Corto Maltese nunca foi ao Festival de Cinema de Veneza, até porque quando vagueava pela Sereníssima em Fábula de Veneza, em abril de 1921, a Mostra ainda nem existia. Faltavam 11 anos para o cinema descobrir que também podia desfilar de smoking numa passadeira vermelha à beira da lagoa. Mas imaginemos que Hugo Pratt deixou escondida uma sequela num qualquer cofre da aldeia piscatória de Malamocco: Fábula de Veneza 2 — O Mistério do Leão de Ouro. Em vez da Clavícula de Salomão, Corto procuraria agora uma coisa bastante mais difícil de encontrar: algum sentido no meio do Festival de Veneza de 2026, que começa hoje, 2, e termina a 12 de setembro.
A ideia nem sequer seria particularmente absurda. Pratt considerava Veneza o centro do mundo e construiu em torno dela uma cartografia própria, misturando lugares reais, superstições, memórias, portas secretas e nomes inventados. A Ponte Widmann tornava-se Ponte da Nostalgia, a Corte Buello transformava-se em Corte de Maltese e a cidade podia ser percorrida através de Corto Sconto, extraordinário guia sentimental de bacari, osterias, becos, pátios e lugares onde o turista sensato não chega porque insiste naquele erro elementar de querer saber sempre onde está. Mesmo com GPS, que em Veneza continua a ser uma excelente maneira de nos perdermos com tecnologia, Corto pisaria o Lido com a vantagem de conhecer uma regra fundamental: em Veneza, quem segue demasiado bem o mapa arrisca-se a acabar no sítio errado. No Lido é um pouco mais difícil. Trata-se de uma longa língua de areia, com ruas, avenidas, praias e o Lungomare Marconi a organizar aquilo que a Veneza histórica prefere deixar ao acaso.
Mesmo assim, o Festival pareceria imediatamente familiar a Corto Maltese. Um hotel, o Excelsior, que lembra um palácio oriental ou mourisco, o Palazzo del Casinò, um edifício de arquitetura fascista que agora é o centro de apoio à imprensa acreditada, um pequeno cais cheio de estrangeiros junto ao Excelsior, negócios mais ou menos transparentes, belas mulheres, homens importantes, jornalistas, políticos, milionários, idealistas, aventureiros e indivíduos cuja verdadeira profissão ninguém consegue explicar em menos de cinco minutos, enquanto se bebe um Aperol Spritz. Basicamente, uma história de Hugo Pratt com patrocínio de uma marca de automóveis, de um cocktail ou de um aperitivo.
Brass, Clooney e Murdoch: Corto chega à Mostra
A sequela teria começado ontem à noite com uma coincidência quase demasiado perfeita. Antes da abertura oficial, a Mostra homenageou Tinto Brass com a cópia restaurada de Col cuore in gola (ou Eliminação, no título em português), de 1967, devolvendo ao Lido um veneziano adotivo do excesso, da provocação e de uma liberdade cinematográfica que durante demasiados anos ficou soterrada pela redução do seu nome ao cinema erótico. Guido Crepax, criador da famosa figura dos fumetti italianos Valentina e outro nome maior da banda desenhada italiana, colaborou graficamente no filme. Corto Maltese, Tinto Brass e Crepax no mesmo Lido formariam uma espécie de Santíssima Trindade italiana da elegância, do erotismo e da insubordinação. Faltava apenas Hugo Pratt sentado ao fundo da Sala Darsena a desenhar a cena ou a observar quem passa na esplanada do Leone d’Oro.
Mas é esta noite que começa oficialmente a 83.ª Mostra. E começa de uma forma que dificilmente desagradaria a Corto Maltese: a história do magnata da imprensa Rupert Murdoch.
Às 19h00, a Sala Grande recebe a cerimónia de abertura, Laura Dern faz a laudatio de George Clooney e Clooney recebe o Leão de Ouro de carreira. Logo depois, estreia mundialmente Ink, de Danny Boyle, escrito por James Graham, com Guy Pearce na pele de Murdoch, Jack O’Connell como Larry Lamb e Claire Foy, sobre a compra e transformação do jornal The Sun no final dos anos 60. Poder, imprensa, tabloides, manipulação, dinheiro e a descoberta de que aquilo que indigna também vende: para inaugurar um festival em 2026, só faltava mesmo incluir um algoritmo, daqueles que tentam pensar por nós. Corto, que conheceu piratas, contrabandistas, revolucionários e traficantes de influência muito antes de existirem redes sociais, talvez reconhecesse imediatamente o território. Mudaram os navios. O comércio do poder continua bastante familiar.
Quanto a Clooney, Corto observaria, provavelmente com alguma perplexidade, esse extraordinário ritual veneziano em que um ator desembarca de um táxi aquático diante do Hotel Excelsior, sorri para dezenas de fotógrafos e transforma uma chegada ou partida de sete minutos de barco num acontecimento planetário. George Clooney está tão associado a Veneza que já deixou de ser exatamente um convidado e começa a pertencer à paisagem. Um dia, a cidade ainda cobra bilhete para o visitar. E, quem sabe, quando os miúdos crescerem, talvez ele e Amal concluam que já passaram tantas vezes por Veneza que só lhes falta receber aqui a correspondência.
Ellen Burstyn, aos 93 anos, receberá igualmente um Leão de Ouro, trazendo consigo uma nota involuntariamente subversiva: continua a trabalhar. A indústria cinematográfica tem uma relação curiosa com mulheres que envelhecem. Aos homens oferece presidentes, patriarcas, assassinos, mafiosos e sábios; às mulheres oferece normalmente uma homenagem e um vídeo com fotografias antigas, do tempo em que a indústria as considerava jovens e belas. Burstyn decidiu estragar o esquema aparecendo ainda em filmes. Corto, que sempre conviveu melhor com mulheres belas, perigosas, autónomas e pouco obedientes do que com homens revestidos de autoridade, provavelmente não perceberia onde estava a surpresa.
A política também apanha o vaporetto
E é precisamente a autoridade um dos temas subterrâneos desta edição. Veneza chegou a retirar do programa a habitual conferência de imprensa do júri presidido por Maggie Gyllenhaal e voltou atrás depois da contestação. Num ano politicamente carregado, uma conferência de imprensa sem perguntas seria uma invenção extraordinária, talvez digna de prémio para argumento de fantasia. O festival recuou. Os jornalistas poderão perguntar sem rodeios. Resta saber se as respostas virão igualmente sem eles.
Porque o verdadeiro filme do Festival de Veneza de 2026 decorre cada vez mais fora das salas. O coletivo Venice4Palestine voltou a exigir que a Bienal tome uma posição concreta relativamente a instituições ligadas ao Governo israelita e pediu que a bandeira palestiniana seja hasteada durante a Mostra. O apelo juntou Annie Ernaux, Roger Waters, Matteo Garrone, Nan Goldin, Isabel Coixet, Céline Sciamma e dezenas de nomes do cinema e da cultura global. A presença de filmes palestinianos na seleção e, sobretudo, de NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor, promete impedir que a passadeira vermelha se transforme numa zona politicamente esterilizada entre vestidos de alta-costura e copos de prosecco.
Depois do impacto de A Voz de Hind Rajab no ano passado, Veneza sabe que Gaza não desaparece quando se apagam as luzes da Sala Grande. A emoção cinematográfica deixou de bastar a muitos dos que exigem agora consequências políticas concretas. Corto Maltese conheceria bem este território. Passou as aventuras entre guerras, colonialismos, revoluções, nacionalismos e impérios e demonstrou sempre pouca paciência para bandeiras transformadas em desculpa para esmagar pessoas e comunidades. Não seria militante de congresso, muito menos de comunicado, mas saberia reconhecer perfeitamente de que lado estão os canhões.
A Ucrânia entra igualmente pela porta lateral através da polémica em torno de DAU, de Ilya Khrzhanovsky, contestado por instituições ucranianas devido às ligações históricas do projeto ao universo cultural russo. Alberto Barbera defendeu a seleção e rejeitou a acusação de propaganda pró-Putin. É o género de controvérsia que os grandes festivais conhecem cada vez melhor: toda a gente exige coragem política desde que a coragem coincida rigorosamente com a sua própria definição de coragem política. E há uma coisa verdadeiramente sublime que se chama liberdade de expressão.
Depois temos Elon Musk. O documentário Musk, de Alex Gibney, dura 225 minutos, quase quatro horas dedicadas ao homem que conseguiu transformar automóveis, foguetões, redes sociais, política e a própria personalidade num único conglomerado mediático-empresarial. Corto Maltese passou metade da vida à procura de tesouros, ouro escondido e fortunas impossíveis. Em 2026, descobriria finalmente que o maior tesouro contemporâneo já não precisa de estar enterrado numa ilha: pode estar cotado em bolsa e publicar mensagens online de madrugada.
Oscars, piratas e outras formas de contrabando
Por todo o Lido circulam entretanto os putativos candidatos aos Oscars de 2027. Veneza tornou-se uma espécie de posto alfandegário onde Hollywood tenta carimbar antecipadamente o passaporte para o Dolby Theatre, em Los Angeles. Começam imediatamente os rumores, os prognósticos, os favoritos, o inevitável Oscar buzz, as interpretações “já premiáveis” e os filmes declarados “incontornáveis” antes de metade dos jornalistas os ter conseguido ver. Alguns chegarão realmente em março ao Dolby Theatre. Outros desaparecerão antes de outubro com a rapidez de um produtor depois de uma má crítica. E é precisamente isso que as plataformas e as majors americanas começam a recear. Por isso, este ano, na seleção de Veneza 83, praticamente desapareceram os grandes filmes dos estúdios de Hollywood.
Corto perceberia depressa que o Festival de Veneza não é assim tão diferente das suas aventuras. Também existem mapas falsos, tesouros, sociedades discretas, negociantes, espiões, idealistas, oportunistas e pessoas absolutamente convencidas de que conhecem o caminho certo para o Leão de Ouro. Os antigos piratas usavam navios; os modernos têm agentes. Os contrabandistas transportavam ouro; agora transportam direitos de distribuição. Os mercenários vendiam serviços ao melhor pagador; hoje chamam-lhes consultores ou assessores. E as cortes secretas de Pratt foram substituídas por festas privadas onde ninguém consegue entrar sem conhecer alguém que conhece alguém que, por sua vez, conhece a pessoa da lista.
Ao fim de alguns dias, Corto Maltese acabaria provavelmente por abandonar o centro do festival de bicicleta e seguir para Malamocco, antiga vila de pescadores na metade sul do Lido, suficientemente afastada da passadeira vermelha para o mundo voltar a ter dimensões razoáveis. Sentar-se-ia numa mesa longe dos fotógrafos e pediria uma ombra de vinho. Deixaria Clooney com o Leão, Maggie Gyllenhaal e os jurados com a batata quente de escolherem os prémios, os ativistas com os protestos, os produtores com os negócios e os jornalistas com as suas listas intermináveis, classificações, estrelinhas e revelações absolutas do cinema mundial descobertas às nove da manhã, entre meia dúzia de cabeçadas de sono.
Antes de partir, ainda poderia procurar uma das três portas secretas que, em Fábula de Veneza, permitiam aos venezianos cansados das autoridades estabelecidas fugir para lugares mais belos e outras histórias. Na Mostra de Veneza de 2026, porém, talvez Corto chegasse à conclusão de que não valia a pena abrir porta nenhuma. A história mais improvável já estava toda no Lido.