Claudia Cardinale morreu e com ela foi-se mais do que uma atriz: foi-se uma parte inteira da cinefilia, daquelas memórias que não cabem em fotografias, apenas em emoções. De repente, sentimos que ficámos mais pobres. Não só porque já não veremos mais o seu rosto de bronze mediterrânico e o olhar indomável, mas porque perdemos mais uma das últimas testemunhas vivas da grande época do cinema italiano.
Claude Joséphine Rose Cardinale nasceu em 1938, em Túnis, filha de sicilianos emigrados. Parecia destinada a uma vida banal até ser apanhada por um concurso de beleza que a levou a Veneza. Na altura dizia, com uma birra quase adolescente, que não queria ser atriz. Não queria saber de câmaras nem de refletores. Mas o cinema é caprichoso: quando escolhe alguém, não adianta resistir. E para Cardinale tornou-se inevitável.
O primeiro papel chegou pelas mãos de Mario Monicelli, em Os Solteirões Incongruentes (I soliti ignoti, 1958). Não falava bem italiano, estava aterrorizada e acabou por dar com uma porta na cara do actor Renato Salvatori com tanta força que quase lhe partiu o nariz. Monicelli, sempre paternal, disse-lhe: “Claudia, no cinema finge-se”. E ela aprendeu depressa. Aprendeu tanto que, poucos anos depois, já estava a dançar a célebre valsa com Burt Lancaster em O Leopardo (1963), de Luchino Visconti, talvez a cena mais bela de todo o cinema italiano.
Foi Angélica, foi Carmelina, foi Aida, foi Jill em Era uma Vez no Oeste (1968), de Sergio Leone, ao lado de Charles Bronson, Henry Fonda e Jason Robards. Foi a prostituta com coragem para desafiar pistoleiros e magnatas; foi a mulher livre quando ainda não havia linguagem para falar de liberdade feminina. Em Fellini, em Visconti, em Comencini, em Bolognini, em Leone, Cardinale trouxe sempre uma fisicalidade indomável, uma beleza telúrica e uma rebeldia que nunca se deixou domesticar.
Hollywood também a quis. Trabalhou com Blake Edwards em A Pantera Cor-de-Rosa (1963) e com John Wayne em O Mundo do Circo (1964) de Henry Hathaway. Chamaram-lhe “a mais bela invenção italiana desde o esparguete”. Mas ela nunca se deixou seduzir pelo sonho americano. Recusou contratos milionários e preferiu ficar na Europa, no seu território, onde podia escolher papéis e preservar a sua independência.
A sua vida pessoal foi menos luminosa do que os refletores de luz do cinema. Mãe solteira em segredo, presa a contratos leoninos que controlavam até os seus afetos, sobreviveu a abusos, chantagens e silêncios. Mas transformou essas feridas em energia criativa. “Adoro viver outras vidas através do cinema”, dizia. Talvez porque a sua própria vida nunca foi fácil.
Na década de 1970, libertou-se do produtor Franco Cristaldi e encontrou amor e parceria artística com o realizador Pasquale Squitieri. Teve a coragem de desaparecer durante dois anos, voltar, e provar que não precisava de ninguém a controlar-lhe a carreira. E conseguiu. Werner Herzog chamou-a para Fitzcarraldo (1982), Marco Bellocchio ofereceu-lhe Claretta no filme histórico Enrico IV (1984), com Marcello Mastroianni a partir da peça de teatro de Luigi Pirandello, mas entretanto Liliana Cavani tinha-lhe dado A Pele (1981). E sempre que aparecia em cena, mesmo em papéis pequenos, tudo se tornava maior, mais intenso.
Mas Claudia Cardinale não foi só cinema. Foi também voz ativa contra a SIDA, embaixadora da UNESCO, defensora dos direitos das mulheres, combatente contra a violência e a discriminação. Sempre discreta, mas firme. Nunca quis o estatuto de diva, preferia ser chamada simplesmente de Claudia.
O reconhecimento no cinema chegou cedo: Leão de Ouro de Carreira em Veneza em 1993, Urso de Ouro honorário em Berlim em 2002 e depois como cidadã com a Grande Oficial da República Italiana, Legião de Honra francesa. Mas os prémios são apenas medalhas; o que fica são as suas belas imagens. E essas estão gravadas a fogo: o vestido branco de Angélica no baile de O Leopardo, o pó do deserto em Era uma Vez no Oeste, o sorriso cúmplice em 8½.
Despedimo-nos de Claudia Cardinale com nostalgia e gratidão. Despedimo-nos da “rapariga que não queria ser atriz” e acabou por ser uma das últimas grandes atrizes de um cinema que já não volta. Perdemo-la, sim, mas ganhámos uma memória eterna. Enquanto houver cinéfilos, haverá Claudia Cardinale.