Separação de poderes: o princípio consagrado por Montesquieu no século XVII é o farol orientador do PS para este congresso. O tema Sócrates foi assim arrumado por António Costa logo nos primeiros cinco minutos do seu discurso e dificilmente voltara a abordar o tema. Os congressistas apresentaram-se calmos, contidos, mas apreensivos e enlutados. E só ao fim de uns 20 minutos de discurso começaram a aquecer e a, esquecer. A esquecer o fantasma que temiam que assombrasse o congresso. E, embora nos bastidores insinuem a tese da cabala, atribuem as mas intenções da investigação sobre Sócrates ao timing escolhido para a sua prisão: no dia da eleição do novo secretário-geral e a uma semana do congresso. Mas ninguém diz que Sócrates é inocente. Ou antes, ninguém põe as mãos no fogo.
António Costa teve um início de discurso de verdadeiro sapador, a desarmadilhar uma perigosa bomba relógio. Parece ter cortado o fio certo e, pelo menos nas primeiras horas do congresso, n ao houve nenhum bombista suicida a aparecer a dar vivas a Sócrates. A verdade é que, com um discurso forte, bem estruturado, aqui e ali empolgante (sob o ponto de vista do militante médio socialista…), António Costa conseguiu o que parecia difícil: fazer, por momentos, esquecer o caso Sócrates e devolver política ao Congresso.
O novo secretário-geral socialista teve, sobretudo, um discurso de diagnóstico. O seu diagnóstico sobre o estado do país e sobre a governação PSD/CDS. Faltou-lhe indicar a terapia para o país, de que pode dar alguns indícios no discurso de encerramento. Mesmo assim, não se espere que Costa descubra a pólvora. Ele continua a empurrar com a barriga a apresentação de medidas concretas, para uma vaga convenção no futuro. O que já parece mania socialista: não há congresso em que o líder não prometa uma convenção futura para apresentar medidas que queríamos conhecer agora. António José Seguro havia feito o mesmo…
Costa foi mais concreto em matéria de Europa. Com ele, a voz de Portugal será mais grossa. Pelo menos promete fazer o que o actual governo nunca fez: regatear em Bruxelas. Mas mais não pode prometer porque a mudança de políticas europeias já não dependem dele. Ainda assim, é possível entrever uma certa colagem a nova comissão europeia, liderada por Jean-Claude Juncker.
A proposta de fazer eleger um secretário-geral adjunto caso chegue a primeiro-ministro, que parece, a partida, uma boa ideia, terá alguns problemas. Quem mandaria no PS? O adjunto seria um Delfim ou, com o decorrer do desgaste da governação, um rival? A quantas vozes falaria o PS? Que tipo de autonomia teria, relativamente ao governo? Em que plano se situaria o líder parlamentar?
O inquietante é que essa foi a única verdadeira novidade que Costa nos deu. E isso é muito pouco.