Denúncias
O ativista e cibermilitante nascido há 48 anos na Austrália detém o recorde de fugas de informação da História. Graças ao WikiLeaks, organização e plataforma online de que foi cofundador em 2006, na Islândia, foram divulgados dezenas de milhares de documentos confidenciais. Os excessos e a brutalidade das guerras no Afeganistão e no Iraque, os segredos e as comprometedoras inconfidências dos diplomatas dos EUA sobre os líderes mundiais ou até a forma como o Vaticano recusava enfrentar os seus escândalos de pedofilia são dossiers que a opinião pública global conheceu através do homem que muitos consideram ser um herói da transparência e da liberdade de imprensa. No entanto, a imagem de Assange mudou a partir do momento em que foi acusado de violação e de assédio sexual na Suécia, logo em 2010, e sobretudo quando ele aceitou receber ficheiros de ciberpiratas russos que atacaram os servidores do Partido Democrata, em 2016, de modo a interferirem na eleição presidencial que opôs Hillary Clinton a Donald Trump. Aliás, em relação a esse duelo pela Casa Branca, o próprio líder do WikiLeaks vangloriou-se então, numa entrevista, de não ter de “escolher entre a cólera e a gonorreia”.
O relator especial da ONU diz que Assange está a ser vítima de “tortura psicológica”
Motivações
O talento de Julian Assange para a informática parece ser proporcional ao seu ego e à sua capacidade de atrair polémicas. Adora assumir-se como jornalista e paladino da transparência. Os seus detratores acusam-no de ser um justiceiro irresponsável que se julgava inimputável.
Consequências
Após as queixas-crime na Suécia, Assange alegou que estava a ser alvo de uma charada judicial, de modo a ser deportado para os EUA e julgado. Mudou-se para o Reino Unido e acusou a administração de Barack Obama – com razão – de perseguir e indiciar mais whistleblowers com base na lei de espionagem de 1917 do que todos os outros inquilinos da Casa Branca juntos. Em junho de 2012, após violar as condições da liberdade provisória que lhe tinham sido impostas pela Justiça britânica, viu-se forçado a pedir asilo político ao Equador e o apartamento onde funciona a embaixada do país sul-africano em Londres tornou-se a sua casa durante quase sete anos. Nesse período, foi vigiado por câmaras e microfones de uma empresa espanhola chamada UC Global que, supostamente a mando da CIA, tratou de montar uma sofisticada operação de espionagem na representação diplomática equatoriana, onde até as conversas entre Assange e os seus advogados terão sido gravadas.
O caso ganhou novos contornos quando o governo de Quito lhe retirou o estatuto de asilado político e o despejou rumo a uma furgoneta da Scotland Yard, a 11 de abril de 2019. Desde então, o seu novo lar dá pelo nome de HMP Belmarsh, a cadeia de alta segurança criada para indivíduos muito perigosos e terroristas, também conhecida como a Guantánamo britânica. Aí tem estado em regime de isolamento total – só tem direito a 45 minutos diários para fazer exercício num pequeno pátio interno – e os seus advogados queixam-se de não terem livre acesso ao seu constituinte, e de não lhes facultarem documentos essenciais deste processo kafkiano. O relator especial da ONU sobre a tortura, o académico e jurista suíço Nils Melzer, diz que Assange está a ser vítima de “tortura psicológica”. Algo que não deverá mudar até maio, quando se realizar a segunda e última sessão do seu julgamento. Pior: como é quase certo que haverá recursos, ele poderá aguardar ainda muitos anos até ser libertado ou condenado, no Reino Unido ou nos EUA.