Durante anos, falou-se de uma onda na foz do rio Douro como se fosse um acontecimento perdido no tempo. Uma esquerda longa e cavada, formada na saída da barra, no encontro entre o rio e o mar. A misteriosa onda, que permaneceria entre a memória de uns e a descrença de outros, desapareceu no início dos anos 2000, vítima das barragens, da construção de diversos molhes para abrigar a entrada das embarcações e da ausência das cheias que lhe davam vida. Restou apenas nas recordações e nos relatos de quem teve a sorte de a surfar.
No inverno de 2026, depois de semanas de tempestades e chuva intensa, algo mudou. As condições alinharam-se de forma quase improvável e a onda regressou. O fotógrafo de surf Stefan Mathers documentou este momento único: o improvável regresso de uma das ondas mais lendárias do Douro.

Foi Nuno “Stru” Figueiredo, recordista mundial da maior onda surfada em kitesurf, quem primeiro percebeu. Conhecia bem aquele pico de outros tempos, quando o Cabedelo oferecia algumas das melhores esquerdas do nosso país. No site Surf Total, Nuno já tinha, em tempos, recordado as aventuras na Foz do Douro. “A onda do Cabedelo era, sem dúvida, uma das melhores do mundo. Na altura, não era muito viajado, mas atletas como Rui Ferreira e Manuel Centeno vinham de lugares paradisíacos e afirmavam que ali é que estava bom, apesar da água fria. As cheias criavam uma mini-ilha de areia em frente ao farol da barra do Douro e as ondas rolavam perfeitas no início para a esquerda e, com a evolução da areia, para a direita. Nos dias perfeitos era possível mandar tubos de dez segundos ou três tubos por onda.”
Este ano, ao ver o mar e o rio a reencontrarem-se da forma certa, telefonou a Hugo “Lala” Abreu. No primeiro dia de sol, os dois confirmaram: a onda estava de volta.
Os obstáculos
Stefan Mathers não tinha essa memória. Para ele, a onda do Cabedelo era território desconhecido. Na noite anterior à missão, recebeu um telefonema de Alessandro Rodrigues. O convite era simples: fotografar uma sessão de tow-in surfing no Douro. No mesmo dia, as grandes ondas da Nazaré estavam ativas – uma escolha difícil para qualquer fotógrafo de surf. Ainda assim, resolveu ficar pelo Douro. Havia algo naquela onda, quase lendário, que não podia ignorar.
Quando chegaram ao local, Nuno “Stru” Figueiredo e Hugo “Lala” Abreu já estavam dentro de água. A equipa demorou um pouco mais a preparar o material: câmaras, caixas estanques e material de comunicação tinham de estar afinados para um cenário exigente.
A misteriosa onda, que permaneceria entre a memória de uns e a descrença de outros, desapareceu no início dos anos 2000, vítima das barragens e da construção de diversos molhes para abrigar a entrada das embarcações
Mas, pouco depois, tudo saiu do roteiro preestabelecido quando uma das motos se virou. O alerta chegou por telefone. Sem hesitar, Stefan e a equipa abandonaram a ideia de fotografar e avançaram para o resgate. Durante largos minutos, a prioridade deixou de ser a imagem e o foco concentrou-se em encontrar o surfista acidentado, ajudar, estabilizar e garantir que todos saíam em segurança. À volta, as ondas continuavam a alinhar paredes longas e limpas, perfeitas.
Quando finalmente resolveram a situação, o melhor momento já tinha passado. Ainda assim, regressaram ao rio.
A prancha perdida durante o resgate acabaria por dar à costa mais tarde, recuperada por um amigo de Hugo, um pequeno sinal de que, apesar do caos, tudo acabaria por se recompor.
Depois da tensão, veio uma estranha calma. Como se o cenário voltasse a alinhar-se, dando-lhes uma segunda oportunidade. A sessão podia continuar.
Foi então que Alessandro entrou novamente em ação com Nuno Stru, enquanto Stefan Mathers e Hugo Lala se posicionavam para captar o momento.
Nuno Stru colocou Alessandro na onda certa, uma esquerda longa, sólida, a desenrolar-se sobre a bancada de areia em direção ao rio. Desta vez, sem hesitação. Alessandro entrou, ajustou a linha com precisão e percorreu a onda com fluidez. No final, abriu os braços – um gesto simples, mas carregado de significado. Celebração pura.
Para quem já conhecia a famosa, foi um regresso ansiado. Para Stefan Mathers, foi a primeira vez. E talvez uma das últimas. Porque no Douro, como antes, tudo depende de um equilíbrio raro entre água, areia e acaso. A onda voltou, mas nada garante que fique.
