Tudo começou com o pedido de entrega de uma sandes de vitela a clientes habituais do restaurante Líder, entre enfermeiros e médicos a trabalharem no serviço de urgência do Hospital de São João, no Porto. “Nessa altura, apercebi-me da exaustão deles. Tinha que fazer alguma coisa”, recorda Manuel Moura, o proprietário deste restaurante nascido vai para mais de 30 anos, na zona das Antas, onde se constuma sentar gente do Governo e da classe média alta da cidade.
Nas últimas duas semanas, todos os dias antes do jantar, é o próprio Manuel quem tem andado a entregar pessoalmente 60 a 70 refeições quentes, em embalagens ou tabuleiros devidamente higienizados, à porta daquela unidade de saúde. “Só descanso ao domingo. Mas saio de lá consolado”, conta-nos, depois de ter fechado o restaurante desde a declaração do estado de emergência e de servir alguns pedidos de take away, na hora de almoço.
A preparação da ceia que irá alimentar os “guerreiros das urgências”, como chama ao pessoal médico com carinho, é feita com antecedência. Olha para os ingredientes que ainda tem na despensa do restaurante, verifica os legumes que sobram, telefona a fornecedores habituais à procura de “uma boa alma” que queira contribuir com alguma coisa. “Peço carne a alguns talhos, fruta às mercearias, pão à padaria, alguns bolos… Tenho duas pastelarias que me têm ajudado [a Já Fumega3 e a Oporto]. Não paro de pedir. Para mim, não peço nada”, conta. “Ainda ontem fui comprar um quilo de queijo e de fiambre do meu bolso. Gasto arroz, gás, luz, gasolina por andar de carro a recolher os produtos. Mas faço tudo isto com imenso gosto”, afirma este amarantino de 62 anos, que é também presidente da Confraria Gastronómica das Tripas à Moda do Porto.
Para o jantar de médicos e enfermeiros desta quarta, 25, levou vários tabuleiros com massada de bacalhau, pizzas, fruta, pão e um bolo de ananás feito pela D. Augusta, uma das suas empregadas mais antigas. Nos últimos dias, nem sequer faltaram umas fatias de bolo-rei feito na hora. Nem pataniscas de bacalhau com arroz de ervilhas, frango grelhado e costelinhas (colaboração da amiga Olinda Nogueira, da Central Churrasco, em S. Mamede de Infesta). No final desta semana, há de apaziguar o estômago do médicos e enfermeiros com rojões acompanhados por batatinha aos cubos e asinhas de frango panadas com arroz de ervilhas. “É cozinha tradicional portuguesa, simples, saborosa e de conforto. É um miminho que eles precisam.”
Assim que estaciona junto ao Hospital de São João, pouco depois das 19h30, Manuel Moura coloca a máscara e as luvas ainda no interior do carro. A entrega das refeições é feita à entrada da urgência de pediatria, quase sempre, às enfermeiras Lurdes e Leonor que levam a comida com a ajuda de um carrinho. Minutos depois, volta a entrar no carro, tira a máscara e luvas e segue para casa.
“Quando chego, a minha rotina é sempre a mesma. Tenho os chinelos à porta. Descalço-me, dispo a roupa para lavar, ponho o casaco numa cruzeta a arejar na varanda. Vou tomar banho e só depois me junto à minha mulher e à minha filha para jantar”, descreve. “Fico com o coração cheio. Até durmo melhor.” No dia seguinte, e nos restantes, enquanto tiver ingredientes na despensa, Manuel Moura há de continuar a cozinhar para alimentar “os guerreiros das urgências”. Habituado a faturar dois mil euros por dia, os próximos tempos não se lhe afiguram fáceis. “Mas haveremos de conseguir, se Deus quiser. Haja saúde!” E acrescenta: “O mundo nunca mais será o que era [depois da pandemia]. As pessoas vão ficar mais humanas e perceber que vale a pena olhar para o vizinho do lado.”