“Estará o círculo próximo de Donald Trump a lucrar ilegalmente com estas grandes oscilações do mercado de ações, através de informações privilegiadas?”, questionou o senador democrata Adam Schiff na rede social X, fazendo eco público das suspeitas de “insider trading” que já pairavam nos corredores da política americana, sobre os ziguezagues que têm caracterizado a estratégia de taxas aduaneiras da administração Trump.
O representante do estado da Califórnia e um seu congénere do Arizona, o senador Ruben Gallego, divulgaram esta quinta-feira uma carta enviada por ambos à Casa Branca, na qual dirigem essa mesma pergunta à Chefe de Gabinete do Presidente dos Estados Unidos da América, Susan Wiles, e ao responsável máximo do Gabinete de Ética governamental, Jamieson Greer.
“Escrevemos para solicitar uma investigação urgente sobre se o Presidente Trump, a sua família ou outros membros da administração se envolveram em ‘insider trading’ ou outras transações financeiras ilegais, tendo conhecimento antecipado de informação não pública sobre alterações na política de tarifas”, começam por dizer, constatando, logo de seguida, que “a decisão do Presidente Trump de aliviar a maioria das tarifas, previsivelmente, fez com que os mercados financeiros disparassem depois de terem afundado e passado por estranhas flutuações, desde a Ordem Executiva de dia 2 de abril, a anunciar tarifas globais”.
Sem rodeios, a carta aponta duas publicações de Donald Trump na rede social Truth Social, nesta quarta-feira, 9, como sinais que “levantam graves preocupações legais e éticas”, uma vez que antecederam em escassas horas a travagem a fundo do líder americano na aplicação das taxas aduaneiras. Separadas por quatro minutos, às 9h33 dizia assim a primeira: “Estejam tranquilos! Vai tudo correr bem. Os EUA vão ser maiores e melhores do que nunca antes!”. Depois, às 9h37, Trump acrescentaria: “Este é um ótimo momento para comprar!!!”.
Cerca de três horas e meia mais tarde, o Presidente anunciou, na mesma rede social, uma “pausa” nas tarifas, o que não só travou a queda histórica das Bolsas que durava há vários dias como fez subir vertiginosamente o seu valor, numa estrondosa reviravolta. Quer isto dizer que “as pessoas que compraram quando viram aquela publicação ganharam muito dinheiro”, explicou à agência noticiosa Associated Press Richard Painter, que liderou o Gabinete de Ética da Casa Branca durante a presidência republicana de George W. Bush e é crítico de Trump.
“É uma ação coordenada para lucrar com o caos”
O raciocínio de Adam Schiff e de Ruben Gallego é simples: se Trump já sabia, na manhã de quarta-feira, que iria ocorrer uma inversão no mercado bolsista dali a umas horas, em virtude da pausa nas tarifas que iria anunciar, com quem partilhou previamente a informação e quem se aproveitou dela para negociar na Bolsa? Se alguém o fez, violou a Lei.
“Trump e os seus doadores bilionários lucraram de ‘insider trading’? Adam Schiff e eu exigimos respostas”, escreveu ontem, no X, o senador Ruben Gallego, com Schiff a partilhar um gráfico suspeito do índice Nasdaq, que mostra como as ações começaram a disparar antes do anúncio público da “pausa” nas tarifas.
Adam Schiff apelida a administração encabeçada por Donald Trump como “a mais corrupta da história americana”, enquanto Chris Murphy, outro senador democrata, do estado do Connecticut, fala num “grande golpe”. Já o deputado Steven Horsford, democrata do Nevada, atira: “Isto não é uma coincidência. É uma ação coordenada para lucrar com o caos. Que mais poderia ser?”.
Segundo um porta-voz da Casa Branca, é apenas Trump a cumprir a sua incumbência de tranquilizar os mercados e os investidores americanos, perante o alarmismo que se gerou na última semana.