Lisboa vai perder mais um cinema. Aliás, já estava perdido há muito tempo. Mas dito assim parece uma frase feita, daquelas que se escrevem entre duas novas aberturas e novidades na cidade: mais um café para nómadas digitais que serve brunch e mais uma loja de velas aromáticas com nome escandinavo. Mas não é. O antigo cinema Paris, ali na Rua Domingos Sequeira, entre a Estrela e Campo de Ourique, prepara-se para desaparecer de vez. Aquele “mono” destruído, ao lado da bomba da gasolina, vai abaixo. De vez mesmo.
Depois de décadas fechado, saqueado, emparedado, insultado pela chuva, pela burocracia, pelos pombos, pelos pareceres, pelas subalíneas e por essa forma muito portuguesa — ou simplesmente burocrática — de proteger património, que consiste em olhá-lo durante trinta anos sem se fazer nada, até ele pedir a eutanásia ou até aparecer um promotor imobiliário, perdão, um investidor, para o “salvar”, vai finalmente ser demolido para dar lugar a um prédio com 19 apartamentos, comércio no rés-do-chão e estacionamento subterrâneo. Um luxo, certamente. Ou seja: onde antes cabiam quase 900 espectadores, caberão agora 37 automóveis. Nada mau. Em Campo de Ourique, estacionamento é um luxo e um privilégio e, ao que parece, muito mais importante do que um cinema. É a versão urbanística do cinema contemporâneo: mais garagem, ou melhor, mais um episódio da saga “Velocidade Furiosa” do real estate de luxo em Lisboa, mas com menos emoção.
Uma verdadeira Paris na Estrela
O Paris abriu em 1931, num tempo em que ir ao cinema ainda era uma pequena viagem intercontinental, mesmo que fosse só no eléctrico 28 ou 26, que passavam mesmo ali à porta. Não era preciso apanhar avião, nem passar pelo controlo de segurança, nem pagar taxa turística. Bastava descer ou subir a Rua Domingos Sequeira, atravessar aquele território sentimental entre a Basílica da Estrela e Campo de Ourique, ainda com o cheirinho do Jardim Guerra Junqueiro — que toda a gente chama Jardim da Estrela —, comprar bilhete e entrar num edifício de linhas modernistas, gosto Art Déco, camarotes com mesinhas para chá e refrescos, fauteuils, balcões, plateia e até termómetro para o público confirmar que a sala estava confortável e arejada. Tudo muito chique, como em Paris.
Repare-se na delicadeza: o cinema preocupava-se com a temperatura do espectador. Hoje em dia, em certas salas, preocupam-se sobretudo com a temperatura das pipocas, que devem sair quentes, caras e ruidosas o bastante para transformar qualquer filme de Steven Spielberg numa experiência agropecuária ou alimentar, com muitas calorias, acompanhadas por aquele sopro sonoro no copo maxi de Coca-Cola.
Chamar-lhe Paris foi, de facto, um ato de uma certa genialidade. Lisboa sempre teve essa mania bonita de sonhar acima da sua escala, de dar um passo maior do que a perna. Mas não vem mal nenhum ao mundo por causa disso. Um Paris na Estrela, um Império na Alameda, um Monumental no Saldanha, um Éden nos Restauradores, um Royal, um Odéon, um Tivoli, um Condes, um São Jorge. Antigamente, a cidade punha nomes às salas de cinema que soavam a grandeza — hoje em dia, as mais sonantes são o Nimas ou o Ideal, e soam, no mínimo, a cinefilia; as outras têm nome de centro comercial —, mas era nesses lugares, nesses grandes cinemas, que o povo ia namorar, fugir de casa, aprender a beijar, a pôr ou dar a mãozinha no escurinho, a apanhar sustos, a ver a Branca de Neve, Marlene Dietrich, Hitchcock, Bruce Lee, John Wayne, os melodramas, as fitas bíblicas, os westerns, as comédias italianas, os franceses a preto-e-branco a fumarem muito e a sofrerem ainda mais, as reposições, as matinés, os desenhos animados, os filmes que vinham em segunda ou terceira volta — ou melhor, em reprise —, já com o brilho ligeiramente gasto, riscos e cortes, mas ainda capazes de iluminar uma infância e uma adolescência inteiras.
Nessa altura, os “reformados”, ou os mais idosos, não iam tanto ao cinema como agora, sobretudo às matinés. Tinham de continuar a trabalhar o dia inteiro ou tomar conta dos netos enquanto os filhos trabalhavam. Às vezes também iam ao cinema com os netos, como foi o meu caso. Mas cinema, praticamente, só aos domingos ou sábados à tarde. Lisboa era mais pobre, talvez mais cinzenta, seguramente mais reprimida, mas, caramba, tinha salas de cinema e semana inglesa. Tinha escuro partilhado. Tinha aquela coisa que hoje é quase uma raridade: pessoas sentadas juntas a olhar para a mesma imagem projetada num grande ecrã, sem poderem fazer pausa para ir ver as notificações ou as mensagens da prima ou da amiga no telemóvel.
O Paris não era apenas uma sala. Era uma verdadeira experiência de bairro, ou bairrista, como se dizia antes e como agora só se usa durante os Santos Populares. Um edifício onde se entrava para sair de Lisboa sem sair de Lisboa. A Estrela, que já tinha jardim, igreja, elétricos, velhas senhoras, criadas de outros tempos, estudantes, funcionários, militares, hospital militar e famílias inteiras, ganhava ali uma porta para Xangai, Roma, Hollywood, Paris mesmo, o deserto, a guerra, o amor impossível e a tragédia em Cinemascope. Um cinema de bairro era isso: a agência de viagens de quem não podia viajar, ou pouco mais do que viajar nas linhas dos elétricos. Era a janela grande de quem morava em casas pequenas. O divã coletivo de uma cidade que ainda não sabia dizer “saúde mental”, mas sabia perfeitamente o que era sair de uma sessão mais leve, mais triste, mais apaixonado ou mais desconfiado da humanidade.
De cinema a PIP
Depois vieram os anos 80, a televisão mais forte, os centros comerciais, os multiplexes, a mudança dos hábitos, a preguiça pública, os muitos carros na cidade, a falta de estacionamento como nova religião nacional. O Paris fechou em 1985, segundo a versão agora retomada no processo, e desde então foi entrando naquela categoria muito lisboeta: edifício devoluto com biografia, ferida aberta com dono, património com parecer, ruína com potencial, chaga com vista. Passou de cinema a problema. De problema a caso. De caso a dossier. De dossier a PIP — Pedido de Informação Prévia — camarário. De PIP a prédio. E, neste país, quando uma sala de cinema chega a PIP, está o caso arrumado: já não há projecionista que a salve.
Durante anos, discutiu-se se o Paris devia ser recuperado, se podia virar equipamento cultural, se a Câmara devia intervir, se o Estado devia comprar, se os privados tinham obrigações, se a proteção patrimonial protegia alguma coisa, se a Zona Especial de Protecção da Basílica da Estrela era proteção ou apenas poesia administrativa. O resultado está à vista: protegeu-se tanto, tanto, que o edifício apodreceu de protegido. É um método antigo, também muito nosso. Primeiro, afirma-se que o imóvel tem valor. Depois, não se faz nada. A seguir, constata-se que já não tem valor porque ninguém fez nada. Finalmente, autoriza-se a demolição com ar grave, invocando segurança pública, degradação avançada e pareceres competentes. A cidade e o município lavam as mãos, o promotor esfrega as mãos de contente, os moradores suspiram, os nostálgicos, como eu, escrevem crónicas que não têm impacto nenhum, e o betão entra em cena como protagonista. Viva o progresso e Lisboa aberta ao mundo, aos forasteiros que aqui se instalam e pagam os preços das casas pela hora da morte.
Lisboa precisa de casas. Claro que precisa. Precisa de casas para pessoas, para os lisboetas, e não apenas de ativos imobiliários com cozinha aberta, suite, estacionamento e uma descrição em inglês onde a palavra “charming” aparece antes mesmo de se saber se entra sol ou se tem vista para o Tejo. Mas esta conversa das casas tem sido usada demasiadas vezes como passe-partout moral para apagar memória. Como se cada demolição viesse sempre acompanhada de uma absolvição automática. “São fogos”, dizem. Pois são. Mas também ardem memórias. E, no caso do Paris, arde uma parte da história cultural de Lisboa, aquela que não cabe bem nos roteiros turísticos nem nas fotografias oficiais porque cheira a mofo, bilheteira, veludo gasto, pó de cabine, caramelos, humidade e adolescência.
O mais cruel é que o Paris já tinha morrido antes de ser demolido. A demolição física é apenas uma cerimónia fúnebre atrasada. Durante décadas, quem passava por ali via uma espécie de cadáver urbano com fachada. Um zombie Art Déco. Um cinema assombrado por sessões que já ninguém viu, por empregados que já ninguém conhece, por espectadores que talvez tenham ido ali ao primeiro encontro e hoje já têm netos que vêem filmes no telemóvel, na vertical, com legendas automáticas e atenção de esquilo anfetamínico. Mesmo assim, a ruína ainda dizia qualquer coisa. As ruínas dizem sempre qualquer coisa. Dizem: isto existiu. Isto juntou gente. Isto tinha luz lá dentro. Isto foi uma promessa. Isto foi abandonado por todos aqueles que agora explicam, com grande serenidade técnica, que já não há nada a fazer.
A cidade que desfaz os seus cinemas
Lisboa tem sido especialmente competente a desfazer os seus cinemas, ao contrário de outras cidades como Amesterdão, Londres, Paris e outras. O Monumental desapareceu e voltou em versão centro comercial, com três salas de cinema e nome herdado, como quem guarda o apelido de família depois de vender a casa dos avós; depois, definitivamente, virou edifício de escritórios e sede de banco. O Éden virou hotel, com uma bela fachada a fazer de máscara mortuária. O Odéon foi engolido pelo luxo possível. O Alvalade é o Cinema City, que, apesar de multiplex com quatro salas, lá vai cumprindo razoavelmente o seu papel de cinema de bairro. O Royal, na Graça, foi-se. O Europa, em Campo de Ourique, resistiu como nome, memória, polémica e saudade; agora é uma biblioteca pública — vá lá, vá lá — e um prédio de apartamentos. Mas, caramba, em vez de estacionamento, bem podiam ter feito pelo menos uma sala de cinema. O Quarteto fechou como se fechasse uma universidade clandestina de cinéfilos. Restam o São Jorge, o Nimas, o Tivoli, o Ideal; o King continua à espera de ser ressuscitado, em espírito ou em esforço, e pouco mais. Mas duvido: pelos custos, nenhum privado se vai meter nisso. Salas que já parecem sobreviventes de guerra, veteranos com cicatrizes, à espera que a cidade se lembre de que cultura não é apenas festival de Verão, cartaz institucional e selfies com o Presidente da Câmara a sorrir ao lado das estrelas nacionais ou internacionais.
Ir ao cinema numa grande sala era uma educação sentimental. Não se via apenas um filme: aprendia-se a estar no mundo. Aprendia-se a chegar a horas, a escolher lugar, a espreitar quem entrava, a perceber se a sala estava cheia, a sentir a respiração dos outros, a ouvir o riso coletivo quando a comédia funcionava, o silêncio absoluto quando a tragédia acertava no peito, o murmúrio irritado quando a cópia partia ou o som falhava. Aprendia-se que o cinema era maior do que nós porque, literalmente, era maior do que nós. A imagem tinha tamanho de grande muro ou de parede, os rostos tinham dimensão de destino, os beijos pareciam monumentos, os tiros faziam estremecer a cadeira, e uma lágrima de Ingrid Bergman ou de Anna Magnani podia lavar a alma a uma fila inteira.
Hoje temos a oportunidade de ver muitos filmes — mais as séries e os filmes que estreiam no streaming —, talvez mais do que nunca, mas vemos pior. Vemos em casa, no sofá, na cama, no comboio, no avião, no intervalo entre duas mensagens, com o frigorífico como rival dramático e a máquina de lavar como banda sonora. A intimidade ganhou, a cerimónia perdeu. O streaming trouxe o mundo inteiro para dentro do bolso, mas também transformou cada filme numa coisa interrompível, adiável, descartável e até sem intervalo com letras grandes no ecrã. A sala de cinema, quando ainda funciona como deve ser e tem público à altura, continua a ser o último lugar civilizado onde aceitamos ficar calados perante uma imagem. Isso devia contar para alguma coisa. Em Lisboa, aparentemente, conta menos do que três pisos de estacionamento.
O Paris teve ainda uma despedida cinematográfica involuntária quando Wim Wenders filmou no seu interior degradado cenas de “Lisbon Story”, em 1994, por altura de Lisboa Capital Europeia da Cultura. Fez sentido. Só um alemão apaixonado por Lisboa poderia perceber que aquele cadáver ainda tinha cinema dentro. Os lisboetas, mais práticos, preferiram esperar que o cadáver se tornasse argumento urbanístico. Wenders viu melancolia; nós vimos potencial construtivo. Ele filmou fantasmas; nós contabilizámos metros quadrados. É uma diferença de olhar, e as cidades morrem muitas vezes por causa disso: não por falta de dinheiro, mas por falta de imaginação.
A memória não facilita o estacionamento
Quando o Paris cair, não cairão apenas paredes, porque o telhado já não tem há muito tempo. Cairá a ideia de que os bairros podiam ter grandes salas de cinema; agora, se calhar, já não precisam de ter grandes ecrãs, mas que pelo menos proporcionem grandes encontros. Cairá mais um pedaço da Lisboa que sabia sonhar sentada no escuro. No lugar dele virá um prédio novo, respeitável, regulamentar, aprovado, talvez bonito, talvez caro, talvez com varandas discretas e uma loja no rés-do-chão onde se venderá qualquer coisa orgânica, artesanal e impossível de pagar por quem ali ia ao cinema. Um dia, talvez uma placa diga: “Aqui existiu o cinema Paris.” E alguém passará, lerá, encolherá os ombros e perguntará no telemóvel onde fica o café escandinavo mais próximo que serve brunch em vez de um galão e um pão com manteiga.
Lisboa não destrói a memória de repente. Vai-a deixando ao abandono, com delicadeza, até a memória parecer culpada por ocupar espaço. Depois chama uma máquina, abre uma cave, vende a vista e manda-nos seguir em frente. Mas quem ama cinemas grandes sabe que não se segue assim tão depressa. Um cinema fechado continua a projetar. Projeta ausências, tardes perdidas, beijos clandestinos, filmes esquecidos, espectadores desaparecidos, bilhetes rasgados, lanterninhas com os bolsos a tilintarem com as moedas da gorjeta, cortinas, intervalos, medo da bruxa, desejo, espanto e aquela felicidade simples de entrar numa sala anónima e sair de lá ligeiramente diferente.
O Paris vai abaixo. Paris, desta vez, já não fica na Estrela. Já não temos Paris, ao contrário do que dizia Bogart em “Casablanca”. Fica apenas na memória. E a memória, como se sabe, não tem licença de construção, não dá estacionamento privado e raramente passa na reunião de câmara. Mas, ainda assim, é o único lugar onde os belos cinemas de Lisboa continuam abertos.