ACOMPANHE A CARAVANA
Pedro Lapa diz que é das pessoas mais improváveis que aqui estão. Vai ao volante de um carro que não é seu, o dinheiro não lhe sobra para aventuras e deixou em Aveiro três filhas de 15, 11 e 9 anos. Se aqui está é porque os amigos perceberam a sua urgência de se juntar às Famílias Como as Nossas e, na sexta-feira, encheram-lhe a bagageira de comida, roupa, sapatos, mantas, uma cadeirinha de bebé.
Em julho, ele as filhas (a mulher, Elisa, morreu há três anos) estiveram quase a ir até Itália para ajudar os refugiados que viam todas as noites nas notícias. Os quatro falaram longamente sobre o assunto, mas Pedro haveria de descartar a ideia com receio de traumatizar as miúdas. “Não tive coragem de as expor ao caos e à morte”, diz, antes de partirmos de Montpellier. Agora, foram elas as primeiras a ajudá-lo nesta missão. Parte da roupa de menina que vai no carro era delas; receberam-na de presente há uns dias.
As filhas de Pedro sabem o que é precisar de ajuda. As suas vidas deram uma grande volta desde a morte da mãe. Têm um pai que vive para elas, um pai artista plástico que trabalhou muitos anos em Marketing e que tenta terminar o doutoramento em Estudos Culturais. Um pai criativo que inventou o conceito de Lusoplastia – qualquer coisa como encontrar pontos em comum com a pintura – mas ainda não inventou uma maneira de ganhar tempo para si próprio. Só veio descansado porque tem uns vizinhos “fantásticos” que o ajudam em tudo o que podem.
Ajudar e ser ajudado. Aos 46 anos, Pedro já aprendeu que a equação, afinal, quase tudo explica. “Os refugiados não têm nada, precisam de ajuda. As pessoas também me ajudam muito.” Na casa onde mora não sobra espaço, o dinheiro é curto para os trinta dias do mês, mas ele fará o que puder para levar para Portugal uma família como a sua. “Eu não tenho nada mas não me falta nada. Em Aveiro, há muita gente disponível para acolher refugiados. Mas, se for preciso, eles ficam melhor em nossa casa do que onde estão.”