O Galo de Barcelos deixa o lugar de símbolo popular e assume uma voz política em Cantar de Galo, monólogo do dramaturgo norte-americano Robert Schenkkan que estará em cena no Teatro Carlos Alberto, no Porto, entre 24 e 26 de setembro. Interpretado e encenado por Jorge Andrade, o espetáculo revisita a história portuguesa a partir de um dos seus ícones mais reconhecidos.
A peça assenta uma pergunta improvável: o que teria o Galo de Barcelos para dizer se pudesse falar? É a partir desta premissa que Robert Schenkkan recupera a conhecida lenda associada à história de um homem injustamente condenado à morte que é salvo depois de um galo assado cantar, provando a sua inocência para abordar o significado que o símbolo adquiriu ao longo do século XX.
No centro do monólogo está a relação entre os símbolos populares e o poder político. O Galo confronta a figura de António de Oliveira Salazar e questiona a utilização do folclore, das tradições e de determinadas representações da cultura portuguesa durante o Estado Novo. A personagem procura, assim, distanciar-se da imagem decorativa e turística a que ficou associada e recuperar o sentido de justiça presente na lenda original. O galo que, segundo a tradição, salvou um inocente transforma-se, em palco, numa voz que contesta a instrumentalização política da identidade nacional.
Cantar de Galo cruza ficção, sátira política e memória histórica, propondo uma reflexão sobre a forma como os regimes políticos se apropriam de símbolos culturais e lhes atribuem novos significados. O texto é da autoria de Robert Schenkkan, dramaturgo, argumentista e ator norte-americano distinguido com os prémios Pulitzer e Tony. A peça surgiu na sequência de uma residência artística realizada em 2022 na companhia portuguesa mala voadora e foi posteriormente oferecida a Jorge Andrade.
Nesta produção, Andrade acumula a interpretação e a encenação, dando corpo e voz a um Galo de Barcelos que, em vez de permanecer como figura silenciosa do imaginário popular português, regressa à sua história para questionar o passado e a utilização política da memória coletiva.