Há memórias que o tempo nunca apaga. Na manhã de 26 de dezembro de 2004, quando a imensa massa de água, impelida por um sismo de proporções bíblicas, na ilha de Sumatra, irrompeu na costa do Sri Lanka – e de todo o Sudeste Asiático – os telemóveis não estavam ainda tão generalizados como hoje. Por isso, as imagens desse dia são escassas e quase todas tiradas pelos estrangeiros que se encontravam a passar férias na região. A “prova documental” da maior catástrofe natural das nossas vidas continua a ser a memória das pessoas. Mas uma memória que já não atormenta os cingaleses, como um fantasma do passado. As feridas parecem saradas, num país predominantemente budista, onde a morte é encarada como fazendo parte natural do ciclo da vida. E onde as pessoas estão habituadas e preparadas para sofrer.
Dez anos depois do tsunami e cinco anos após o final de uma guerra civil (também étnica e religiosa) que dividiu o país durante quase três décadas, quem aterra no aeroporto de Colombo a primeira coisa que vê são cartazes a anunciar uma visão inspirada na megalomania do Dubai: grandes torres de aço e vidro a rasgarem os céus, junto da costa. Obras faraónicas, construídas com o dinheiro chinês com que Pequim tem recentemente tentado comprar um aliado no seu duelo com a Índia pela hegemonia nesta zona do Índico. A mensagem dos cartazes é um convite a novos investidores: “O paraíso está a chegar, venha fazer parte dele.” À memória do tsunami, apesar de estarmos em véspera de uma data redonda, não há qualquer referência.
No centro histórico de Colombo, dentro dos limites do forte erguido pelos portugueses, no século XVI, no tempo em que o país ainda se chamava Ceilão, a estação de caminhos de ferro, edificada durante a colonização inglesa, fervilha de vida. É de lá que partem comboios para as terras altas, para a costa oeste e até, desde novembro, para Jaffna, a capital histórica da minoria támil, cuja revolta e sede de independência mergulhou o país no sangrento conflito que só terminou em 2009. Mas é também da estação de Colombo Fort que parte um dos comboios mais cénicos do mundo, ao longo da costa oeste e sul da mítica Taprobana, sempre tão junto ao mar que, em certos troços, os passageiros são refrescados pelos salpicos das ondas que se quebram nas rochas, e que entram pelas janelas abertas.
A 26 de dezembro de 2004, esse comboio a que os cingaleses chamam Samudra Devi (Rainha dos Oceanos) partiu apinhado em direção a Sul, pronto para oferecer aos seus passageiros mais uma visão inesquecível de praias paradisíacas. Às 9 e 30, no entanto, a sua marcha foi interrompida, a 200 metros da costa, junto da localidade de Paralya, com a linha alagada pela primeira vaga do tsunami. Imobilizadas, as carruagens foram invadidas por muitos populares que tentavam encontrar refúgio para a inesperada subida das águas. É então que chega a segunda onda, que os relatos indicam teria entre seis a nove metros de altura. O impacto é de tal ordem que arranca as carruagens dos carris e as faz rebolar. Quando a onda recolhe de novo ao mar, leva consigo os poucos que tinham resistido ao primeiro embate. Cerca de 1 700 das 35 mil vítimas mortais oficiais do tsunami no Sri Lanka foram contabilizadas no interior do Samudra Devi – o maior desastre ferroviário da história.
Sinais da reconstrução
Em dezembro de 2014, o Samudra Devi volta a partir, apinhado, de Colombo Fort. Quando começa a travar, na estação, centenas de pessoas correm para as portas altas, atirando bagagens pelas janelas, tanto na terceira como na segunda classe – em busca de um lugar sentado. Uma inscrição pintada nas carruagens indica que a lotação é de 44 passageiros, em cada qual. Mas a lotação real é bem outra e resume-se numa simples frase: há sempre lugar para mais um. E há. Por isso, apesar das ventoinhas no teto, escancaram-se as janelas para deixar entrar a brisa marítima. As portas, sempre abertas, são disputadas como lugares de honra por quem deseja ter vistas desafogadas sobre a costa.
Em Mount Lavinia, estância balnear muito popular, a 14 quilómetros a sul de Colombo, o maquinista tem de apitar para não provocar um acidente: em todo o Sri Lanka as linhas de caminho de ferro são usadas como vias para os peões, mas aqui esse congestionamento aumenta pelo facto de uma determinada curva ser muito procurada para sessões de fotografia de noivos, em especial ao pôr do sol. A praia está repleta de restaurantes. Todos eles reconstruídos depois do tsunami, que embora não tenha chegado aqui já com muita força, ainda tinha a suficiente para destruir as estruturas de madeira e fazer desaparecer os balcões onde se exibem os mariscos e peixes capturados mesmo em frente. Danushka Wijerathna, empregado num desses restaurantes há mais de 20 anos, lembra-se bem da manhã em que “o mar levou tudo”. Não se lhe vê no rosto qualquer sinal de lamento. Prefere, antes, abrir o sorriso e dizer: “Fomos nós que reconstruímos tudo e, agora, o restaurante até está muito melhor.”
Das janelas do comboio é visível, em alguns momentos, o antes e o depois do tsunami: casas novas ao lado de ruínas, moradias erguidas por cima de quatro pilares de cimento e outras de piso térreo que parecem abandonadas há uma década. Mas vê–se, sobretudo, uma intensa vida perto do mar. E uma exploração (assustadora) de empreendimentos turísticos, o mais próximo possível da areia das praias, entre coqueiros e junto das ondas.
Antes de chegarmos a Hikkaduwa, outra zona balnear famosa, Thusara, um cingalês de trinta e poucos anos, de fato e uma forte pronúncia inglesa, mete conversa para elogiar as belezas e a animação da sua terra natal, a cerca de 100 quilómetros a sul de Colombo. Elogia as praias, as ondas tão admiradas pelos surfistas, a intensa vida noturna e o renascimento que a cidade tem conhecido. Parece a repetição dos cartazes do aeroporto a anunciar que o paraíso está a chegar. E nem uma palavra sobre o tsunami, nem mesmo quando passamos, perante a indiferença de todos os passageiros, pela estátua de Buda, oferecida pelos japoneses, em Paralya, em homenagem às vítimas do Samudra Devi.
Este aparente alheamento sobre os acontecimentos de há uma década não quer dizer que o passado esteja esquecido. Nada disso. Qualquer cingalês (como, de certeza, todos os outros habitantes das regiões costeiras do Sudeste Asiático) sabe exatamente onde estava há dez anos, quando o mar galgou a terra. Mas numa nação com 75% de budistas, da escola Theravada, todos foram ensinados, desde pequenos, sobre a importância do “dukkha” – o sofrimento como característica básica do universo, não no sentido negativo ou pessimista, mas como uma inevitabilidade da própria vida, mesmo quando se procura a felicidade.
País de sobreviventes
Este é um país de sobreviventes, não de vítimas. Como Chamim, por exemplo, que tinha 16 anos quando viu as ondas aproximarem-se. Estava, como muitos outros jovens, a fazer o seu jogging matinal, um costume dos habitantes de Galle, nas enormes e sólidas muralhas do forte erguidas pelos portugueses, em 1619, e depois ampliadas pelos holandeses, e que protege toda a península, com o seu centro histórico elevado a património da humanidade, pela UNESCO. “Quando as ondas bateram, até as muralhas tremeram. Acho que nunca corri tão depressa como nesse dia”.
Na cidade baixa de Galle, não protegida pelas muralhas, a destruição foi total, com o mar a entrar, em vagas sucessivas, pela marginal rumo à estação de camionagem, onde os autocarros foram arrastados como brinquedos, para cima de casas. Nos dias seguintes, o imenso campo de críquete, junto da muralha, foi transformado em morgue ao ar livre. Calcula-se que mais de 4 mil pessoas tenham morrido nesta zona. E toda a frota de pesca foi destruída, deixando os pescadores sobreviventes numa situação aflitiva.
Michael Wijensundara voltara, nessa época, a Galle, após 18 anos emigrado no Dubai, onde trabalhou como cozinheiro de uma companhia de aviação e aprendeu a falar inglês e a dar mais valor à beleza natural e às tradições culturais do seu povo – em comparação com o cenário desértico e a “falta de educação” dos seus vizinhos da península arábica. “Como era feriado (“poya”, dia de lua cheia) tinha combinado com a minha família irmos passar o dia na praia, mas, à última hora, um monge pediu-me para ir fazer um trabalho no mosteiro e não pude recusar. A minha filha começou a chorar, a dizer que eu nunca cumpria as minhas promessas. Se tivéssemos ido à praia teríamos morrido todos, como aconteceu com dois irmãos da minha mulher, sobrinhos, vizinhos e tanta gente que eu conhecia.”
Mas, mais uma vez, o lamento fica-se por aí. E hoje a cidade foi reconstruída “exatamente como estava”, o porto encontra-se outra vez repleto de barcos de pesca e todos os fins de tarde centenas de famílias vão banhar-se no Índico. Do outro lado da baía, a Jungle Beach atrai os mais jovens, que ali bebem e dançam ao som de DJs locais, com os pés enfiados na areia.
Alguns quilómetros mais a sul, em Matara, onde termina a linha de caminho de ferro (e em que morreram mais de 5 mil pessoas, em 2004), assiste-se a um fenómeno que ilustra bem a forma como os cingaleses ultrapassaram o “sofrimento” do tsunami. Inicialmente, para prevenir novas tragédias, foi proibido fazer construções a menos de 100 metros da costa. Depois, o limite passou para os cinquenta. E logo a seguir para os trinta. Hoje, ao longo da costa que vai de Matale a Hambantota, passando por Tangalla, são visíveis inúmeras casas às quais, na maré cheia, as ondas quase batem à porta. E muitas habitações construídas com a ajuda internacional, elevadas e assentes em pilares de cimento, de forma a proporcionarem refúgio, estão agora a ser transformadas: o seu piso térreo, que deveria estar livre para deixar passar as águas, foi aproveitado para instalar pequenos comércios ou, então, alugado a turistas, que ali encontram um alojamento simples, mas barato e mesmo em cima da praia.
Os cingaleses, pelos vistos, não precisam de comemorar efemérides. Preferem olhar para o futuro. Até porque, a 8 de janeiro, o país vai a votos para escolher quem se sentará, nos próximos seis anos, na presidência da República Democrática e Socialista do Sri Lanka (o nome oficial!) e a intensa campanha eleitoral monopoliza, naturalmente, todas as atenções numa nação que, depois de tantos anos de sofrimento, vê a sua economia crescer e os sinais de progresso (autoestradas, novos aeroportos e portos internacionais) avolumarem-se. O paraíso está a chegar, anunciam. A memória, essa, pode esperar. Até porque nem mesmo o tempo a apagará.