Hoje, dia 15 de novembro de 2022 é a data projetada pela ONU para atingir o que se diz ser um “marco no desenvolvimento humano”: a população mundial vai ultrapassar os 8 mil milhões de pessoas.
Nunca fomos tantos.
No dia em que eu nasci, a 25 de agosto de 1972, havia no planeta 3.856.118.357pessoas, desde então, este valor aumentou 107,46%.
As alterações geo-politicas-humanitárias e sociais têm sofrido profundas mudanças. No tempo mais recente podemos identificar os conflitos, incluindo a guerra na Ucrânia, as tensões em Cabo Delgado, a pandemia do COVID-19 e as alterações climáticas, como promotores de desigualdades maiores: as cheias ou secas prolongadas por exemplo, na India ou na Somália,sem fim à vista e que continuam a potenciar a fome e a desnutrição; os direitos negados por práticas nefastas como mutilação genital feminina, os casamentos infantis, precoces e forçados; a não escolarização de meninas e jovens raparigas e ainda, em muitos países do mundo, as diferentes formas de violência baseada no género com índices muito elevados de mortalidade materna e infantil, na sua maioria por causas evitáveis.
Os meus já 22 anos de missão com o Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) têm sido a oportunidade de manter os olhos, os ouvidos e a razão bem focados perante as realidades das quais, em bom rigor, todos somos de alguma forma cúmplices porque partilhamos a mesma humanidade, apesar das diferentes velocidades e lupas. Uma oportunidade que as lideranças mundiais têm mas que parecem esquecer nos corredores do poder e dos populismos estratégico-políticos. Só assim se justifica continuarmos a assistir à mortalidade de mulheres e crianças na hora do nascimento, ou nos primeiros tempos de vida.
Continuarmos a contar os números da vergonha que são os das vítimas de violência doméstica porque a prevenção primária não existe. Colecionarmos situações de discriminação a que muitas pessoas são sujeitas por razões de orientação sexual, nacionalidade, cor, religião, ou simplesmente por terem nascido mulheres.
Ao celebrarmos os 8 mil milhões de pessoas, estaremos a celebrar 8 mil milhões de oportunidades transformadoras. Se não o fizermos, com sentido de honestidade, compromisso, ética, decência, num exercício de cidadania ativa responsável coletiva e individual, perdemos a possibilidade de mudança: as pessoas têm mesmo de ser o centro da decisão política.
E para que não deixemos ninguém para trás, teremos também de fazer investimentos reforçados.
Os países mais pobres são os que mais crescem- muitos deverão ver a população duplicar entre 2022 e 2050- pondo ainda mais pressão sobre o desenvolvimento das suas economias e o combate às desigualdades.
No nosso Orçamento Geral do Estado para 2023, aguardemos que o Parlamento assuma a importância da saúde sexual e reprodutiva e da igualdade de género no combate às desigualdades sociais e à pobreza. Os dados, os números, as estatísticas comprovam a relação direta com a garantia de que esse investimento é o certeiro para acabar com grande parte dos problemas do mundo.
É disto que falamos quando falamos de população mundial.
Espero então que exista um reforço no investimento na cooperação multilateral com o UNFPA e na bilateral com os países da fala comum. Eu conheci muitos projetos de verdadeiro sucesso em que o foco esteve na saúde materna, sexual e reprodutiva.
Deixo-vos aqui uma lista dos meus desejos neste dia tão especial:
- que a escola seja o elevador social e um espaço seguro onde a educação para a cidadania signifique mais do que currículos publicados;
- que nenhuma mulher morra ao dar à luz por ausência de profissionais ou serviços qualificados;
- que nenhum filho ou filha veja a sua realização pessoal, o seu futuro amputado, pelas sucessivas crises económicas que empurram para trabalhos mal remunerados ou emigração;
- que sejamos capazes de beneficiar do conhecimento, fazendo a triagem das fake news, e combater seriamente o preconceito com base na idade;
- que sejamos capazes de realizar as aspirações das mães, das avós, das tias, das filhas, enteadas, netas e sobrinhas de hoje.
O meu desejo para o bebé que nos fará chegar aos 8.000.000.000 e para a sua mãe (porque sou por natureza uma otimista informada pelos relatórios que estudo) é que cresçam juntas com saúde, alimentação adequada, igualdade de oportunidades, escola e educação de qualidade, numa comunidade e país com respeito pelas suas decisões e participação.
Que sejam felizes, sem dedos apontados, que respirem em liberdade, num mundo em paz e com os seus direitos humanos protegidos.
Eu já vivi mais tempo do que 75% da população mundial. A idade média global atingiu em 2022 os 30 anos. No tempo que me resta continuarei a trabalhar para que cada pessoa conte e conte com a sua dignidade garantida.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.