A artista e investigadora Bettina Forget investiga e desenha crateras lunares há anos e foi-se apercebendo, à medida que criava a sua arte, que são poucos os nomes de mulheres escolhidos para as designar. A investigadora da Universidade Concórdia em Montreal, Canadá, também amante de astronomia, percebeu que as designações das crateras lunares, definidas pela União Astronómica Internacional (UAI) para representarem cientistas, engenheiros e exploradores com importância suficiente na comunidade científica, não eram de pessoas reconhecidas na generalidade, ao contrário de outras crateras com nomes bem conhecidos como Newton e Einstein.
Isso fez com que Bettina Forget procurasse saber que pessoas representavam determinadas crateras e, mais importante ainda, quantas dessas pessoas eram mulheres. Ao New York Times, a investigadora explica que começou a fazer essa pesquisa a partir dos registos da UAI, começando a tomar nota de todas as crateras que tivessem nomes femininos. “Não havia muito a sublinhar”, conta Forget ao jornal americano, referindo que apenas 2% das 1578 crateras lunares que tinham sido identificadas até ao momento da sua investigação tinham nomes de mulheres (32, sendo que, em fevereiro deste ano, uma nova cratera foi designada com nome feminino, Easley, homenagem à cientista da computação Annie Easley).
De acordo com a investigadora, esta conclusão é importante no que diz respeito à representatividade das mulheres na comunidade científica, já que “cria um ambiente em que se acha que as mulheres não estão a contribuir” para o desenvolvimento da ciência, explica. Na verdade, até ao século XX não era permitido, na generalidade, às mulheres que fossem cientistas ou engenheiras e, como não se utilizavam nomes de pessoas vivas para se designarem crateras lunares, faz sentido que não se encontrem quase nomes femininos na lista.
A investigadora iniciou o projeto Women With Impact (Mulheres Com Impacto, em português) em 2016, com o objetivo de mostrar como as mulheres estão muito pouco representadas nos campos da ciência, tecnologia, engenharia e matemática. “Uma cratera é uma ausência de matéria, um vazio”, explicou a artista, referindo que isto é “um paralelo com o vazio de mulheres” que se encontram nestas áreas.
Para desenhar as crateras lunares com nomes femininos, Forget – que desenhou as 32 crateras identificadas até àquele momento – observou algumas delas a partir do seu telescópio de 20 centímetros e utilizou, depois, grafite e tinta acrílica preta para passar para o seu caderno imagens muito reais destas crateras: Cannon e Mitchell, nomes de duas astrónomas dos séculos XIX e XX, são exemplos destas reproduções. Relativamente a crateras que não são visíveis a partir da Terra, tal como Resnik e Chawla, que homenageiam duas astronaturas, Judith Resnik e Kalpana Chawla, a investigadora baseou-se em imagens captadas pela nave robótica Lunar Reconnaissance Orbiter, pertencente à NASA.

Todos os desenhos foram emoldurados individualmente e expostos numa galeria de arte na Universidade Bishop’s, em Sherbrooke, e no Rio Tinto Alcan Planetarium, em Montreal, Canadá. Novos projetos foram surgindo entretanto, com o objetivo de se homenagearem também as mulheres que estão vivas e que contribuem, diariamente, para o avanço da ciência.