Agora chegado às livrarias, Nada Está Escrito (Dom Quixote) reúne os mais recentes poemas de Manuel Alegre, 75 anos – só Balada para Jesse Owens, escrito nos tempos do exílio em Argel, é exceção. A realidade, e “a depressão coletiva” do País, entrou por estes poemas dentro.
Agora, o escritor e político está de regresso à prosa, às voltas com um futuro livro, “mais complicado do que os outros que escrevi”: “Tenho dificuldade em explicar, mesmo a mim próprio, o que ando a escrever…”
Como é o seu quotidiano, ou método, como poeta?
Posso estar muito tempo sem escrever e, depois, há uns ciclos em que escrevo com bastante intensidade. De uma forma geral, agora, os poemas aparecem feitos. Já passei o tempo do trabalho, de rasgar muitos cadernos e tal… Essa parte oficinal, de aprendizagem, é de outra época. Citando Rilke, a voz que se serve de mim é mais do que eu mesmo. Também escrevo menos, e não me preocupo muito com isso. Eu sou dos que acreditam na inspiração. Acho que na grande poesia há sempre uma iluminação. Escrevo muitas vezes à noite, naquela hora em que estamos quase a adormecer, e nos vem aquela toada, aquelas coisas lá do fundo…
Mas alguns poemas deste livro sugerem um poeta mais diurno, observador da vida na cidade…
Aconteceu aqui, é verdade. Neste livro, falo bastante da cidade. Ando muito a pé, aqui pelo bairro [mora perto do Areeiro, em Lisboa]. E vejo que a cidade mudou. Aquele poema “Nas ruas cheias de gente/ vi as pessoas desertas”, saiu-me assim de repente… Tenho visto, sobretudo na hora de ponta, as pessoas que passam sem olharem para ninguém, a olharem para dentro, a falarem sozinhas. Fenómenos que mostram haver uma depressão coletiva que tem tido diferentes expressões individuais. Há um estado de espírito que se exprime nas ruas. A cidade mudou: está mais triste, mais macambúzia.
Quando está mais envolvido na vida política ativa, por exemplo em campanhas, escreve menos, não?
O poema quando rompe, rompe mesmo. Costumo dizer que se escreve poesia até na boca de um canhão. Já escrevi poesia em plena guerra, a ser interrogado pela Pide, numa cela, no exílio, até na Assembleia da República que não parece um local muito propício… Numa campanha eleitoral, é difícil. Eu vivi sempre dividido… Às vezes perguntam-me como é que concilio a política e a escrita. Não se concilia e… concilia-se! A vida e a escrita são inseparáveis. Foi a minha circunstância. A escrita esteve sempre presente.
Tem a disciplina de escrever sempre que lhe ocorre um poema?
Já perdi poemas… Houve um período da minha vida, sobretudo o dos primeiros livros, em que escrevia muito de cabeça. Muitos dos poemas que estão na Praça da Canção escrevi-os na cabeça, estava numa cela, não tinha com que escrever… Isso vê-se até na própria estrutura dos poemas, que tinham sempre uma certa oralidade: eu tinha que falar, que dizer o poema. E tinha uma memória muita boa… Agora é uma questão de caneta e de papel. Quando me vem o poema, escrevo-o.
Logo no primeiro poema, Balada dos Aflitos, diz que “este, por certo, não é tempo de poesia”. Os tempos não são todos de poesia?
Pois… Estava aqui a ler A Terceira Miséria, da Hélia [Correia], e ela, citando Hölderlin, pergunta “para que servem os poetas em tempo de indigência”. É uma pergunta que também faço… Servem para escrever, como ela fez, uma belíssima elegia. Cada bom poema que se faz é uma derrota da indigência. E a indigência está em todo o lado, não é só nessa aflição das pessoas, na crise, nos cortes… Está na linguagem. Há a cultura do número, taxas de juro, só se ouvem números, números, números… A economia e as finanças envolveram os discursos, com uma contaminação, degradação e pobreza da linguagem. A função da poesia é libertar a linguagem, desocupá-la, restituir à palavra a sua força primordial, mágica. Às vezes, apetece-me começar a dizer poemas às pessoas. “A poesia é para comer”, como dizia a Natália [Correia].
Essa Balada é diretamente dirigida a essas pessoas tristes que vê nas ruas?
Há uma grande intertextualidade nesse poema. Há o Villon, do “Frères humains qui après nous vivez” [Ballade des Pendus], há o Camões, o Kaváfis, o António Nobre… Apareceram aí, todos juntos. Socorri-me desses poetas para responder a uma aflição. Esse poema foi mesmo despoletado pela manifestação em Espanha e, depois aqui, dos indignados. É gente que está indignada, aflita, mas que não tem, como havia no meu tempo, a chamada perspetiva revolucionária, um horizonte.
Viu essa ausência de horizonte nessa manifestação?
Vi. Há uma vontade de mudar, mas depois tudo aquilo se desagrega, dilui-se.
Não há sequer um discurso muito claro…
Pois, não há. E é natural que não haja, porque não há respostas muito claras para esta situação. Talvez a poesia seja uma forma de dar um sentido, uma expressão a esses movimentos. Isso aconteceu aqui, durante a ditadura. Nós tínhamos necessidade de poesia. Havia um livro do Eugénio, ou da Sophia, ou do Cesariny, e nós íamos todos ler, a poesia era partilhada, passávamos noites a ler poemas uns aos outros. A revolução que a poesia pode fazer é sempre a revolução da linguagem. Mas muitas vezes a revolução poética antecede outras revoluções.
Mas nos anos 60/70 sabiam muito bem o que queriam: derrotar o regime, a ditadura…
Havia uma esperança. Sabia-se que derrubando a ditadura haveria uma série de mudanças na sociedade, como veio a acontecer. E havia um horizonte coletivo. A perceção de que a solução dos muitos problemas individuais passava por uma solução social, coletiva. Neste momento, há muito mais individualismo, pequenos grupos, uma maior dispersão.
Em dois poemas do livro parece inevitável ouvirmos um eco da sua derrota eleitoral nas últimas presidenciais. No poema Glória de Perder e no Mea Culpa. É uma leitura legítima?
Acho que não… A Glória de Perder é sobre uma figura que sempre me impressionou: o Prior do Crato. Aliás, há uma grande peça do Jorge de Sena sobre ele, O Indesejado, um pouco esquecida… Foi uma figura controversa, e a derrota dele, na altura, foi a derrota de Portugal. Mas, não raramente, essas derrotas têm a sua glória…Normalmente só se celebram as vitórias – e às vezes mal, porque nem sabemos se uma vitória foi mesmo uma vitória… E há derrotas que têm, em si, pelo menos, a glória da grandeza, do tipo que resistiu e se bateu.
E o Mea Culpa?
É uma provocação. Tem mais a ver com os circuitos literários… Já digo isso [“Desculpem lá se tenho biografia”, primeiro verso do poema] há muito tempo, desde uma entrevista à minha querida amiga Clara Ferreira Alves… Houve aí uma altura, dominada pelo estruturalismo, em que havia o culto do texto pelo texto e se dizia que poeta não tinha que ter biografia… Havia quem dissesse que eu tinha biografia a mais, ou que a minha poesia estava demasiado marcada pela minha biografia… Tudo está marcado, inevitavelmente, pela nossa biografia, e a minha foi bastante agitada, de facto. Isso era uma discussão muito presente na minha geração, e eu quase era excomungado por ter biografia, não andar aí escondido. Há os aparelhos e os sectarismos políticos e também há os literários… Muitas vezes mais ferozes.
Essas suas derrotas, então, não se encontram aqui…
É preciso distinguir a minha primeira candidatura da segunda, foi muito diferente… A primeira derrota soube a vitória. E a segunda também não a encaro tanto como uma derrota…
Pelo que disse agora, no prefácio ao livro de Alfredo Barroso [A Crise da Esquerda Europeia], até está satisfeito por ter perdido…
Isso foi outra provocação… O que me impressionou na minha segunda candidatura foi o esforço que foi feito, pelas forças dominantes, para desvalorizar a própria campanha presidencial. A campanha, mesmo na comunicação social, foi quase como se não existisse… Essa tentativa revoltou-me, indignou-me. E esse esforço, acredito, foi perfeitamente intencional… Agora percebo melhor: com esta crise toda terem que lidar com um Presidente apoiado pelo Bloco de Esquerda, e com fama de ser um tipo da esquerda… Ia estragar muito o jogo político.
Para si também seria um papel difícil…
Ia ser difícil, sem dúvida… Mas essa frase é uma ironia. Alguma coisa faria, neste contexto, não sei bem o quê, mas alguma coisa faria… Até poderia provocar um sarilho desagradável para o País…
São muitos “ses”…
Se lá estivesse e se não me resignasse, que era o mais provável…
O título do livro, Nada Está Escrito, pode ser interpretado como uma manifesto político? Essa ideia primordial da esquerda de que podemos condicionar, transformar o nosso futuro…
Eu diria que é mais um manifesto poético… Mas tem múltiplos sentidos. Cada vez que se escreve tem-se a sensação de que se está a escrever pela primeira vez. Mas também tem essa leitura, sim: não há coisas pré-determinadas, nós fazemos o nosso destino. E mesmo escrever, pode ser uma maneira de construir, e alterar, o nosso destino.
Uma pergunta que, na verdade, é sua, colocada no tal prefácio: neste contexto histórico como é que a esquerda não capitaliza nas eleições? Qual é a sua resposta?
Esse é o grande paradoxo do nosso tempo. Isso acontece porque as esquerdas todas que estiveram no poder na Europa deixaram-se contaminar por uma ideologia neoliberal. E depois de Maastricht [em 1992] consagrou-se essa Europa neoliberal. E a esquerda, na verdade, nunca se uniu… Hoje, um pouco por toda a Europa, é muito difícil o diálogo entre as várias esquerdas, mas é mais difícil ainda mudar este estado de coisas sem que esse diálogo aconteça. Eu já o tentei, e já paguei por isso… Há uma autocrítica que os socialistas têm que fazer. Do Partido Comunista já nem digo nada… O PCP, o Bloco e os outros deviam pensar quais foram as consequências de tudo isto: termos agora a direita no poder numa altura em que tudo era propício para que a esquerda fosse alternativa. Criou-se aqui uma hegemonia cultural e ideológica de direita, no sentido de fazer crer às pessoas que não há outras soluções, que isto é inevitável…
De que tudo está escrito…
De que tudo está escrito… Fomentar o conformismo das pessoas, ter as pessoas a amochar… Isso passa pelas televisões, pelos jornais, pelos comentadores. Para voltarem ao poder, os partidos socialistas, e outros de esquerda, têm que travar uma luta ideológica – e também entre eles… Dentro do PS tem que haver um debate ideológico com o PCP e com o Bloco, para se saber, ao fim e ao cabo, o que é que se quer, qual é a perspetiva…
Esse cenário parece muito longe…
Eu tentei, tenho tentado, e vou continuar a tentar. E vejo camaradas meus, jovens, que fizeram a minha campanha e têm andado comigo, a terem um pensamento estruturado. Há malta mais jovem mesmo dentro do grupo parlamentar do PS, e isso é muito mais importante do que estar à espera que apareça um salvador…
Vê alguns indícios desse futuro no PS de António José Seguro?
Vejo uma certa consciência no partido de que alguma coisa tem que ser mudada, mesmo se não se sabe bem como nem em que sentido… Temos sempre presente, agora, a questão do memorando: mas este Governo vai muito além do memorando, tem uma agenda ideológica clara, liberal.
E o PS está inevitavelmente preso a esse memorando…
Estão presos mas devem ir-se libertando a pouco e pouco… Para já, têm que estabelecer uma diferença entre o que é o memorando e o que vai para além dele, nas ações deste Governo… E é preciso dizer que o memorando não é um texto sagrado… Eu sou um homem livre. Não sou um aparelhista, nunca fui. Também fui do PCP e já era a mesma trapalhada… Tenho dificuldade em compreender a disciplina pela disciplina, talvez por ser poeta, também.
Resposta em verso
Manuel Alegre ofereceu um exemplar de Nada Está Escrito a Vasco Graça Moura. Na volta do correio, recebeu, “com um abraço”, este poema, que a VISÃO revela
Sobre um livro de Manuel Alegre
Manuel Alegre deu / o dito por não dito / quando escreveu / “nada está escrito” / (e eu / repito)
Nele, o poema / é o som e o sentido / de um problema / vivido / (e eu / não duvido)
Voz que afirma ou nega / à tona e no fundo, / joga à cabra-cega / e desvenda o mundo / (e eu / o secundo)
Voz que entrelaçou / o feio e o bonito, / o mais chão, o voo, / o não dito e o dito / (e eu / acredito).