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Nos últimos tempos têm-se falado muito desse pequeno-grande-homem chamado Roman Polansky mais pela sua vida polémica, do que talvez pela sua brilhante obra cinematográfica. Na verdade, muito pouco se tem destacado desses seus dons dos deuses e demónios, que se chama inteligência e um talento natural para contar histórias incríveis num misto de inquietação, terror e compaixão. Isto mesmo quando aceita desafios aparentemente menos ambiciosos como o de adaptar peças de teatro famosas (como a ‘A Noite da Vingança’ de Harold Pinter) ao cinema, como esta ‘Carnage’/’O Deus da Carnificina’, da dramaturga francesa Yasmina Reza. Uma peça que por sinal esteve em cena no Teatro Aberto, com o título ‘O Deus da Matança’, em Junho de 2009, encenada por João Lourenço e com Joana Seixas e Sérgio Praia no papel de uns compreensivos pais de Bruno, o rapaz que ficou com os dentes partidos e, Sofia Portugal e Paulo Pires nos pais do inexplicavelmente violento Fernando. Polansky segue curiosamente quase na íntegra a tragicomédia de Reza e do espectáculo do Teatro Aberto embora com os nomes originais e ligeiramente mais em tom de comédia, iniciando a história exactamente no parque onde os garotos discutiram e um agride o outro. Tudo visto à distância e com o perturbante ambiente sonoro da música de Alexandre Desplat, enquanto passa o genérico inicial. Mas tudo se passa num único plateau com quarto adultos conversando numa sala, nem sempre de uma forma muito amena: um cínico e pragmático advogado (Christopher Waltz) de uma multinacional farmacêutica e uma afirmativa broker (Kate Winslet) que chegam para discutir civilizadamente a brutal agressão com os pais do outro miúdo; e do outro lado está um pai bonacheirão (John C. Reilly) e uma culta e deprimida mãe dona-de-casa (Jodie Foster) dos subúrbios. A partir desse momento tudo é imprevisível e cada gesto e situação vão forçando a tempestade, num intrincado jogo de máscaras, mantido pela dialéctica dos diálogos, que parece não terem um final. Mas debaixo deles emerge quase sempre uma mentira, um disfarce, uma violência contida, uma superficial luta de classes, numa permanente e hilariante catarse de sentimentos e sensações perversas e acéticas, centradas nos temas da família, trabalho e sociedade. Polansky controla tudo milimetricamente e mais ainda o extraordinário material do argumento da peça de Reza. Mas ‘O Deus da Carnificina’, não seria a mesma coisa se Polansky não tivesse ao seu dispôr (genial até na formação dos casais) quarto dos melhores actores do momento, a representar como não estamos habituados a vê-los: Jodie Foster e Kate Winslet são genialmente trágicas num registo de comédia, ao passo que John C. Reilly e Christopher Wlatz, ‘suportam’ o drama das mulheres, com o talento que lhes confere o estatuto dos melhores actores secundários da actualidade. A reunião dos quarto actores é um grande acontecimento cinematográfico, a que se juntam um argumento perfeito e um realizador que sabe como ninguém mexer os cordelinhos das personagens e dos actores. Por isso com filmes assim vale a pena ir ao cinema.