Investigadora e jornalista multipremiada, Svetlana Alexievich dedicou os últimos 35 anos a ouvir aqueles que nunca são ouvidos. Por exemplo, as mulheres que viveram a chamada Grande Guerra Patriótica (A Guerra Não tem rosto de mulher), ou os homens que lutaram no conflito entre o Afeganistão e a União Soviética (Os Rapazes de Zinco), ou os suicídios ocorridos na sociedade pós-soviética (Encantados pela morte). Escreveu também sobre as mágoas do dito homem vermelho e a alma russa, ou seja, a nação que emergiu depois de Gorbatchov, esperançosa num futuro brilhante, no livro O Fim do Homem soviético, já publicado em Portugal (Porto Editora), onde, à maneira de um coro, lemos testemunhos pessoais que confessam memórias e expetativas face ao processo democrático.
É esta polifonia ouvida na realidade que carateriza a escrita de Svetlana Alexievich, e que esboroou as fronteiras entre a literatura e o jornalismo. E é o método que ela afinou em Vozes de Chernobyl – história de um desastre nuclear (Elsinore), agora chegado às livrarias nacionais. Publicado originalmente em 1977, após uma década de investigação no local em que a autora ouviu mais de 500 pessoas: os habitantes das aldeias em torno de Chernobyl, os bombeiros que acudiram ao local, os soldados e os sobreviventes, os familiares e amigos daqueles que morreram. Tudo isto depois dos media tradicionais terem noticiado o assunto e passado à frente, para outros assuntos do dia.

Vozes de Chernobyl é o segundo livro de Svetlana Alexievich publicado em Portugal
O assunto continuava: No dia 26 de abril de 1986, uma série de explosões destruiu o reactor aparentemente invencível da central nuclear, localizada na Ucrânia, perto da fronteira com a Bielorússia – ainda partes integrantes da União Soviética. As autoridades soviéticas demoraram a assumir o problema, e a revelar os perigos da contaminação pela radiação, enviando funcionários mal treinados e mal protegidos. Começava a hora do inferno. Svetlana Alexievich permaneceu lá, fez centenas de entrevistas, que refazia e editava, até sobrarem algumas páginas onde não é precisa a presença voz da narradora – um coro.
Leia aqui excertos de um testemunho:
Liudmila Ignatenko – mulher do falecido bombeiro Vassíli Ignatenko
“Não sei do que hei de falar… Da morte ou do amor? Ou serão eles a mesma coisa…De qual deles devo falar? …Éramos recém-casados.Ainda andávamos de mãos dadas, mesmo que fosse para ir apenas à loja. Sempre juntos. Eu dizia-lhe:«Amo-te.» Mas nessa altura não sabia o quanto. Não fazia ideia… Vivíamos na residência coletiva do quartel de bombeiros onde ele trabalhava. No primeiro andar. Havia três jovens casais, partilhávamos todos a cozinha. em baixo, no rés do chão, guardavam-se os veículos. Veículos vermelhos de combate ao fogo. Era esse o seu trabalho. Eu estava sempre a par da situação: onde ele se encontrava, o que lhe acontecia. Certa noite, ouvi um barulho. Gritos. Olhei pela janela lá para fora. eue viu-me. “Fecha os postigos e vai-te deitar. Há um incêndio na central. Já volto.”
Não vi a explosão propriamente dita. Só as chamas. Tudo irradiava luz… Todo o céu… Uma chama alta. E fuligem. O calor era horrível. E ele, que não voltava. A fuligem vinha do betume queimado, o telhado era betumado. Mais tarde, disse-me que era como andar em cima de alcatrão. Eles fustigavam as chamas, mas elas iam reaparecendo. subindo. Atiravam a grafite em chamas com os pés. Foram sem o equipamento de lona, só como estavam, em mangas de camisa. Ninguém os avisara, tinham sido chamados para um incêndio comum.
(…) Sete horas… Às sete disseram-me que ele estava no hospital. Corri até lá, mas a milítsia já tinha rodeado o local e não deixava ninguém passar. Só ambulâncias. Os polícias gritavam: Não se aproximem das ambulâncias, a escala do contador já não chega para medir a radiação! eu não era a única pessoa que ali estava; todas as mulheres cujos maridos estavam na central naquela noite tinham vindo.

A destruição e abandono em Chernoby
© Gleb Garanich / Reuters
Ele começou a mudar:a cada dia, deparava com uma pessoa diferente… As queimaduras começaram a vir à superfície. Na boca, na língua, nas faces surgiram no início lesões muito pequenas, que depois cresceram. As mucosas caíam em camadas, em películas brancas. A cor do seu rosto… A cor do seu corpo… Azul… Vermelho… Cinzento-acastanhado. E tudo aquilo era tão meu, tão querido! É impossível contá-lo! É impossível escrevê-lo! E até vivê-lo… A única coisa que me salvou foi que tudo aconteceu tão depressa, que não houve tempo para pensar, não houve tempo para chorar.
Ausentei-me… Volto – está uma laranja na sua mesa de cabeceira. Uma grande laranja, não amarela, mas cor de rosa. Ele sorri: “Ofereceram-ma. Leva-a.” Entretanto, a enfermeira faz gestos através do biombo, a dizer que não posso comer aquela laranja. Esteve perto dele durante algum tempo, portanto, não só não se deve comê-la, como nem se deve tocar-lhe. “Vá lá, come-a”, pede ele. “Tu gostas de laranjas.” Pego na laranja. Entretanto, ele fecha os olhos e adormece. Estavam sempre a dar-lhe injeções para o npor a dormir. Narcóticos. A enfermeira olha para mim, horrorizada…
Diante dos meus olhos… Meteram-no com o seu uniforme de gala num saco de celofane e ataram-no. e depois puseram o saco no caixão de madeira. E amarraram o caixão com outro saco. O celofane era transparente mas espesso, como um oleado. E, finalmente, puseram tudo isto num caixão de zinco, à força. Só ficou em cima o quepe.
Comprámos lenços pretos em Moscovo. Fomos recebidos pela Comissão Extraordinária. Disseram a todos nós a mesma coisa: É-nos impossível dar-vos os corpos dos vossos maridos, dos vossos filhos, estão em estado muito radioativo e vão ser enterrados num cemitério de Moscovo, de forma especial. Em urnas de zinco seladas, debaixo de lajes de cimento. E vocês têm de assinar este documento. É preciso o vosso consentimento. Se alguém se indignava e queria levar o caixão de volta para a terra natal, diziam-lhes que os mortos, como bem viam, eram agora heróis e já não pertenciam às suas famílias. Já eram figuras do Estado… Pertenciam ao Estado.

Vista da central nuclear
© Stringer Russia / Reuters
Há muitos de nós aqui. Uma rua inteira, chamam-na assim mesmo: Chernóbylskaia. Estas pessoas trabalharam toda a vida na central. Muitas delas ainda vão para lá trabalhar, a central agora opera num sistema rotativo. Já ninguém vive naquele lugar, nunca vai viver. Têm doenças graves, diferentes graus de invalidez, mas não largam os empregos, têm medo sequer de pensar nisso. Não têm como viver sem o reactor, a sua vida é o reactor. Onde e quem precisará deles noutro lugar, agora? Morrem com frequência. Num instante. Morrem a andar: alguém caminha e cai, adormece e não acorda, leva flores à sua enfermeira e o coração para-lhe. Está numa paragem de autocarro… As pessoas morrem, mas ninguém lhes perguntou nada. Ninguém nos perguntou pelo que passámos. O que vimos… Ninguém quer ouvir falar da morte. Do que é assustador…
Mas eu falei-lhe do amor… Do quanto amei…”