Passados seis anos o feitiço virou-se contra o feiticeiro. Se, em 2012, Pablo Iglesias, deputado e líder do partido espanhol Podemos, criticava o então ministro da Economia Luis de Guindos pela compra de uma casa, escrevendo no seu twitter “Entregarias a política económica de um país a alguém que gasta 600 mil euros num apartamento de luxo?”, agora é a vez de Iglesias estar a ser acusado de “populismo incoerente”. E, nem de propósito, pelo mesmo motivo e quantia. Iglesias e a sua namorada Irene Montero, deputada e porta-voz do Podemos no Congresso, compraram uma casa por 600 mil euros para onde se irão mudar quando os filhos nascerem (ela está grávida de gémeos).
A situação tem causado grande mal-estar nas filas do Podemos, com algumas vozes a falar em traição aos princípios do partido.
A casa – que está inserida numa propriedade com 2 000 metros quadros, tem cerca de 250 metros quadrados, piscina e casa para convidados – fica a 40 quilómetros de Madrid, e o casal fez um empréstimo a 30 anos, pagando 1 600 euros por mês.
Iglesias e Montero defenderam-se no Facebook: “Cada um vai pagar 800 euros por mês. Sabemos que muitas famílias espanholas, mesmo com dois salários, não podem pagar uma hipoteca como esta, e é por isso que é tão importante defender salários decentes para todos.”
Acrescentando ainda: “A realidade é que os nossos salários, que são públicos e decididos pela Assembleia dos Cidadãos do Podemos, nos permitiram empreender este projeto”. Os deputados do Podemos recebem o equivalente a três salários mínimos – Iglesias e Montero irão passar a receber quatro quando os filhos nascerem – e o restante é entregue ao partido e a causas sociais.
O líder do segundo partido nas intenções de voto – a seguir a Albert Rivera do Ciudadanos – disse que “não pensava” que a compra da casa “fosse gerar tanto debate e notícias” e decidiu que serão os quase 500 mil militantes do Podemos a julgar a sua continuidade à frente do partido.
“Se alguém acha que temos algo de que nos envergonhar não cabe a nós julgá-lo. É o povo do Podemos, os militantes, que devem avaliar”, referiu Irene Montero. Pablo Iglesias corroborou e disse que é o partido que deve dizer se continuam a “ser dignos de manter as responsabilidades” ou se “devem demitir-se”.
Assim, amanhã à tarde e até domingo, a votação em referendo estará a decorrer com a pergunta: “Consideras que Pablo Iglesias e Irene Montero devem continuar à frente da secretaria geral e da função de porta-voz parlamentar do Podemos?”
O Podemos começou por ser um movimento, em 2014, de intelectuais e ativistas de esquerda contra a deriva austeritária espanhola. Cedo ganhou protagonismo e, nesse mesmo ano, foi o quarto partido mais votado nas eleições para o Parlamento Europeu tendo conquistado cinco lugares.