O Lido de Veneza volta a cumprir o seu pequeno milagre anual: transformar uma língua de areia com onze quilómetros, hotéis caríssimos, bicicletas, mosquitos, vaporetos e jornalistas privados de sono no centro provisório do cinema mundial. De 2 a 12 de setembro, a 83.ª Mostra Internacional de Arte Cinematográfica ocupa novamente o Lido, sob a direção de Alberto Barbera, com 21 filmes na competição principal, centenas de convidados e uma quantidade suficiente de estrelas para iluminar a lagoa com e sem eletricidade.
É o festival de cinema mais antigo do mundo, nascido em 1932, quando ainda não distribuía Leões de Ouro e ninguém discutia nas redes sociais se um aplauso de onze minutos significa obra-prima ou apenas dificuldade em encontrar a saída da sala. O prémio principal só adoptou a designação atual em 1949 e desde então foi parar às mãos de gente tão recomendável como Kurosawa, Buñuel, Louis Malle, Ang Lee, Sofia Coppola ou Yorgos Lanthimos. No ano passado ganhou Jim Jarmusch com Father Mother Sister Brother.
Rupert Murdoch abre as hostilidades
A abertura, dia 2, pertence a Danny Boyle e a Ink, adaptação da peça de James Graham sobre Rupert Murdoch e a aquisição do The Sun no final dos anos 60. Guy Pearce faz de Murdoch, Jack O’Connell interpreta Larry Lamb e Claire Foy completa o trio principal. Jornalismo, poder, tablóides, populismo mediático e um magnata disposto a perceber antes dos outros que indignação também vende jornais: não se podia pedir tema mais discretamente contemporâneo. A sessão oficial começa amanhã, quarta-feira, às 19 horas na Sala Grande, depois das primeiras projeções para imprensa, que começam às 8h30 da manhã.
Antes do filme, Veneza entrega o Leão de Ouro de carreira a George Clooney, com Laura Dern encarregada da laudatio. Clooney é praticamente mobiliário do festival: já só falta batizarem um embarcadouro com o nome dele. Ellen Burstyn, aos 93 anos, recebe igualmente um Leão de Ouro pelo conjunto da obra, homenagem especialmente feliz porque não chega ao Lido para observar retrospetivamente a própria carreira: apresenta também trabalhos novos, incluindo Place to Be, de Kornél Mundruczó. O cinema, afinal, pode descobrir que as atrizes continuam a existir depois dos 70 sem necessitar de intervenção arqueológica.
O cardápio dos candidatos ao Leão de Ouro
A competição parece desenhada por alguém que decidiu não facilitar a vida aos jornalistas, nem ao júri. Martin McDonagh regressa com Wild Horse Nine, colocando Sam Rockwell e John Malkovich entre agentes da CIA no Chile pouco antes do golpe de 1973; aparecem também Steve Buscemi, Parker Posey e Tom Waits, porque evidentemente faltava gente. Depois de Três Cartazes à Beira da Estrada e Os Espíritos de Inisherin, McDonagh conhece suficientemente bem o caminho entre Veneza e os Óscares para não precisar de GPS. Robert Pattinson interpreta em Primetime, de Lance Oppenheim, uma personagem inspirada em Chris Hansen, apresentador americano associado ao programa To Catch a Predator. O casal Penélope Cruz e Javier Bardem volta a contracenar em Bunker, drama psicológico de Florian Zeller sobre casamento, medo e sobrevivência, acompanhado por Stephen Graham e Paul Dano. Werner Herzog dirige as irmãs Rooney, Kate e Mara em Bucking Fastard. Hirokazu Kore-eda traz Look Back. Nanni Moretti apresenta Succederà questa notte. Shinya Tsukamoto chega com o discretamente intitulado Mr. Nelson, Did You Kill People?. E Lee Chang-dong regressa ao cinema oito anos depois com Possible Love, 164 minutos de duração, porque quem esperou oito anos não vai agora discutir por causa de duas horas e quarenta e quatro.
O problema aparece quando contamos mulheres atrás da câmara. Dos 21 filmes que disputam o Leão de Ouro, apenas Woman Unknown, da dinamarquesa May el-Toukhy, é realizado por uma mulher. Uma. Em 2026. Num festival que já foi repetidamente confrontado com a questão da paridade. Veneza continua a gostar de se apresentar como janela do futuro do cinema; neste capítulo específico, a janela parece dar diretamente para 1987.
Elon Musk precisa de 225 minutos
A não-ficção ganhou este ano uma presença invulgarmente forte no Venice Open. Alex Gibney apresenta Musk, 225 minutos dedicados a desmontar a construção pública de Elon Musk, do empreendedor tecnológico à figura política e mediática. Quase quatro horas sobre Musk pode parecer excessivo, mas o próprio Musk ocupa há anos bastante mais tempo do planeta. Julia Loktev exige resistência ainda superior com My Undesirable Friends: Part II – Exile: 355 minutos acompanhando jornalistas russos independentes obrigados a abandonar o país depois da invasão da Ucrânia. Há também um documentário sobre a digressão de reunião dos Oasis e What Love Builds, filme autobiográfico musical de Russell Crowe. Entre Elon Musk, Putin, Liam e Noel Gallagher, o documentário contemporâneo deixou definitivamente de sofrer de falta de personagens temperamentais.
A política também apanha o vaporetto
Pensar que Veneza poderá decorrer apenas entre vestidos Armani, champanhe e discussões sobre mise-en-scène seria acreditar que ainda vivemos noutro século. DAU, de Ilya Khrzhanovsky, longa-metragem de 195 minutos inspirada nos cientistas envolvidos na criação da bomba atómica soviética, provocou protestos de instituições ucranianas, que questionaram a presença do projeto na competição. Barbera rejeitou a acusação de propaganda pró-Putin e defendeu que se trata precisamente de uma denúncia dos mecanismos totalitários. O filme é oficialmente uma produção Alemanha-França-Suécia. Gaza será outro dos centros inevitáveis da edição. NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor, foi acrescentado à competição e é o único documentário entre os 21 candidatos ao Leão de Ouro. Filmado em Telavive, investiga os mecanismos utilizados nas operações militares israelitas em Gaza e chega um ano depois de A Voz de Hind Rajab ter conquistado o Grande Prémio do Júri e provocado uma das mais longas ovações da história recente do festival. Entretanto, o coletivo Venice4Palestine voltou a exigir uma posição mais explícita da Bienal, incluindo o corte de relações com instituições ligadas ao governo israelita e a exibição da bandeira palestiniana. O tapete vermelho dificilmente ficará isolado do mundo que começa cinquenta metros depois das barreiras dos fotógrafos.
Do Lido diretamente para os Oscars
E depois existe a verdadeira competição paralela: aquela que só termina em Los Angeles.
Veneza percebeu há mais de uma década que podia tornar-se a primeira grande plataforma de lançamento da corrida aos Óscares. Gravidade ajudou a consolidar essa transformação em 2013; depois passaram pelo Lido futuros vencedores de Melhor Filme como Birdman, Spotlight, A Forma da Água e Nomadland. Em 2025, Frankenstein e Bugonia saíram daqui rumo às nomeações.
Toronto vem logo a seguir, Telluride continua a escolher cuidadosamente as suas bombas e Nova Iorque fecha o circuito, mas Veneza tem aquilo que nenhum deles consegue fabricar: glamour cinematográfico de velha escola. Uma estrela não sai simplesmente de um hotel. Desce umas escadas, entra num táxi aquático, atravessa a lagoa com óculos escuros, desembarca no Excelsior perante quarenta fotógrafos e percorre depois algumas centenas de metros até ao Palazzo del Cinema. Transformar deslocações urbanas em mitologia é uma especialidade veneziana.
O júri presidido por Maggie Gyllenhaal — acompanhada por Kaouther Ben Hania, Daniel Blumberg, Francesco Casetti, Xavier Giannoli, Shahrbanoo Sadat e Johnnie To — anunciará os prémios a 12 de Setembro. Até lá haverá filmes excelentes, filmes insuportáveis, obras-primas descobertas às nove da manhã, desastres ovacionados durante sete minutos, estrelas atrasadas, críticos irritados, agentes em pânico e pelo menos meia dúzia de “favoritos aos Óscares” que em janeiro ninguém se lembrará de ter visto e vai ter que voltar a ver.
Essa é, aliás, a melhor maneira de entender Veneza. Cannes ainda conserva o estatuto de grande catedral do cinema mundial; Veneza prefere a mistura perigosamente sedutora entre arte, indústria, celebridade, política, moda e antecipação. O Leão de Ouro interessa muito. Saber quem saiu melhor fotografado do táxi aquático também. E descobrir, no meio desta operação gigantesca de relações públicas, um filme que ninguém esperava e que nos obriga a esquecer durante duas horas Clooney, Musk, Murdoch, Gaza, os Óscares e até o preço obsceno de um café no Lido continua a justificar toda a viagem. Afinal, durante onze dias, o cinema mundial volta a fingir que cabe numa língua de areia onde foi rodado o Morte em Veneza. E, estranhamente, quase consegue.