É muito fácil bloquear alguém nas redes sociais. O gesto é quase automático. Mal aparece uma opinião difícil de engolir, um comentário preconceituoso, um insulto. Nos últimos tempos, fiz o exercício de travar o gesto. Não bloquear à primeira. Com uma regra: só dar o benefício da dúvida a quem não ultrapassa o limite da ofensa e mostra alguma disponibilidade para o diálogo. Ainda assim, não é fácil. A experiência fez-me perder horas a teclar com alguém que se insurgia contra quem mora num bairro social e está a apanhar sol em bancos na rua enquanto a minha interlocutora sai a caminho do trabalho. “Devem ter mais regalias do que eu”, queixava-se, sugerindo pôr a trabalhar quem recebe o Rendimento Social de Inserção (RSI), em reação a uma notícia que dava conta da escassez de mão de obra com um comentário meu sobre como nos faz falta a imigração. Comecei pela resposta racional: “Um terço dos beneficiários de RSI são menores e recebem, em média, 119 euros por mês.” Mas essa não foi a melhor tática. Raramente é. Foi quando comecei a mostrar empatia que o novelo da conversa se desenrolou. Perceber as razões do outro ajuda a manter a conversa, não o bombardear com dados sem ser sensível à situação de cada um também. Não sei se nestas experiências consegui realmente fazer alguém mudar de opinião, mas pelo menos não fechei ainda mais a bolha que me separa de quem não pensa exatamente como eu. Há uma brecha de diálogo possível.
Estas foram experiências com estranhos em redes sociais. Mas, para muitos, a polarização política é algo que invadiu a sua esfera privada. Há colegas de trabalho, amigos de infância, pais e filhos ou familiares cada vez mais afastados pelas trincheiras da política. Joaquim (nome fictício) é um desses casos. Está quase há um ano sem marcar um encontro a sós com aquele que foi um dos seus melhores amigos, um daqueles que conheceu no liceu, aquele que foi seu padrinho de casamento e um dos maiores apoios quando se divorciou. Ao longo dos mais de 20 anos que levam de amizade, estiveram sempre em campos políticos opostos: Joaquim mais à esquerda, o amigo mais à direita. Isso não parecia ser um problema até há um ano, na sequência da reeleição de Donald Trump, uma conversa casual ter realmente azedado.
