Portugal desfez a péssima imagem que deixara no jogo de estreia, goleando por 5-0 a pobre equipa do Uzbequistão, num jogo em que Cristiano Ronaldo voltou a ser titular durante os 90 minutos, mas conseguiu, finalmente, chegar ao golo que lhe escapava. Marcou dois, que fazem dele o melhor marcador português em fases finais de Mundiais (Eusébio conseguira 9 golos no Mundial 1966), mas podia ter feito mais dois ou três. Mas mais importante do que os golos do CR7, foi a postura de toda a equipa, que mostrou, desde o primeiro minuto, que estava ali para deixar uma imagem diferente e provar que pretende ir longe na competição. A jogar assim, as hipóteses aumentam, sem dúvida.
Nos dias que se seguiram ao empate a um com a República Democrática do Congo muito se discutiu sobre o que iria Roberto Martinez fazer para emendar o que, obviamente, não tinha corrido bem nesse primeiro jogo do Mundial 2026. Houve até quem esperasse uma revolução, mas o treinador espanhol já mostrou que não é homem para isso. Por isso, Cristiano Ronaldo continuou de pedra e cal no onze titular. Mas percebia-se que as coisas não podiam ficar como estavam e que alguma coisa teria de mudar, face à demonstração de falta de ideias e de capacidade de surpreender um adversário apostado em não perder revelada na estreia. E para atingir esse objetivo, Martinez teve apenas uma ideia: trocar Bernardo Silva (apenas um dos desinspirados do primeiro jogo) por João Félix, que não merecera um minuto sequer contra o Congo. Rafael Leão e Chico Conceição, os suplentes utilizados nessa partida, desta vez não pareciam alternativa). No resto, a equipa escolhida para defrontar o Uzbequistão era em tudo igual, com a exceção de Rúben Dias regressar para o seu lugar no eixo da defesa em vez de Tomás Araújo.
A ideia do selecionador talvez fosse a de oferecer a Ronaldo o ajudante a quem se habituou, na última temporada, ao serviço do Al Nassr. João Félix apareceu jogar a partir do corredor esquerdo para o meio, para receber entre linhas e abrir espaço no corredor às subidas de Nuno Mendes. Já no lado contrário, Pedro Neto apareceu bem colado à linha, deixando a João Cancelo o caminho livre para investidas na zona central do meio-campo, como era hábito fazer nos tempos em que jogou pelo Manchester City e Bayern de Munique. Uma dinâmica que libertou Bruno Fernandes do papel de procurar sempre por Ronaldo e o deixou solto para ser mais ativo na busca dos espaços e do golo. E a verdade é que a estratégia resultou em pleno na primeira parte. Dinâmica, veloz e incisava, a equipa portuguesa cedo mostrou ao que vinha. Se, aos 2 minutos, Bruno Fernandes falhou por pouco, aos 6, Cristiano Ronaldo inaugurou o marcador, surgindo livre de marcação ao primeiro poste, após uma iniciativa individual de João Cancelo, que entrou de rompante com a bola controlada pelo lado direito da área contrária. Estava terminado o jejum de golos do capitão e igualado o recorde de golos de Eusébio em fases finais de mundiais. Caminho livre para uma exibição, enfim, consistente.
Foi o que se viu a seguir, ao contrário do adormecimento a que se assistira na partida contra o Congo. Com Nuno Mendes e Félix endiabrados na esquerda, Neto e Cancelo a todo gás pela direita e Bruno Fernandes livre, leve e solto por toda a rente de ataque, Portugal dominava como queria, contando com a atenção nas coberturas de Rúben Dias, João Neves e Renato Veiga, e a condução de orquestra do maestro Vitinha. Atarantados, os uzbeques viam-se obrigados a recorrer à falta para travar Portugal. E foi num desses lances, aos 17 minutos, que Nuno Mendes fez o segundo golo, aproveitando o facto de toda a equipa contrária estar à espera do remate de Cristiano Ronaldo.
Pouco depois, chegou a pausa para hidratação e, tal como acontecera no primeiro jogo, Portugal não reentrou bem no jogo. O adversário surgiu mais acutilante e a pressionar a saída de bola da defesa nacional e, não fora o VAR ter descortinado uma falta sobre Cancelo, o Uzebequistão teria conseguido reduzir a vantagem pouco antes da meia-hora de jogo. Um sinal de alerta que obrigou a equipa portuguesa a voltar à toada inicial, aproveitando, agora, o adiantamento do adversário. A estratégia resultou em pleno aos 39 minutos, quando Cristiano Ronaldo fez o segundo da sua conta e o terceiro de Portugal após uma jogada rápida de contra-ataque iniciada por João Félix e conduzida por Bruno Fernandes. Mais um recorde nacional para CR7 (10 golos em fases finais de mundiais), que ainda teve tempo de falhar do hat trick, na última jogada da primeira parte. E o mesmo voltou a acontecer por mais três vezes durante a segunda parte, com o capitão português a não conseguir desfeitear o guarda-redes contrário quando se encontrava isolado na cara do golo. Nada que impedisse, porém, Portugal de ampliar a vantagem e vencer com toda a tranquilidade.
Numa segunda parte em que Roberto Martinez começou por trocar todo o lado direito (sairam Cancelo e Neto para dar entrada a Nélson Semedo e Francisco Conceição) e acabou a poupar Félix (deu lugar a Trincão), João Neves (Bernardo Silva) e Vitinha (Rafael Leão), Portugal controlou sempre a operações, com uma dinâmica um pouco mais baixa, mas sem dar praticamente quaisquer oportunidades aos uzbeques, que ainda tiveram o azar de fazer o autogolo que ampliou, aos 60 minutos, a vantagem de Portugal para 4-0 e viram Rafael Leão precisar de apenas três minutos em campo para fazer o 5-0.
Assim, sim!