global”, contribuindo para o desenvolvimento económico das potências coloniais.
Esse modelo de crescimento, baseado na extração de recursos e na transformação energética, evoluiu, mas manteve uma lógica semelhante: o uso intensivo da natureza para sustentar economias industriais. Hoje, essa lógica traduz-se numa dependência global de combustíveis fósseis, principal responsável pelo aquecimento do planeta.
Uma responsabilidade desigual
Os dados são claros: os países que mais contribuíram historicamente para as emissões de gases com efeito de estufa são, em grande medida, os países industrializados do Norte global.
Já muitos países do Sul global, apesar de terem contribuído menos para o problema, enfrentam impactos mais severos, desde secas prolongadas a eventos climáticos extremos que afetam diretamente populações vulneráveis.
Esta desigualdade está no centro do conceito de justiça climática e é a base de uma reivindicação crescente: a de que a transição energética não pode ser feita sem reconhecer responsabilidades históricas. Em Santa Marta, a ideia de dívida climática volta a ganhar força.
Movimentos sociais, representantes de comunidades locais e organizações internacionais defendem que os países mais ricos devem financiar a transição energética nos países em desenvolvimento, apoiar a adaptação aos impactos climáticos e contribuir para a reparação de danos já causados. Este debate não é novo, mas ganha nova relevância num momento em que a urgência climática aumenta e os mecanismos existentes se mostram insuficientes.
Apesar do reconhecimento crescente destas desigualdades, a tradução política da ideia de reparação continua a ser difícil. Nas negociações internacionais, os países divergem sobre a dimensão do financiamento necessário, os mecanismos de distribuição e a própria noção de responsabilidade histórica. Quase todos os do Norte global resistem a enquadramentos que impliquem obrigações financeiras mais claras, defendendo uma abordagem baseada em solidariedade e cooperação.
Uma transição que não é neutra
A conferência de Santa Marta surge precisamente neste contexto de tensão. Ao reunir países, comunidades e movimentos que defendem uma saída acelerada dos combustíveis fósseis, o encontro levanta uma questão inevitável: é possível fazer a transição energética sem enfrentar as desigualdades que a própria economia global criou? Para a muitos dos participantes, a resposta é clara: sem justiça, incluindo a reposição histórica, não há transição verdadeiramente justa.
Num espaço marcado pela história da colonização, o debate sobre o clima ganha uma dimensão mais profunda. A transição energética deixa de ser apenas uma questão tecnológica ou económica e passa a ser também uma questão política e histórica. E isso implica olhar para o passado, não como um capítulo encerrado, mas como uma parte ativa do problema. A forma como essa herança será reconhecida (ou ignorada) poderá definir não só a velocidade da transição, mas também quem beneficia dela.
Direção Editorial: Joana Guerra Tadeu | Reportagem: Imagens: Pedro Moura e Sílvia Moutinho | Produção em parceria com Don’t Skip Humanity.