“As festividades judaicas eram sempre celebradas na nossa casa, normalmente com mais familiares. Mas havia uma que tinha uma particularidade que me aterrorizava”, conta a escritora Esther Mucznik no livro que agora lançou, Uma Família Judaica – Três Séculos de Diáspora (D. Quixote, 224 págs., €22,90). A festividade que assustava a então pequena Esther era a comemoração de Pessach, a Páscoa judaica, ligada à personagem do profeta Eliahu Hanavi (Elias), um dos mais importantes do povo de Israel. “No final do seder, ceia em que é lida coletivamente a Hagadá, livro que de geração em geração narra a fuga dos escravos hebreus do Egito a caminho da liberdade, a criança mais nova deve abrir a porta da casa ao profeta Eliahu, que, nessa noite e segundo a tradição, visita todos os lares judaicos. Ora, eu era a mais nova e lembro-me de atravessar o longo corredor da nossa casa, abrir depressa a porta e voltar a correr para a sala de jantar aos gritos, apavorada com a possibilidade de o profeta entrar atrás de mim”, recorda.
Este é um episódio divertido do livro em que a autora, uma das figuras mais conhecidas da comunidade israelita em Portugal, relata a história dos Goldreich Mucznik, oriundos da Europa de Leste e que se dispersaram pelo mundo em busca de um lugar onde pudessem ser donos do seu próprio destino, refletindo em boa medida a epopeia do povo judeu – com guerras e perseguições, mas também com os seus momentos felizes, em que Lisboa surge como um porto seguro. Uma saga familiar que é, ao mesmo tempo, um retrato elucidativo da errância e das adversidades vividas pelos judeus nos últimos três séculos.

