O ano de 1976 ficaria na História das rentrées, não tanto por se ter realizado, num pinhal perto de Faro, a primeira festa social-democrata do Pontal, com a presença de Sá Carneiro, mas pela inauguração da Festa do Avante! que, mais do que uma celebração partidária, se distinguiria como um dos primeiros grandes festivais de verão. Concertos musicais, com um cartaz de grande qualidade, fizeram, a partir daí, parte fundamental do ADN da festa comunista – e pelos cinco recintos por onde passou, nas últimas quatro décadas, a Festa teve, sempre, o condão de atrair, não apenas os militantes e simpatizantes do PCP, mas também pessoas sem partido, ou eleitores de outras forças partidárias, pelo puro prazer de desfrutar da música, das exposições, do convívio e da gastronomia. Que o diga Marcelo Rebelo de Sousa, habitué do evento, antes de chegar a Belém…

José Caria
O momento político, concentrado, sobretudo , no discursos de encerramento do secretário-geral do PCP, era, assim, apenas o culminar dos vários dias de atividades mais abrangentes, para um número, ano a ano, mais inflacionado e indiferenciado de pessoas.
A camisola de alças de Jerónimo
Se o Pontal ganharia importância apenas uns anos depois, com o advento do cavaquismo – e essa importância se devesse, sobretudo, ao arranque da agenda política – a Festa do PCP foi, desde o início, capaz de marcar, também, a agenda cultural, criteriosamente coordenada pelo intelectual comunista Ruben de Carvalho.

Luís Barra
Em 1976, lambendo as feridas do PREC (Processo Revolucionário Em Curso), de onde saira derrotado e enfraquecido, o PCP, e Álvaro Cunhal, fizeram da festa um sinal de vitalidade, na tentativa, bem sucedida, de demonstrar que o partido continuava vivo e os seus militantes mobilizados. Com efeito, os 22 mil metros quadrados do recinto da Quinta da Atalaia, no Seixal, são, ainda hoje, como no primeiro dia, preparados, em regime de trabalho voluntário, pelos próprios militantes. Em 2005, por exemplo, Jerónimo de Sousa foi surpreendido pelas televisões a trabalhar nos preparativos da festa, com uma camisola amarela de alças e uma ferramenta na mão. Por essa altura, Manuel Maria Carrilho, candidato do PS à CML, dispensava a aliança com o PCP, deitando fora uma parceria inaugurada, em 1989, por Jorge Sampaio e pelo vereador comunista Rui Godinho. Suado e mais preocupado em acabar o que estava a fazer, Jerónimo, interrogado sobre esse “rompimento”, disse, numa das suas tiradas de sabedoria popular: “Amigo não empata amigo.” E Carrilho perdeu para Carmona Rodrigues. Não há derrota como esta.
Explosão: atentado ou acidente?
Em 1976, logo no primeiro ano, o PCP apanhou um susto monumental: nas vésperas da festa, uma explosão numa cabina de eletricidade, na FIL, fez desconfiar de sabotagem, algo que nunca chegou a ser esclarecido. Álvaro Cunhal, líder histórico do partido, passava por um mau bocado. Nas legislativas de abril desse ano, de terceira força eleitoral, os comuniostas passaram para quarto partido, atrás do PS, PSD e CDS. Mas Cunhal resistia, vendo implantado um governo minoritário do PS: “Apesar das críticas severas que fazemos à política dos dirigentes do PS e do governo do PS, insistimos em que é necessário que comunistas e socialistas, assim como outros democratas, se unam.” Uma “geringonça”, portanto, muito antes da dita. Mas que críticas eram essas? Carlos Brito, então no Comité Central do PCP (e posteriormente dissidente) não fazia nada por menos e acusava o primeiro-ministro Mário Soares de dar cobertura “à recuperação capitalista, agrária e imperialista”. Enquanto isso, em Alcântara, atuavam nomes como Carlos Paredes, Adriano Correia de Oliveira, Paulo de Carvalho, Fernando Tordo e Carlos do Carmo. O menu internacional incluía jazz, a cargo de Archie Shepp e Steve Waring. E o Avante! titulava, em manchete: “A Festa que Portugal nunca tinha visto!”
Só em 1990, depois de andarem em bolandas entre Alcântara, Jamor, Alto da Ajuda e Loures, os comunistas conseguiram juntar dinheiro para comprar, por 60 mil contos (300 mil euros), a Quinta da Atalaia, na Amora, Seixal, onde se instalaram desde então. Mas, concertos à parte, a Festa não esteve sempre isenta de controvérsia. Começando pelo facto de os lucros reverterem para o financiamento do PCP, que alguns põem em causa quanto à sua transparência do ponto de vista tributário – e o debate voltou, recentemente, quando os partidos se acomunaram para aprovar, à socapa, uma alteração à lei do financiamento que o Presidente da República mandaria para trás…
Das FARC aos gays expulsos
Em 2006, a presença, no recinto, de uma delegação e de propaganda das FARC, grupo guerrilheiro colombiano considerado terrorista por boa parte da comunidade internacional, mas que o PCP ideologicamente acolhia, motivou um protesto da embaixada colombiana em Lisboa – e críticas generalizadas dos restantes partidos políticos. Já em 2015, os seguranças da Atalaia expulsaram um casal gay do recinto. Acusado de homofobia, o PCP justificou-se: afinal, os expulsos estavam a praticar sexo oral, em pleno espaço público. Este ano, o PCP tem mais para explicar, depois da entrada no índex do livro de Luaty Beirão, “Sou Eu mais Livre, então – Diário de Um Preso Político Angolano”, cuja venda, na festa, terá sido vetada. Não se incomodam os camaradas do MPLA, que costumam fazer-se representar por uma delegação de peso…

Direitos Reservados
Polémicas à parte, o cartaz deste ano vai do fado de Aldina Diuarte ao Rap de Vado Más Ki Às, passando pelo blues de Slim Paul ou o gospel blues da americana Sharrie Williams. Nomes como os de Sérgio Godinho, Xutos e Pontapés ou Janita Salomé são repetentes, não podendo faltar, também, Jorge Palma, Camané, The Lengendary Tigerman, Carlão, Couple Coffee, Luís Caracol, The Black Mamba, Capitão Fausto, Kumpania Algazarra, Ana Bacalhau, Boss AC, Dead Combo Gaiteiros de Lisboa ou, de Cabo Verde, Os Tuibarões, entre muitos outros, para encher os sete palcos montados na Atalaia. No “concerto” de encerramento, o discurso de Jerónimo de Sousa não deixará de tentar dar música a António Costa, com o provável caderno de encargos para as negociações do último Oraçmento de Estado da “geringonça”…